Por Luís S. Bocatios
Foto de Clovis Roman
No próximo domingo (7), Bruce Dickinson se apresenta no The Town, em São Paulo, na segunda visita da turnê The Mandrake Project ao Brasil. Entre abril e maio de 2024, logo após o lançamento do álbum, o vocalista levou a excursão a sete cidades brasileiras — desta vez, o festival paulista será a única parada de Bruce no Brasil.
Como preparação para o show, o Acesso Music conta tudo o que você precisa saber sobre a carreira solo de Bruce Dickinson, com uma análise detalhada de cada um dos sete álbuns de estúdio lançados pelo vocalista.
Tattooed Millionaire, de 1990
O primeiro disco da carreira solo de Bruce Dickinson saiu enquanto ele ainda integrava o Iron Maiden. Enquanto a banda lançava o divisivo No Prayer For The Dying, Bruce lançou Tattooed Millionaire, álbum de hard rock que acabou sendo mais bem aceito que o lançamento do Maiden.
É um álbum importantíssimo para a carreira solo de Dickinson, mas também para a trajetória do Iron Maiden. Foi esse disco que deu ao vocalista a impressão de que não precisava da banda para fazer sucesso e o encorajou a alçar vôos solo. Além disso, foi durante as gravações que Bruce indicou o guitarrista do álbum, Janick Gers, para substituir Adrian Smith, recém saído da banda.
Apesar de No Prayer For The Dying ser um disco subestimado do Maiden, é compreensível o motivo da empreitada solo do vocalista ter encontrado mais sucesso. Com um som muito mais comercial do que os discos anteriores do grupo – Somewhere In Time e Seventh Son Of a Seventh Son, que exploravam caminhos mais progressivos –, Tattooed Millionaire traz canções extremamente fortes e acessíveis, com uma sonoridade contemporânea e um Bruce Dickinson explorando regiões de sua voz diferentes do que havia feito anteriormente.
O disco é muito bem balanceado entre baladas, músicas mais pesadas que se encaixam perfeitamente com o hard-rock oitentista e faixas um pouco mais pop. “Son Of a Gun”, a melhor balada do álbum, é uma excelente composição, tem um refrão fortíssimo e traz um uso de drive pouquíssimas vezes visto na carreira do vocalista até então. “Gypsy Road” também é muito boa, mas peca por ser um pouco repetitiva demais.
Representando o lado mais pop do trabalho, Born In ‘58 é uma canção autobiográfica, em que Bruce fala sobre as dificuldades de sua infância, e dos princípios que aprendeu quando criança e já não eram mais vistos ao seu redor. Mesmo com momentos um pouco mais pesados, é a canção mais pop do disco, que se encaixa perfeitamente com a produção contemporânea. Já o cover de David Bowie e Mott The Hoople, “All The Young Dudes”, é muito fiel à gravação original e foi responsável por apresentar toda uma geração a esse clássico dos anos 70.
Mas é mesmo no hard-rock que Dickinson aposta suas fichas. A faixa-título é a melhor das mais agressivas do disco: uma excelente representante do rock dos anos 1980, traz um riff simples e marcante, um pré-refrão fortíssimo, um refrão melhor ainda e uma letra endereçada a Axl Rose, que ironiza a figura das estrelas do hair-metal dos anos 1980. Já “Hell On Wheels” é um hard-rock de altíssima qualidade, com riffs e solos excelentes, um refrão grandioso e mais uma performance vocal carregada de drive – sem abandonar seus clássicos vibratos, é claro.
“Dive! Dive! Dive!”, “Lickin’ The Gun” e “Zulu Lulu” são mais genéricas, mas não menos divertidas: a primeira tem um ótimo refrão, a segunda tem um ótimo riff que lembra muito Led Zeppelin e a terceira tem uma bela melodia vocal. A faixa de encerramento, “No Lies”, se alonga além do necessário, mas tem um excelente refrão, além de uma introdução e versos muito semelhantes aos de “Bring Your Daughter (To The Slaughter)”, faixa composta por Dickinson e lançada pelo Maiden no mesmo ano de 1990.
Balls To Picasso, de 1994
Se Tattooed Millionaire mergulhava fundo na sonoridade oitentista, o primeiro disco que Bruce Dickinson lançou fora do Iron Maiden, Balls To Picasso, traz um forte diálogo com a estética do rock alternativo que dominava as paradas nos anos 1990 — a começar pela capa, que traz o vocalista usando uma touca e uma fonte semelhante às que eram usadas no alt-rock do período.
