Por Luís S. Bocatios
Acima de tudo, a música é uma experiência sensorial. Muitos relatam que ouvir determinada música os dá uma energia a mais enquanto fazem exercícios; outros, que uma banda específica os remete novamente aos tempos de adolescência ou infância. Com a chegada do inverno, que tem início neste sábado (21), elaboramos uma lista de cinco discos que funcionam perfeitamente nesse clima e prometem deixar a sua alma tão gelada quanto os ventos da estação.
Closer (1980, do Joy Division)
Se Unknown Pleasures já era o prenúncio da tragédia que aconteceria com Ian Curtis, Closer é o som do luto absoluto. Lançado dois meses após o suicídio do vocalista, o segundo e último álbum do Joy Division parece ter sido gravado em uma catedral abandonada, sob o peso da neve e da desesperança.
Mais eletrônico do que seu antecessor, o disco traz batidas que soam como ecos em corredores vazios, enquanto os sintetizadores e baixos arrastam a alma por terrenos escuros e a voz de Curtis ressoa como se viesse de outro plano.
Faixas como as fantásticas “Isolation”, “Colony”, “A Means to an End” e “Twenty Four Hours” passam longe de aquecer ou confortar, mas fazem companhia nos dias mais congelantes. É um disco para o inverno mais intenso de todos: aquele que congela tanto por fora quanto por dentro.
Black Celebration (1986, do Depeche Mode)
Poucas bandas se encaixam tão bem com o inverno quanto o Depeche Mode. Lançado em 1986, Black Celebration talvez seja o disco mais soturno do grupo — mesmo que Violator, Songs of Faith and Devotion e Memento Mori também sejam concorrentes de peso nesse quesito.
Com sintetizadores densos e um clima absolutamente nefasto, o álbum conduz o ouvinte por uma jornada emocional que pode ser até mais profunda do que ele esperava encarar, com uma intensidade que faz com que Black Celebration soe mais sombrio do que praticamente qualquer outro disco já lançado (a maioria das bandas de black metal apenas sonha em fazer algo 50% tão pesado quanto ele).
Para comprovar, basta ouvir faixas como a poderosa “Fly on the Windscreen”, a frágil “A Question of Lust”, a marcante “Stripped” ou a fúnebre faixa-título. Quando o termômetro despencar, guarde o Rivotril, apague as luzes do seu quarto e se entregue ao ritual.
Disintegration (1989, do The Cure)
Considerado por muitos o ápice emocional e artístico do The Cure, Disintegration é o tipo de disco que parece ter sido gravado em uma noite eterna de neblina e solidão. Com suas longas faixas envoltas em camadas de sintetizadores etéreos, guitarras chorosas e batidas lentas, o álbum captura com perfeição o tipo de melancolia que acompanha os dias frios e cinzentos do inverno.
Robert Smith canta como se estivesse à beira do colapso, guiando o ouvinte por temas como perda, isolamento e o peso do tempo — tudo com uma beleza hipnótica e dolorosa. Faixas como “Pictures of You”, a faixa-título e a monumental “Fascination Street” são convites para mergulhar no abismo emocional que o álbum oferece, enquanto hits como “Lovesong” e “Lullaby” mantém o clima ao mesmo tempo em que adotam uma abordagem um pouco mais comercial.
Mesmo que o The Cure ofereça outros álbuns perfeitos para o inverno (como Faith, Seventeen Seconds e Pornography, possivelmente a obra-prima da banda), Disintegration se destaca como a trilha sonora perfeita para um inverno em que o calor parece ter desaparecido do mundo.
Kid A (2000, do Radiohead)
A discografia inteira do Radiohead poderia estar nessa lista, mas Kid A talvez seja o melhor disco de inverno que existe — a começar pela capa, que exibe figuras que remetem à montanhas e geleiras, evocando uma sensação de isolamento perfeita para ilustrar o clima do álbum. Sonoramente, é mais um disco que utiliza de sintetizadores e teclados para criar uma atmosfera gelada e onírica, representando perfeitamente o tom desesperançoso e extremamente depressivo das letras.
Kid A expande as texturas sonoras que o Radiohead havia começado a explorar em OK Computer, considerado um dos discos mais disruptivos dos anos 1990. Em retrospectiva, o trabalho anterior parece um meio-termo perfeito entre The Bends e Kid A, misturando o rock alternativo do primeiro com o art-rock que dominaria o segundo.
A atmosfera do álbum é perfeitamente exemplificada, mas de forma um pouco mais palatável, nas brilhantes “Everything in it’s Right Place”, “Idioteque” e “Morning Bell”, mas ainda há espaço para faixas um pouco mais pesadas, como a fantástica “The National Anthem”; outras ainda mais atmosféricas, como as etéreas “How to Disappear Completely” e “In Limbo”; e para uma das músicas mais deprimentes de todos os tempos, “Motion Picture Soundtrack”, que encerra o álbum de forma absolutamente desoladora. Escolha o dia mais frio do ano e tenha uma experiência única com essa obra-prima do Radiohead.
Outra boa pedida da banda para o inverno é o fantástico In Rainbows, de 2007, que se encaixa maravilhosamente com um daqueles dias de frio intenso acompanhado por sol; se esquentar no sol com esse disco no fone de ouvido é um dos motivos para continuarmos vivos.
Sound of Silver (2007, do LCD Soundsystem)
O inverno não é apenas depressão profunda. Mesmo que tenda a ser uma estação tão gelada emocionalmente quanto em termos de temperatura, também há momentos de intensidade carregados por uma melancolia quase palpável (o que é muito diferente de depressão, embora também não seja lá a sensação mais agradável do mundo).
Poucos discos capturam tão bem a sensação de um inverno urbano e festivo, mesmo que ainda melancólico, quanto Sound of Silver, obra-prima do LCD Soundsystem e um dos melhores discos do século XXI. O álbum pulsa com toda a energia que uma madrugada fria pode oferecer a partir de batidas dançantes que trazem letras profundamente reflexivas, abordando temas como o envelhecimento e a busca por pertencimento no meio da correria urbana. Essa mistura faz com que o ouvinte se sinta como se estivesse dançando sozinho em algum lugar gelado às 3 da manhã, com luzes de neon iluminando memórias que aquecem o mesmo tempo que doem.
Faixas como “Someone Great” e a majestosa “All My Friends” carregam uma emoção quase sufocante ao mesmo tempo em que são dançantes, de forma a aquecer o que por dentro parece congelado — a segunda, aliás, é uma das canções mais impactantes lançadas nas últimas décadas. Também há momentos mais desconstraídos que podem embalar uma festa sem grandes compromissos temáticos, como as dançantes e empolgantes “Get Innocuous!” e “Time to Get Away”. O desalento completo fica por conta da deslumbrante “New York I Love You But You’re Bringing me Down”, que encerra de forma brilhante um álbum que evoca toda a melancolia que o inverno pode proporcionar.
Foto: Grok I.A
