[Cobertura] Rogério Skylab: naquele dia em que Skylab me olhou nos olhos

Rogério Skylab + Steal This Band!
21 de junho de 2025
Stage Garden
Curitiba/PR

Por Luís S. Bocatios
Fotos de Clovis Roman

Ao longo das últimas décadas, Rogério Skylab construiu um status cult inabalável. Oriundo da cena alternativa do Rio de Janeiro nos anos 1990, a fama do artista se deve tanto às letras malucas e escatológicas quanto ao modo como driblou as convenções do mainstream mesmo ao conseguir atingi-lo.

Pouco mais de seis meses após sua última apresentação em Curitiba, o artista encontrou uma casa de shows repaginada: antes CWB Hall, que tinha um som péssimo e parecia uma sauna, o local agora se chama Stage Garden, teve sua fachada repaginada, equipamento de som e ar-condicionados totalmente trocados. A temperatura não ajudou muito — inexplicavelmente, os ar-condicionados estavam aos 25 graus —, mas a melhora no som depois da reforma foi indiscutível, o que melhorou consideravelmente a experiência do público em relação ao que se tinha anteriormente no CWB Hall.

Steal This Band!

Alguns podem se perguntar: “qual é o sentido de uma banda cover de System of a Down abrir o show do Rogério Skylab?”. A esses, eu pergunto: qual é o sentido de qualquer coisa que envolva Skylab?

Brincadeiras à parte, é claro que há um certo estranhamento ao ouvirmos a ideia, mas, na prática, o público não estava absolutamente nem aí para a aparente falta de lógica na escolha e curtiu intensamente o show da Steal This Band!.

A abertura trouxe um medley de “Suite Pee” e “Prison Song”, que, mesmo entre os maiores clássicos do SOAD, contaram com um público ainda mais contido. “Holy Mountains” e a raríssima (e fantástica) “This Cocaine Makes Me Feel Like I’m on This Song” começaram a trazer a plateia mais para perto do palco, até que “Chop Suey” e “Radio/Video” consagraram de vez a banda perante o público.

Aproveitando a aceitação, o quarteto mandou a desconhecida “CUBErt”, lado B do primeiro disco que quase ninguém parecia se lembrar. O público não agitou tanto, mas não importa; um dos grandes baratos de uma banda cover é ter a possibilidade de assistir ao vivo músicas que a banda homenageada jamais tocaria. Para quem queria ouvir apenas os hits, “Hypnotize” e “Psycho” vieram logo na sequência, com direito a abertura de mosh na segunda.

Após outros clássicos, o vocalista Yuri Al’Hanati convidou o público para uma wall of death durante B.Y.O.B e descreveu o ato dizendo que é “tipo quando você cumprimenta e diz ‘paz de Cristo’ na igreja, só que mais agressivo”. O público engajou na ideia e, a partir daí, a agitação não parou mais: o mosh contou com cada vez mais adesão e a banda foi mais aplaudida a cada música.

Os músicos são todos muito competentes: Al’Hanati se comunica muito bem como o público e, mesmo sem ter uma voz tão parecida com a de Serj Tankian, capta bem as marcas registradas do vocalista; já o guitarrista Ryan Augusto tem uma voz mais parecida com a de Daron (mesmo que seu microfone estivesse baixo demais) e toca as partes originais com precisão; o baixista Felipe Gusinski é ótimo e tem um carisma enorme, sempre buscando agitar ainda mais a plateia; e o baterista Nicholas Pedroso faz algumas adaptações de arranjo, mas sempre com bom gosto e habilidade.

O set teve cerca de 1h30 de duração — bastante tempo, levando em consideração a média de bandas de abertura (especialmente covers) — e a banda saiu do palco sob aplausos calorosos do público após fechar o show com “Aerials” e a já clássica dobradinha de encerramento dos shows do SOAD, “Toxicity” e “Sugar”. Mesmo que a escolha da banda de abertura parecesse sem sentido, o fato é que deu muito certo e o público adorou.

Repertório

Suite-Pee/Prison Song
Holy Mountains
This Cocaine Makes Me Feel Like I’m On This Song
Chop Suey
Radio/Video
CubeRT
Hypnotize
Psycho
Know
Spiders
Dreaming (final)
Needles
Deer Dance
Soldier Side/B.Y.O.B
Kill Rock n’ Roll
Bounce
Lonely Day
Old School Hollywood
Cigaro
I-E-A-I-A-I-O
Aerials
Toxicity
Sugar

Rogério Skylab

Skylab e seu trio, composto pelo guitarra João Pedro Marques, pelo baterista Aécio de Souza e pelo baixista Rafael Bissocu. (foto: Clovis Roman)

Pontualmente às 00h, o trio que acompanha Skylab subiu ao palco e deu início à “Aquela Coisa Toda”, abertura que já destaca a qualidade do som e dos músicos. O baixo de Rafael Bissocu dominou os PAs, enquanto o baterista Aécio de Souza apresentou conduções talentosíssimas, indo do samba ao hardcore ao longo da noite, e o guitarrista João Pedro Marques sabe exatamente os momentos de discrição e de chamar atenção.