O álbum traz como banda de apoio o grupo Tribe Of Gypsies, composto pelo baixista Eddie Casillas, pelo baterista David Ingraham, pelo percussionista Doug Van Booven e pelo guitarrista Roy Z, que se tornaria o principal parceiro de Bruce em carreira solo — em Balls To Picasso, o guitarrista é co-autor de nove das dez faixas.
A começar pela faixa de abertura, Cyclops, que é longa e interessante, tem um ótimo refrão e se distancia bastante tanto de Tattooed Millionaire quanto do trabalho que Dickinson vinha realizando com o Maiden. No entanto, a faixa se alonga demais e traz alguns momentos um tanto questionáveis, como o vocalize melódico de Bruce perto do final da faixa.
Hell No começa remetendo à canção “Gutter Cat vs The Jets”, lançada por Alice Cooper no clássico School’s Out, de 1972, mas utiliza de uma harmonia mais oriental, que lembra “Powerslave” e “To Tame a Land”, do Maiden. A faixa segue com um clima tenso e até um pouco sombrio, que é intensificado no refrão, e o solo de guitarra traz marcas registradas do instrumento nos anos 1990, como o uso de acordes com sétimas para a marcação melódica, e um foco na melodia, sem “shreds” exagerados. É uma faixa definitivamente mais forte que a primeira e figura entre as melhores do disco.
A introdução de “Gods Of War” sugere uma faixa pesada e épica, mas seus versos vão por um caminho diferente. O refrão e as guitarras harmonizadas que precedem o solo comprovam que trata-se da música que mais lembra a sonoridade do Iron Maiden. O solo de guitarra é extremamente técnico e a performance vocal de Bruce é muito potente, mas a faixa é um pouco genérica demais.
Já “1000 Points Of Light” é uma das melhores do disco: com vários ótimos riffs, a faixa traz uma influência setentista que, junto com uma produção alinhada às diretrizes dos anos 1990, faz uma canção que, em alguns momentos, lembra o trabalho do Pearl Jam até então.
“Laughing In The Hiding Bush” é outro dos destaques do trabalho, com seus riffs pesados e sua maravilhosa performance vocal, muito distante da característica operística que permeia a carreira de Bruce Dickinson mas tão potente e efetiva quanto. Roy Z novamente rouba a atenção para si com um excelente e elaborado solo de guitarra.
O álbum tem sequência com a balada “Change Of Heart”, em que Dickinson parece se inspirar em outros vocalistas de bandas lendárias que tiveram carreiras solo muito bem sucedidas, como Sting e Peter Gabriel. Com um toque pop e até de world music (muito por causa da percussão), a faixa é o momento mais palatável de um disco já feito visando o mercado contemporâneo.
“Shoot All The Clowns” é um dos momentos mais ousados do álbum, pois traz guitarras sem muito peso contrapostas a uma performance vocal agressivíssima de Bruce. Após mais um belo solo de guitarra, se inicia uma batida funkeada em que o vocalista, pasmem, se arrisca a fazer um rap. É de se imaginar a cara de Steve Harris ouvindo o disco novo de seu ex-companheiro de banda.
A faixa seguinte, “Fire”, é certamente a mais metaleira do disco. Misturando elementos de Black Sabbath e Deep Purple, figura entre os melhores momentos do trabalho. Tanto o solo de guitarra quanto a base para ele, feita pelo baixo, parecem referenciar diretamente a dinâmica entre Geezer Butler e Tony Iommi. O destaque negativo fica para o refrão da faixa, que não consegue ser nada além de genérico.
Falando em genérico, a penúltima música do disco, “Sacred Cowboys”, é seu momento mais fraco. Nada de bom pode ser dito sobre essa faixa, que é preguiçosa em todos os sentidos: instrumentalmente, vocalmente e composicionalmente.
O clássico de Balls To Picasso é sua faixa de encerramento. “Tears Of The Dragon” é, indubitavelmente, o maior sucesso da carreira solo de Bruce Dickinson. Em números no Spotify, a música tem quase o mesmo número de reproduções do que todas as músicas de The X Factor e Virtual XI combinados.
A balada traz a sonoridade de músicas como “Wasting Love”, do Maiden, e uma letra que pode ser encarada como uma explicação aos fãs sobre os motivos que levaram o vocalista a deixar a banda. A composição é muito simples, porém marcante, com um refrão fortíssimo, uma brilhante performance de Bruce e mais um excelente solo de guitarra.
A canção fecha com chave de ouro um disco bastante irregular, que, mesmo passando longe dos momentos mais inspirados de Bruce Dickinson, impressiona por sua vasta gama de gêneros abordados, e pela ousadia do vocalista em se afastar completamente do trabalho que fazia com a banda que o tornou uma estrela mundial.
