Pat Metheny
28 de agosto de 2025
Ópera de Arame
Curitiba/PR
Por Luís S. Bocatios
Fotos de Gabriel Braga
Com uma carreira que se estende por mais de cinco décadas e abarca mais de 50 discos, Pat Metheny é um daqueles clássicos casos: ele pode não ser o seu herói, mas provavelmente é o herói do seu herói. Guitarristas como Steve Vai, Joe Satriani, Eric Johnson, John Petrucci e Kiko Loureiro, entre tantos outros, já declararam imensa admiração por Metheny, a quem apontam como uma de suas maiores influências.
Na noite de 28 de agosto de 2025, a Ópera de Arame recebeu a primeira apresentação do artista em solo curitibano como parte da programação do festival Curitiba Jazz – Circuito Primavera, criado com o objetivo de estimular “a formação de público, ampliando o acesso à cultura de excelência e oferecendo uma experiência musical imersiva e transformadora”.
Com uma curadoria impecável, o festival apresenta atrações de altíssima qualidade que fogem do mainstream e, nesse caso, tem um valor histórico incomensurável. Celebrado mundialmente como um dos mais importantes e mais virtuosos nomes da guitarra jazzística, Metheny já esteve no Brasil diversas vezes, mas apenas o festival conseguiu trazê-lo a Curitiba pela primeira vez.
Para testemunhar esse momento histórico, 928 pessoas compareceram à Ópera de Arame. Tendo elas gostado ou não do show, não há receio em afirmar que nenhuma delas esquecerá de uma das apresentações mais impressionantes que estiveram na cidade nos últimos tempos.

Antes do início do show, uma mensagem no sistema de som avisa que o artista pediu gentilmente à platéia que não filmasse, fotografasse ou mandasse mensagens durante o show. Além disso, a narração também explicou que, caso saísse para o banheiro, o público deveria esperar o término da música que estava sendo apresentada para retornar aos seus lugares (algo que era certificado por seguranças), e que o músico não seria acompanhado por banda e estaria sozinho no palco, apresentando um repertório que percorre toda a sua carreira.
Metheny subiu ao palco sob aplausos de pé, saudou a plateia, pegou seu violão e começou a tocar um belíssimo medley de violão, que durou cerca de dez minutos e abarcou inúmeras músicas de sua carreira, como “The Sun in Montreal”, “Omaha Celebration” e “Slip Away”. Não se ouvia sequer a respiração da plateia: todos estavam absolutamente hipnotizados, o que deixa claro o motivo do pedido para que celulares não fossem usados; a atenção completa engrandece demais a experiência.
Em seguida, o músico se dirigiu a plateia pela primeira vez, agradeceu pela presença de todos e contou sua história com o instrumento. Nascido em uma família de trompetistas no estado do Missouri, nos Estados Unidos, Pat conta que seu interesse pelo violão surgiu de forma típica: quando viu os Beatles na televisão. Seus pais não gostaram da ideia, mas cederam ao observar a falta de talento do filho no trompete. “Meu irmão dizia que pássaros caíam do céu quando eu começava a praticar. Provavelmente era verdade”, brinca. A partir disso, ganhou a permissão para comprar um violão, caso conseguisse o dinheiro de alguma forma.
Quando conseguiu, sua trajetória como iniciante foi igual à da maioria das pessoas: aprendeu “House of the Rising Sun”, teve dificuldades para fazer a pestana do acorde de fá maior e tocou com seus amigos na garagem. Tudo mudou quando um desses amigos lhe deu o disco ao vivo Four & More, de Miles Davis. “Eu gostava de todos os tipos de música, mas aquilo era diferente. O que era aquilo? E o que o violão significa nesse gênero?”, indagava o jovem Pat.