Skylab já é ovacionado no momento em que sobe ao palco, mesmo ao apresentar uma das músicas mais “normais” da noite. É como se fosse um convite ao público antes de começar completamente a loucura, que vem com a clássica “Cadê Meu Pau?”, ainda em um território mais palatável musicalmente e com sua pirada letra cantada com gosto pelo público.

A trinca inicial é encerrada pela longuíssima “Nas Canções de Amor”, que tem uma das letras mais sóbrias e bonitas que Skylab já escreveu (naquele dia que um cachorro me olhou nos olhos / e um corvo na janela anunciou meu fim / e, no entanto, era um dia tão ensolarado / Tinha samba, tinha funk e até tamborim). “Corpo e Membro Sem Cabeça” vai pelo caminho oposto, apresentando uma sonoridade caótica e uma letra sem nenhum sentido que carrega elementos da poesia concreta — mesmo que alguns versos digam que “poesia é o caralho!”.

Skylab sendo Skylab. (foto: Clovis Roman)

Em seguida, um clima mais dançante se instaura com a excelente “O Meu Pau Fica Duro”, que, em termos sonoros, poderia estar em um disco de Tim Maia. O baixo brilha mais do que nunca, fazendo jus à influência que a soul music exerce na sonoridade da canção. O clima volta ao rock com “Eu Durmo Pouco Pra Ficar Com Sono”, que tem um toque de grunge nas guitarras pesadas e na batida reta.

Uma das músicas com o maior coro da noite foi a ótima “Você é Feia”, que traz toques deliciosos de MPB a uma letra tão cruel quanto engraçada. Ultrapassando os sete minutos de duração, “O Corvo” é o momento mais atmosférico da noite e serve quase como um exercício de “e se os membros do Radiohead fossem doentes mentais?”; é nessa música que Skylab come uma cenoura e cospe no público, um dos momentos marcantes de seus shows.

Iluminação também foi melhorada com a reforma do Stage Garden. (foto: Clovis Roman)

Outra que mistura MPB e rock é a divertida “Mictório”, que é seguida pela fraca balada “Moto-Serra”, que não resiste nem que a levemos na brincadeira, mesmo que o solo de guitarra que João Pedro Marques encaixou na canção seja excelente. O clima mais leve continua no cover de “Sentimental”, do Los Hermanos, que Skylab recentemente twittou, em meio a uma bebedeira, que considera a música mais bonita de todos os tempos. Sua versão dá uma vida a mais à canção, mas ela continua chata como qualquer coisa lançada pelo Los Hermanos.

A razoável “Rainha do Mar” vem logo antes de “Tem Cigarro Aí?”, já consagrada como um dos grandes momentos de qualquer show no underground brasileiro. A chuva de cigarros atirados em direção ao cantor tomou completamente o palco, comprovando que a música é uma das maiores campanhas antitabagistas da história — em que outro contexto você veria tantos cigarros sendo desperdiçados?

Palco tomado por cigarros após “Tem Cigarro Aí?”. (foto: Clovis Roman)

A sequência foi com a fraquíssima “Cabecinha”, cuja falta de qualidade é compensada pela clássica “Empadinha de Camarão”, que traz toques de bossa nova e uma das letras mais descompensadas de Skylab. É um dos momentos altos do show, com um público cantando com gosto aquilo que Skylab lembra ao ver uma empadinha de camarão.

Daí até o final do show, não tem mais erro: “Eu e Minha Ex”, cover de Júpiter Maçã, traz um peso emocional que raramente lembramos ao pensar em Skylab; “Carrocinha de Cachorro Quente” tem a letra mais engraçada de sua carreira, separada por interlúdios pesados que criam um clima de perigo — é uma espécie de “Black Dog” do submundo; a “deadkennedyana” “Música Para Paralítico” é divertida; “Fátima Bernardes Experiência” volta a uma sonoridade meio grunge (e tem outra letra engraçadíssima); e “Matador de Passarinho” alterna entre a MPB e o rock com autoridade.

Após sair rapidamente do palco, Skylab volta para o palco e encerra o show com a ótima “Você Vai Continuar Fazendo Música?”. Certamente a ode à esquisitice que foi esse show no Stage Garden deixou o público com ainda mais vontade de que, sim, Skylab continue fazendo música.

Repertório

Aquela Coisa Toda
Cadê Meu Pau?
Nas Canções de Amor
Corpo e Membro Sem Cabeça
O Meu Pau Fica Duro
Eu Durmo Pouco Pra Ficar Com Sono
Skylab’s Wake
Você é Feia
O Corvo
Mictório
Moto-serra
Sentimental (Los Hermanos cover)
Rainha do Mar
Tem Cigarro Aí?
Cabecinha
Empadinha de Camarão
Eu e Minha Ex (Jupiter Maçã cover)
Carrocinha de Cachorro Quente
Música Para Paralítico
Fátima Bernardes Experiência
Matador de Passarinho
Você Vai Continuar Fazendo Música?

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