Skunkworks, de 1996
Se os dois primeiros trabalhos solo de Bruce Dickinson dividiram os fãs do Iron Maiden, o terceiro lançamento do vocalista trouxe uma reação muito próxima do consenso. Infelizmente para Bruce, foi um consenso negativo.
Os fãs metaleiros de Dickinson ficaram horrorizados com a sonoridade noventista de Skunkworks, que se aproximava do grunge, mesmo com os claros indicativos que Balls To Picasso deu de que aquele seria o caminho adotado nos próximos discos.
Planejado como o disco de estreia de uma banda que teria o mesmo nome, Skunkworks traz um trio completamente novo para trabalhar com Bruce: a guitarra ficou a cargo de Alex Dickson, o baixo foi assumido por Alex Dale e as baquetas ficaram com Alessandro Elena.
A banda trabalhou sob a batuta do produtor Jack Endino, conhecido por produzir bandas como Nirvana, Soundgarden e Mudhoney – no Brasil, Endino produziu quatro discos de estúdio dos Titãs: Titanomaquia, Domingo, As Dez Mais e A Melhor Banda de Todos os Tempos da Última Semana.
A verdade é que, basicamente, a única coisa que diferencia Skunkworks de discos do rock alternativo dos anos 90 é o vocal de Bruce Dickinson, que se adapta à linguagem do disco, mas mantém suas marcas registradas. No entanto, diferente do que os fãs bradavam na época, essa similaridade com o cenário do rock noventista não significa, de forma alguma, que o disco seja ruim.
As duas faixas de abertura comprovam isso com maestria: “Space Race” encanta por sua instrumentação simples e marcante e por seu excelente refrão, em que Bruce mostra que seu vocal agudo e potente é inegociável, enquanto “Back From The Edge” parece uma música do Foo Fighters – mas, cá entre nós, é melhor do que qualquer música lançada pela banda de Dave Grohl.
“Inertia” representa uma ligeira queda de qualidade em relação às duas primeiras músicas, mas tem um bom refrão e um solo de guitarra interessante e simples. A próxima faixa, “Faith”, tem um clima tenso em seus versos, mas um refrão grandioso que suaviza o andamento da faixa. Um interlúdio pesado dá lugar a mais um solo de guitarra criativo e a faixa é encerrada com a repetição do refrão.
Já “Solar Confinement” é uma das canções mais inspiradas do trabalho: uma linha de baixo pulsante e uma bateria precisa fazem a base para um arpeggio que marca as mudanças harmônicas no verso, construindo um terreno fértil para o refrão, que traz uma performance majestosa do vocalista, engrandecendo a faixa com sua interpretação como apenas ele mesmo sabe fazer.
As duas faixas seguintes trazem pitadas de Radiohead: a discreta “Dreamstate” não impressiona, mas “I Will Not Accept The Truth” tem outra belíssima linha de baixo, um trabalho de guitarra interessantíssimo e mais uma excelente performance vocal. “Inside The Machine”, sim, parece uma simulação um tanto quanto vazia do que a indústria buscava no rock dos anos 90.
Em seguida, a pesada e ótima “Headswitch” lembra algumas das músicas mais diretas do Soundgarden, a também ótima e tensa “Meltdown” flerta com o metal alternativo e traz o vocal mais rasgado do disco inteiro, e a maravilhosa “Octavia” é idêntica ao que seria uma música dos Smashing Pumpkins cantada por Bruce Dickinson, seja na harmonia, no riff e no solo de guitarra ou nos timbres utilizados. Para os fãs dos Pumpkins e de Dickinson, é uma curiosidade muito bem-vinda que faz com que a música tenha um lugar especial em relação às outras do disco.
“Innerspace” repete alguns dos timbres de guitarra utilizados na música anterior, mas tem um clima totalmente diferente, mais agitado e com um pé no hard-rock. A última faixa “Strange Death In Paradise” parece um exercício que surge da pergunta “como seria se o Pink Floyd fosse uma banda de heavy metal?”. O resultado não é brilhante, mas fecha o disco de forma ousada e competente.
Mesmo que o disco seja ótimo, superior a seus dois antecessores, fica difícil discordar de que o período experimental da carreira de Dickinson estava muito perto de se esgotar, e uma volta ao território do heavy metal era iminente. O vocalista percebeu e fez exatamente o que os fãs estavam pedindo.