Sua evolução musical começou no momento em que começou a viajar para Kansas City, maior cidade do Missouri, e teve contato com os grandes músicos que faziam parte da cena country da cidade. Aos poucos, o violão foi ficando em segundo plano e a guitarra elétrica assumiu o protagonismo em sua carreira. Nessa época, se tornou amigo de Charlie Haden, um dos grandes baixistas da história do jazz, que na época fazia parte do quarteto do lendário pianista Keith Jarrett. Metheny foi padrinho de casamento de Haiden, que foi padrinho de um de seus filhos.
A amizade gerou diversos frutos musicais, entre eles o disco Beyond the Missouri Sky, responsável por ressuscitar a paixão de Metheny pelo violão. Segundo o artista, muitos fãs já disseram que esse é o álbum que eles tocaram em seus casamentos, no nascimento de seus filhos e em diversas ocasiões especiais. “Esse é o maior elogio possível para um músico”, afirma o músico.
Em celebração a tudo isso, apresentou um medley com diversas faixas do disco: “Waltz for Ruth”, “Our Spanish Love Song”, “Two For the Road”, “He’s Gone Away” e duas faixas da trilha-sonora do gênio Ennio Morricone para o majestoso Cinema Paradiso, um dos filmes mais lindos de todos os tempos. O nível de beleza das harmonias apresentadas é genuinamente emocionante, capaz de levar o público às lágrimas não apenas por uma possível nostalgia atrelada às canções, mas pelo simples fato de se dar conta do quão inacreditavelmente linda uma música pode ser.
As duas próximas canções seguem caminhos bem diferentes: “Song for the Boys” é apresentada em uma versão bem mais puxada para o flamenco do que em sua gravação no álbum One Quiet Night, unindo a harmonia grandiosa da canção a uma execução mais caótica. Falando em caos, o que veio a seguir foi um improviso absolutamente dissonante, que poderia perfeitamente servir como trilha sonora para um filme de terror.
A seguir, Metheny trocou o violão por um instrumento completamente maluco, que o artista chama de Pikasso Guitar. Criada sob medida para Metheny pela luthier Linda Manzer, a Pikasso Guitar tem 42 cordas e 4 braços, misturando elementos de harpa, violão, guitarra e cítara. O solo feito com o instrumento foi uma loucura completa, deixando o público sem ter a menor ideia do que se passa dentro da genial cabeça do artista.
O próximo instrumento pouco usual utilizado foi o violão barítono, que não chega perto da maluquice do anterior. Antes de usar o instrumento, o artista explicou que se trata de um meio-termo entre um violão e um baixo que é muito encontrado em discos de country e de música pop, nos quais serve o propósito de engrandecer o som do baixo.

Ele se lembrou de quando sua mãe finalmente aceitou que o filho tocaria guitarra e o aconselhou a conversar com um vizinho que era mecânico automotivo, quiroprata e luthier. “Ele estava construindo um violão barítono, me explicou o que era e, quando eu estava indo embora, ele me disse algo que não esqueci até hoje: a única forma desse instrumento funcionar bem é se você afinar as duas cordas do meio uma oitava acima”. O que veio a seguir foi um medley de músicas que Pat gravou em seu disco What’s It All About, incluindo, é claro, “Garota de Ipanema”, que foi um dos momentos mais aplaudidos da noite.
Após a execução, Metheny deu ainda mais explicações sobre o violão barítono: “é como se fossem três instrumentos em um: as duas cordas de baixo soam como uma viola, as duas do meio soam como um violino e as duas de cima soam como um violoncelo. Eu passei anos tentando encontrar cordas boas para esse instrumento, recentemente encontrei e agora vou mostrar pra vocês como funciona”. Poucos segundos após começar a tocar, ele parou tudo e disse “vou ter que fazer algo que vejo Bob Dylan e James Taylor fazendo há décadas: conversar com a plateia enquanto reafino o violão. O tempo aqui está um pouco frio demais pra esse instrumento, mas já já vai soar muito melhor”.
Dito e feito: o que veio em sequência foi um dos momentos mais bonitos da noite, com um medley de músicas presentes em MoonDial, seu último disco de estúdio, lançado em 2024: a faixa-título, “Everything Happens to Me”, “Somewhere” e a lindíssima “Here, There and Everywhere”, uma das músicas mais emocionantes já compostas por Paul McCartney, presente em Revolver, dos Beatles.