Accident Of Birth, de 1997
Os fãs que clamavam por uma volta de Bruce Dickinson ao heavy metal tiveram uma tremenda realização no ano de 1997, pois o lançamento de Accident Of Birth representou um retorno magistral do vocalista ao gênero que o consagrou.
A produção, a engenharia de som e a mixagem ficaram por conta de Roy Z, que, além disso, tocou piano, mellotron e guitarra – além do crédito de composição em quase todas as músicas. Eddie Casillas no baixo e David Ingraham na bateria formaram a cozinha, enquanto Adrian Smith, principal parceiro composicional de Bruce dos tempos de Maiden, completou a dupla de guitarristas. Smith e Dickinson compuseram juntos alguns dos maiores clássicos da Donzela, como “2 Minutes To Midnight”, “Flight Of Icarus” e “Moonchild”.
O petardo “Freak” abre o disco com os dois pés na porta, fazendo com que os fãs desconfiados pelos discos anteriores sejam conquistados já na primeira nota. A faixa tem um excelente riff de guitarra e um refrão interessante, que dá o tom do que será o disco.
A seguir, a vinheta “Toltec 7 Arrival” abre espaço para a maravilhosa “Starchildren”, que é ainda melhor que a faixa anterior, em todos os sentidos. O riff é ainda mais pesado e a melodia vocal dos versos é ótima, assim como o trabalho de bateria de David Ingraham e o grandioso refrão.
A primeira balada do disco, “Taking The Queen”, tem uma pegada épica, uma ótima linha de baixo, e, mesmo sendo mais lenta, não deixa o peso de lado. A passagem pesada da canção é uma das melhores de todo o álbum, assim como o lindíssimo solo de guitarra e o potente vocal.
Em seguida, a épica e progressiva “Darkside Of Aquarius” traz uma introdução soturna que logo é substituída por um riff rápido que dá início a outra exímia música de heavy metal. Após o segundo refrão, dois brilhantes solos de guitarra entregam a faixa para um belíssimo interlúdio, em que o baixo faz a base para que o vocalista cante com suavidade, acompanhado por guitarras que são harmonizadas, mas de forma muito diferente do que o fã de Maiden se acostumou.
A volta desse interlúdio é um dos momentos mais especiais do disco, com Bruce despejando sua voz com drive em cima de outro excelente riff de guitarra. Após outra sessão com guitarras harmonizadas, um coro repete a melodia anterior, enquanto o vocal segue uma outra melodia. É uma música estruturalmente muito complexa, que tem momentos puramente “maidenianos” e figura entre as melhores lançadas por Bruce Dickinson em sua carreira solo.
A faixa seguinte é a primeira colaboração entre Dickinson e Adrian Smith desde o álbum Seventh Son Of a Seventh Son, de 1988. Não por acaso, “Road To Hell” é um dos maiores clássicos do disco. Simples, direta e pesada, a canção remete às composições anteriores assinadas pela dupla, mas, mais do que isso, anuncia o estilo que viria a ser adotado quando ambos voltassem à banda, em canções como “The Wicker Man”, “Speed Of Light” e “Days Of Future Past”. Olhando em retrospectiva, ela tem mais a ver com o Maiden do futuro do que do passado.
Em seguida, outro dos maiores sucessos de Accident Of Birth: “Man Of Sorrows” é uma balada soturna conduzida por piano e voz. Eventualmente, os instrumentos entram, adicionando um certo peso à canção, junto com coros e uma orquestra sutil. O destaque fica para o vocal e para o deslumbrante solo de Adrian Smith, que une técnica e um feeling melódico de forma que só ele é capaz.
A faixa-título é outra das que mais lembram Iron Maiden, especialmente em sua mudança de andamento no refrão, que remete a músicas como “The Clairvoyant”, e ficou ainda mais presente na banda após a volta de Dickinson e Smith, em canções como a já citada “The Wicker Man” e “Lost In a Lost World”. É mais uma excelente faixa em que os solos de guitarra merecem destaque, assim como o vocal sombrio.
“The Magician” esbanja uma influência claríssima de Deep Purple, seja em seus riffs, na performance vocal, em que Bruce Dickinson paga tributo a Ian Gillan, em ambos os solos de guitarra, que claramente homenageiam Richie Blackmore, na performance da cozinha ou no excelente refrão, que surpreende por modificar a harmonia da música de forma quase imperceptível e muito pouco usual. Não está entre as melhores composições do disco, mas é uma das mais divertidas.
Entrando na reta final do álbum, a pesadíssima “Welcome To The Pit” é a segunda e última parceria de Dickinson e Smith no trabalho. O espetacular riff traz o momento mais pesado do álbum, e os versos tensos não preparam para um refrão surpreendentemente melódico. Mais uma fantástica música!
O encerramento do disco, curiosamente, é com duas baladas: a primeira, “Omega”, é excelente e conta com partes pesadas que também lembram muito Iron Maiden, especialmente em sua seção mais rápida. Entre as baladas do álbum, essa é a que mais se destaca.
Já “Arc Of Space” é um encerramento tranquilo e cheio de violões, com um vocal cheio de ecos e um clima medieval. A música cumpre bem seu papel de encerrar o disco, mas não está entre as melhores do trabalho. Não que seja um demérito dentro de um disco tão inspirado quanto Accident Of Birth.
The Chemical Wedding, de 1998
Se Accident Of Birth trazia um heavy metal clássico e de altíssima qualidade, seu sucessor teria a árdua missão de não se repetir e, mesmo assim, manter o nível. E essa tarefa foi cumprida com louvor no pesado, sombrio, surpreendente e espetacular The Chemical Wedding.
Para isso, o time de banda e produção se manteve idêntico ao disco anterior. Se Accident Of Birth era um disco de heavy metal clássico, The Chemical Wedding traz uma grande modernização ao som de Bruce Dickinson. A produção de Roy Z faz questão de explorar timbres mais pesados, afinações mais baixas e um som mais orgânico em todos os instrumentos.
Isso tudo já vem à tona na primeira faixa, a excelente “King In Crimson”. No primeiro acorde, já percebemos estar diante de um disco denso. Rápida, forte e pesada, a música é permeada por diversos riffs muito criativos e pesados, além de um refrão arrebatador, um solo de guitarra extremamente técnico de Roy Z e um altamente melódico, mas também complexo, de Adrian Smith.
Em seguida, a faixa-título segue o peso de sua antecessora, mas é mais arrastada e climática. Ela tem um refrão épico e grandioso e uma ponte que traz o vocalista utilizando sua potência vocal de forma única. O solo novamente se destaca, trazendo um fraseado lindíssimo, e entrega de novo para o refrão de encerramento.
A terceira música, “The Tower”, é, provavelmente, o maior hit do disco. Talvez isso se deva à semelhança com o Iron Maiden, que se dá desde a introdução – que é praticamente uma “Wrathchild” com um baixista abaixo do nível de Steve Harris – e vai até o grandioso refrão, passando pelos versos e pelas guitarras harmonizadas acompanhadas pelo baixo, que remetem imensamente à sonoridade dos três primeiros discos do Maiden.
“Killing Floor” é a primeira composição de Adrian Smith no disco. É energética, pesada, tem riffs incríveis e uma performance vocal desafiadora de Bruce Dickinson, que alterna entre um drive extremamente rasgado e momentos mais melódicos.
Em seguida, uma das melhores canções da carreira de Dickinson: um dedilhado soturno de baixo dá início a “Book Of Thel”, e é seguido por uma guitarra com um fraseado que remete ao trabalho de David Gilmour. Algumas frases instrumentais prenunciam que a faixa se transformará em outra coisa, e isso acontece de forma explosiva, grandiosa e épica.
A mudança transforma a música em um heavy metal clássico, conduzido por um excelente riff e uma performance inquieta de Bruce Dickinson, que resulta em um refrão maravilhoso e um interlúdio instrumental pesadíssimo e caótico, que tem belos solos de guitarra performados em escalas poucos usuais.
Uma mudança de andamento abre espaço para um coro grandioso, performado por várias vozes oitavadas de Bruce Dickinson. Após isso, outro interlúdio dá espaço para a bateria brilhar com viradas incríveis, até que a música volta à sua parte principal e é encerrada com uma voz narrando em cima de um piano. É uma obra-prima do disco, da carreira solo de Bruce Dickinson e do heavy metal em geral.
A faixa seguinte é a primeira balada do disco: “Gates of Urizen” tem uma longa introdução acústica, em que Bruce Dickinson canta com uma suavidade poucas vezes vista em sua carreira. Quando os outros instrumentos entram, a performance continua sutil — até a explosão no refrão, em que o vocalista usa a plenitude de seus poderes. Em seguida, uma linha de baixo excelente conduz a parte do solo, que é bonito, mas não está entre os melhores do disco – assim como a música em si.