Com quase 1h30 de show, as coisas estavam prestes a mudar radicalmente. Utilizando loopers digitais que repetem por tempo indeterminado bases instrumentais que o guitarrista faz na hora, ele leva o show em uma direção musical totalmente diferente: utiliza o violão barítono para fazer uma base que soa como um baixo e pega pela primeira vez uma guitarra semiacústica para improvisar. Em quatro improvisos seguidos, Metheny utiliza um instrumento para fazer a base, a guitarra para solar e ainda pisa em um teclado, que preenche o som de forma a fazer parecer que está com uma banda completa em cima do palco.
O primeiro dos improvisos é bem jazzístico, servindo perfeitamente como um exemplo do que a maioria das pessoas pensa ao ouvir “guitarra de jazz”; o segundo vai por um caminho mais bluesístico sensacional, sem nunca deixar de lado uma criatividade à mais, inerente ao trabalho de Metheny; o terceiro, no qual o guitarrista se levanta de seu banquinho e toca em pé, segue um caminho mais melódico, tanto na harmonia feita por ele na base quanto no fraseado do solo; e o último, que volta a um lado mais blues, foi o mais impressionante tecnicamente, com o guitarrista exibindo uma velocidade impressionante aliada a um feeling único.
Até que chegamos ao momento mais marcante do show, quando Metheny pega uma guitarra que começa a fazer um som absolutamente louco e que parecia impossível de estar saindo de uma guitarra. A impressão era verdadeira, pois uma cortina atrás do palco é removida de onde estava e revela o Orchestrion, engenhoca maluca criada pelo guitarrista que combina o som de sua guitarra com um sistema automatizado de percussão e outros instrumentos robóticos. Ele toca o instrumento por alguns minutos, em um exercício que, a princípio, soava mais curioso do que musicalmente interessante.
A coisa muda de figura quando fica claro que ele apenas estava construindo uma base para o que viria a seguir — basicamente um espetáculo de one-man-band. Como o palco estava cheio de cortinas, o público fica curiosíssimo para saber o que mais estava escondido; as respostas são mais comuns do que anteriormente, mas teriam um feito igualmente brilhante. Com a base percussiva já estabelecida, Metheny tira uma das cortinas de cima de um baixo, no qual faz uma linha quebrada e funkeada. Tudo isso é feito de forma muito paciente, com vários minutos dedicados a cada instrumento, criando uma expectativa no público ao imaginar como aquilo pode acabar.
A última parte da base é feita com uma outra guitarra, que tem o papel harmônico de manter toda aquela loucura junta e fazer com que a base seja “improvisável”, mais marcando acordes do que qualquer outra coisa. O último elemento a ser adicionado é uma guitarra que soa como um trompete, quase como uma vingança do artista por sua falta de talento no instrumento quando criança. “Eu sou ruim no trompete? Não tem problema, vou botar um efeito na guitarra e fazer um som de trompete melhor do que qualquer um”, o artista deve ter pensado.

Assim, Metheny sozinho consegue fazer o público se sentir como se estivesse assistindo a um quarteto clássico de jazz fusion. Certamente nenhum dos presentes jamais esquecerá a euforia coletiva que se deu quando o público percebeu que toda aquela construção de minutos chegou ao ápice em um dos momentos mais impressionantes que qualquer um ali já havia presenciado em um show, que resultou em aplausos de pé que ovacionaram o artista. O impacto é tão grande que, sinceramente, há de se questionar o motivo do show não ter acabado ali.
Em seguida, o artista saiu do palco e voltou (algo que, estranhamente, se tornaria uma constante em todas as músicas até o final) para realizar uma versão mais condensada do que havia acabado de fazer, em um certo anticlímax que se estenderia por mais cerca de meia-hora. É claro que houveram momentos super bacanas — como uma versão apenas com o violão de “Travessia”, clássico de seu amigo Milton Nascimento —, mas a verdade é que o público ainda estava sob efeito daquele improviso e se perguntando se algo parecido com aquilo ocorreria até o final da noite, o que não aconteceu.
Mesmo com uma meia-hora a mais do que o necessário e uma clara brecha para encerrar o show, a primeira apresentação de Pat Metheny em Curitiba foi um dos espetáculos musicais mais impressionantes que passaram pela cidade nos últimos anos. A organização do festival merece aplausos de pé não apenas pela iniciativa e pela curadoria, mas pela preocupação com os detalhes da experiência, que reforçaram o quão especial foi a ocasião.