Outra música icônica de The Chemical Wedding é a lindíssima “Jerusalém”, em que Dickinson despeja toda a sua influência dos primeiros discos do Jethro Tull. Uma das mais belas composições da carreira de Bruce, ela encanta tanto em seus momentos calmos e acústicos quanto na parte pesada, em que ambos os guitarristas performam solos brilhantes e a composição descamba em uma parte épica e termina calma novamente. A essa altura, o ouvinte começa a se perguntar o quão mais brilhante e variado o disco pode ser.
Nesse contexto, a rápida e pesada “Trumpets Of Jericho” cai como uma luva, pois lembra o ouvinte que, no fim das contas, ele ainda está ouvindo um disco de metal. Com uma excelente performance da cozinha – especialmente do baterista David Ingraham, a faixa é heavy metal puro e moderno: um riff rápido e pesado, uma belíssima utilização do pedal duplo e um refrão grandioso. Perto dos três minutos, a faixa muda completamente, quando se inicia um dos riffs mais pesados do disco inteiro, que chega a lembrar Black Sabbath.
Chegando na reta final, temos “Machine Men”, a outra parceria entre Smith e Dickinson a figurar no disco. Uma das faixas mais pesadas do trabalho, ela conta com riffs espetaculares, uma performance matadora de Bruce Dickinson – que lembra o estilo de Ronnie James Dio –, um refrão simples e pegajoso, um solo de guitarra fantástico e um final sombrio, em que Dickinson entoa a frase “Iron in the soul”, o que quer que isso signifique.
A última faixa do trabalho é, também, a mais sombria: “The Alchemist” se inicia com vozes cheias de efeito de Bruce Dickinson, que logo é substituída por um riff pesadíssimo e um vocal agressivo. O excelente solo de guitarra prenuncia a volta do refrão da faixa-título, e é dessa forma conceitual que se encerra o melhor disco da carreira solo de um dos maiores vocalistas da história do heavy metal.
Tyranny Of Souls, de 2005
Um ano após o lançamento de The Chemical Wedding, Bruce Dickinson, Adrian Smith e Steve Harris atenderam as preces de praticamente todos os fãs de heavy metal do mundo e uniram-se novamente. Uma curta turnê no ano de 1999 serviu para a banda se re-entrosar e a virada do milênio trouxe o lançamento de Brave New World – que, a essa altura, já pode ser considerado um disco clássico e um dos mais importantes da carreira do Iron Maiden.
A extensa turnê gerou o inesquecível disco ao vivo no Rock In Rio de 2001 e emendou com a produção do álbum seguinte, Dance Of Death. O ritmo frenético fez com que Bruce não tivesse tempo para se dedicar a um novo trabalho solo, que acabou acontecendo apenas em 2005, sete anos após o lançamento de seu antecessor.
Para isso, Bruce reuniu-se com Roy Z para as guitarras e a produção, mas, dessa vez, não contou com Ingraham e Casillas. Para a bateria, trouxe Dave Moreno, e o baixo foi dividido entre três músicos: o próprio Roy Z, Ray Burke e Juan Perez. Os teclados ficaram sob o comando de Mistheria.
A estética pesada dos discos anteriores permaneceu, mas, diferente de The Chemical Wedding, Tyranny Of Souls tem uma veia comercial mais aguçada. A primeira faixa é a introdução “Mars Within”, que serve como uma vinheta de abertura para o trabalho.
Em seguida, há duas músicas rápidas e pesadas: “Abduction” soa como uma sobra das gravações de Dance Of Death, mas, se tivesse entrado no disco, seria um dos destaques. Mesmo que o pós-refrão da faixa seja muito mais pesado do que qualquer coisa que o Maiden já fez, a progressão harmônica e o trabalho de guitarras presente na música remete totalmente ao trabalho que a banda estava realizando na época.
A pesadíssima “Soul Intruders” tem início com um riff que lembra o thrash metal e um pedal duplo incessante. O que começa a seguir é uma clássica canção de heavy metal, que traz um Bruce Dickinson explorando a totalidade de seu poder e de seu alcance vocal. Roy Z entrega um solo de guitarra extremamente técnico e rápido, mas sem abandonar a melodia.
“Kill Devil Hill” tem uma introdução mais climática, mas um riff de guitarra que gera um verso tão pesado quanto as músicas anteriores. O refrão é grandioso e épico e o encerramento da faixa é longo e tão climático quanto a introdução, com um piano e licks de guitarra suaves e sofisticados.
A faixa seguinte, “Navigate The Seas Of The Sun”, é absolutamente diferente de tudo o que o vocalista fez em sua vida. Conduzida por violões e um vocal limpíssimo, a “balada” folk tem um clima medieval e lembra algumas músicas do começo de carreira do Pink Floyd. Por incrível que pareça, até o vocal de Bruce Dickinson nos versos chega a lembrar a voz de David Gilmour – assim como o solo de Roy Z, que também entrega um solo de violão que se aproxima muito do flamenco.
Em seguida, “River Of No Return” é aberta com um riff que remete instantaneamente à música “Running With The Devil”, que abre o primeiro disco do Van Halen. A excelente composição segue padrões básicos de uma música mais lenta de heavy metal, até que uma quebra após o segundo refrão traz um peso adicional à canção, que figura entre as melhores do disco.
Se aproximando da reta final do disco, o nível começa a cair. “Power Of The Sun” traz mais um ótimo riff, outra performance excelente de Bruce Dickinson e também remete ao trabalho contemporâneo do Iron Maiden, mas peca por ser familiar demais. Já “Devil On a Hog” é a canção mais palatável do disco, remetendo até aos tempos de Skunkworks, mas com menos inspiração, soando como uma divagação desnecessária do restante do trabalho, e, apesar de não ser ruim, deixa o nível cair.
A faixa seguinte, “Believil”, também está entre as piores do trabalho. Ela soa perfeitamente como uma faixa do Alice In Chains, e, mesmo como um fã da banda de Seattle, é difícil argumentar que ela parece quase uma paródia da sonoridade do grupo.
Felizmente, a canção que encerra o disco faz com que o fã fique com uma ótima impressão, pois ela é uma das melhores lançadas por Bruce em carreira solo. Sombria, pesadíssima e progressiva, a faixa-título tem um refrão grandioso e marcante, um solo de guitarra excelente e fecha o trabalho com chave de ouro.
The Mandrake Project, de 2024
Após quase vinte anos de espera, The Mandrake Project foi o primeiro lançamento de Bruce Dickinson desde Tyranny Of Souls, de 2005. O time reunido por Bruce Dickinson traz novamente o produtor e guitarrista Roy Z, que também assume o baixo e assina a co-autoria de seis das dez faixas. A bateria ficou por conta de Dave Moreno e os teclados foram tocados por Mistheria. O guitarrista Chris Declerq performou um solo de guitarra em “Rain On The Graves”, e Sergio Cuadros tocou os instrumentos de sopro em “Eternity Has Failed”.
Em termos musicais, o álbum surpreende todos aqueles que esperavam um disco de heavy metal puro que seguisse a linha dos três últimos lançamentos de Bruce. Os dois singles lançados, Afterglow Of Ragnarok e Rain On The Graves, davam a impressão de que seria um disco básico e pouco ousado. No entanto, poucas percepções foram tão erradas quanto essa. Mesmo não sendo o melhor trabalho da vida de Dickinson, provavelmente trata-se do retrato mais adequado de sua ecleticidade musical.
A música de abertura do trabalho foi também seu primeiro single: “Afterglow Of Ragnarok” é uma das músicas mais comuns do trabalho e traz sinais de cansaço na voz de Dickinson, que, mesmo com uma voz espetacular já aos 65 anos, não consegue mais atingir todas as notas, como conseguia há não tanto tempo atrás.
Em seguida, “Many Doors To Hell” tem um riff de hard-rock e um órgão que remetem ao trabalho do Ghost, especialmente músicas como “Square Hammer” e “Dance Macabre”. O fortíssimo refrão vende a faixa como uma das mais divertidas do disco e traz o vocalista com uma voz bem mais encorpada do que na primeira faixa.
A terceira música e segundo single, “Rain On The Graves”, segue a linha da primeira, mas é bem mais inspirada. Os versos trazem um vocal falado, e as estrofes são separadas por um riff sensacional, que remete às escalas do blues-rock e, a cada vez que é repetido, tem uma camada a mais de guitarras. O refrão é simples, mas efetivo, e o solo de guitarra traz duas guitarras fazendo coisas diferentes, e a maneira com que isso funciona é surpreendentemente ótima.
“Resurrection Men” é o primeiro momento genuinamente surpreendente do disco. A introdução da faixa apresenta guitarras que trazem timbre e escalas similares às utilizadas pelo lendário compositor Ennio Morricone em trilhas de faroestes como Era Uma Vez no Oeste e Três Homens em Conflito. A mistura gera uma similaridade curiosíssima com o trabalho do duo The Last Shadow Puppets.
A relação com as trilhas sonoras de cinema não para quando entram as guitarras distorcidas, pois um dos riffs antes do início do vocal lembra a progressão harmônica do tema dos filmes do 007. Assim que o riff termina, começa uma performance vocal matadora em que as estrofes são separadas por licks de guitarra que geralmente seriam executados com um slide. Isso lembra o trabalho de Zakk Wylde na música “No More Tears”, de Ozzy Osbourne. Na música em questão, Wylde intercala uma frase com slide e outra sem.
O refrão repete a harmonia da introdução, mas com guitarras distorcidas e uma boa linha vocal. Logo em seguida, se inicia o riff mais pesado do álbum, que lembra o doom metal e poderia perfeitamente figurar na obra-prima Master Of Reality, do Black Sabbath. Dickinson continua brilhando no vocal, e o baixo, ausente durante toda essa parte da música, chama a atenção sempre que aparece, com um timbre ultra-distorcido. Após um curto interlúdio, a brilhante faixa volta para sua introdução e, em seguida, para o refrão, que fecha com chave de ouro a melhor e mais ousada música de The Mandrake Project.
A próxima canção, “Fingers In The Wounds”, é uma das composições mais simples do álbum, mas a performance de Bruce Dickinson, que intercala momentos calmos e agressivos, e uma instrumentação riquíssima, com pianos, violões e instrumentos de corda, vendem a faixa.
Passando da metade do disco, “Eternity Has Failed” poderia perfeitamente estar em um disco do Iron Maiden, especificamente The Book Of Souls. Brincadeiras à parte, a música foi surrupiada e “maidenizada” por Steve Harris para o espetacular álbum de 2015 e renomeada para “If Eternity Should Fail”, mas também aparece no trabalho novo de Dickinson em uma versão mais orgânica e agressiva. O sintetizador da introdução é substituído por uma flauta peruana e toda a instrumentação tem uma pegada mais crua e um andamento mais lento, o que gera uma música consideravelmente diferente de “If Eternity Should Fail”.
A referência a músicas já lançadas continua na faixa seguinte, “Mistress Of Mercy”, que tem um riff praticamente igual ao de “Freak”, abertura de Accident Of Birth. Seu pré-refrão também remete á faixa-título do álbum de 1997. A mais metaleira do disco, poderia tranquilamente estar em qualquer um dos três últimos álbuns de Bruce Dickinson. Para os fãs que esperavam um disco de heavy metal clássico, certamente essa boa música estará entre as melhores do trabalho.
“Face In The Mirror” dá sequência ao disco trazendo uma influência de David Bowie, especialmente na voz duplicada do refrão. A canção traz a primeira gravação de um solo de guitarra feito por Bruce Dickinson, que tecnicamente beira o amadorismo mas tem um senso melódico mais do que aceitável. Ela se distancia das outras baladas da carreira solo de Dickinson porque não explode no refrão; a linha vocal continua baixa, frustrando expectativas de fãs que esperam algo na linha de “Tears Of The Dragon” ou “Man Of Sorrows”.
A faixa seguinte continua o desfile de influências surpreendentes: “Shadow Of The Gods” começa como se fosse uma música de Scott Walker. É uma composição belíssima, tem um arranjo de cordas certeiro e traz uma performance vocal memorável, especialmente no épico refrão, em que Bruce solta toda sua potência.
Após um breve pós-refrão, inicia-se outro momento do disco que lembra Black Sabbath – dessa vez, uma canção específica: “Megalomania”, do disco Sabotage. Essa sessão traz um refrão extremamente agressivo, com vozes sobrepostas de uma maneira muito moderna; em seguida, após uma sessão melódica com guitarras harmonizadas, Bruce aborda outra faceta de sua voz e comprova que essa é sua melhor performance vocal em um bom tempo, mesmo levando em conta seu trabalho com o Maiden.
A última música do disco é, também, a mais longa: “Sonata” se inicia com uma batida eletrônica que lembra o disco Adore, do The Smashing Pumpkins, e até algumas coisas do Depeche Mode. A melodia vocal soturna guia a faixa até o primeiro refrão, em que a bateria performa de maneira totalmente diferente do resto do disco, usando pratos para condução.
Em seguida, a estrutura verso-refrão é repetida, e, após o segundo refrão, a canção se torna cada vez mais intensa, com um Bruce vigoroso como poucas outras vezes. O vocalista passa uma emoção enorme em sua voz e carrega a faixa durante seus quase dez minutos de duração.
Difícil de comentar por sua característica complexa, que pode ser recebida de formas completamente diferentes por cada ouvinte, a faixa encerra o álbum de maneira apoteótica e deixa o ouvinte perplexo, esperando ansiosamente para saber se haverá novas adições ao catálogo de Bruce Dickinson, e se seus possíveis próximos lançamentos serão tão diversificados quanto The Mandrake Project.
