Kamasi Washington
3 de setembro de 2025
Ópera de Arame
Curitiba/PR
Por Luís S. Bocatios
Fotos cedidas pela assessoria do Circuito Primavera de Jazz
Não há qualquer dúvida de que o principal nome do jazz contemporâneo, pelo menos no século XXI, é o saxofonista Kamasi Washington. Unindo sua paixão por jazz tradicional e fusion a uma ousadia artística de modernizar o gênero ao utilizar elementos eletrônicos e de rap, o artista tem colaborações que vão desde gigantes do jazz, como Herbie Hancock, até nomes do rap e R&B contemporâneos, como Andre 3000 e Kendrick Lamar.
Guardadas as devidas proporções, assistir a um show de Kamasi Washington em 2025 é o equivalente a assistir a um show de Miles Davis nos anos 1960. O artista está no auge de sua criatividade, tem um tesão absurdo em se apresentar ao vivo e traz ao seu lado um sexteto inacreditavelmente talentoso formado por Rickey Washington (pai de Kamasi, no sax soprano e flauta), Miles Mosley (contrabaixo acústico), Patrice Quinn (voz), Dontae Winslow (trompete) Cameron Graves (teclado), Tony Austin (baterista).

O conceito do show também não poderia ser mais jazz old-school: o sexteto apresenta, sim, faixas gravadas em estúdio, mas elas se transformam completamente ao vivo, pois, mesmo que as frases instrumentais que definem a canção são performadas de forma ensaiada pelos músicos, os gigantescos improvisos fazem com que a experiência de ver o show se torne absolutamente única e insubstituível; ou seja, mesmo com tantas modernizações na sonoridade, o espírito do jazz clássico está em alta no show de Kamasi.
A grande diferença em relação ao jazz dos anos 1960, mas já não ao dos anos 1970, é que o artista incorpora elementos de muitos outros estilos de música, todos ligados à cultura negra norte-americana.
A primeira música, “Street Fighter Mas”, apresenta uma levada de soul contagiante, que remete ao trabalho de Herbie Hancock nos anos 1970. O andamento vai se tornando mais quebrado e jazzístico, fazendo saltar os olhos a performance do baterista , na mesma medida em que incríveis improvisos tomam o protagonismo; primeiro o de Kamasi, depois o do trompetista Dontae Winslow e depois um mais curto do tecladista Cameron Graves.

A faixa seguinte, “Lesanu”, começou com uma bateria totalmente descompassada (no ótimo sentido) e um teclado fazendo o tema do filme Halloween. A dinâmica entre teclado e bateria vai ficando cada vez mais intensa e se torna o centro da faixa, enquanto Kamasi se senta e assiste ao solo de Graves como se fosse parte da plateia, mandando sinais de aprovação com a cabeça ao seu companheiro de banda.
Em seguida, o saxofonista tira um momento para agradecer ao público que compareceu, ressaltando que a música é uma linguagem universal e explicando que a próxima música, “Asha the First”, surgiu de uma melodia que sua filha de 4 anos tocou no piano. Orgulhosa, ela repetiu a sequência de notas várias vezes e mostrou a seu pai, que gravou a melodia e a transformou uma fantástica canção de jazz.
A história se torna ainda mais bonita quando percebemos que o principal improviso da canção é feito por Rickey Washington, pai de Kamasi. É o avô improvisando em cima de uma composição de sua neta, em um momento claramente valorizado por Kamasi muito além do que aquelas notas podem dizer. O improviso de Rickey, aliás, é fantástico; o fruto nunca cai muito longe do pé.

A música vai evoluindo até um vocal lindíssimo de Patrice Quinn, seguido por um momento no qual o trompetista começa a fazer um rap, com direito a pedir pra todo mundo jogar as mãos pra cima, como nos shows de hip hop mesmo. É uma celebração não apenas ao jazz, mas a diversas vertentes da música negra norte-americana, tão importante para a identidade cultural do país.
Em “Askim” — única representante do clássico-moderno The Epic, disco de estreia de Kamasi, no repertório —, há um momento fantástico no qual todos os instrumentos de sopro tocam a mesma coisa e Patrice Quiin ainda faz um vocalize com essas mesmas notas, o que engrandece ainda mais o tom épico da melodia da canção. A música ainda conta com um improviso longuíssimo de Kamasi, que demonstra todo seu virtuosismo por mais de cinco minutos e, ao final disso, é ovacionado pelo público.
A próxima canção é “Vortex”, lançada como parte da trilha-sonora do anime Lazarus. Novamente, o tema é tocado como no disco, mas deixa espaço para incríveis improvisos. Em seguida, chegou a hora da melhor música da noite: em “Road to Self (KO)”, o baixista Miles Mosley demonstra um virtuosismo que beira o inacreditável, com um solo que vai crescendo aos poucos e chega ao ápice com a utilização de um arco, intensificando o som de seu baixo à enésima potência.
Como se não fosse suficiente, Tony Austin também ganha espaço para executar um solo de bateria maravilhoso. Um fã de rock está acostumado a ver solos de bateria chatíssimos em shows (a não ser os de Neil Peart, é claro), mas no jazz a história é completamente diferente: os músicos tem total habilidade de fazer com que seus instrumentos sejam extremamente interessantes mesmo isoladamente; é o caso de Austin, que faz um solo destruidor.

Após isso, a música ainda cai em uma parte totalmente free jazz, com improvisações livres e até espaço para sons dissonantes que seriam prontamente rejeitados em qualquer outro gênero, mas são parte integral da linguagem do jazz.
A penúltima música, “Vi Lua Vi Sol”, traz influências claríssimas de ritmos brasileiros, como o samba e a bossa nova, em um andamento delicioso permeado por improvisos belíssimos e um clima dançante absolutamente contagioso. Infelizmente, a noite já estava chegando ao final e não haveria espaço para nenhuma canção do EP Harmony of Difference, trabalho mais divertido do artista.
A última música foi um cover de “Prologue”, do compositor argentino Astor Piazolla, cuja atmosfera que mistura ternura e escuridão foi brilhantemente executada pelos músicos. O auge da performance novamente foi o solo de baixo, que segue o mesmo caminho do primeiro em termos de construção e vai ficando cada vez mais. Dessa vez, no entanto, o público já sabe o que esperar e, quando isso acontece, o impacto se torna ainda maior, mesmo sem o elemento surpresa da primeira vez.
Após mais um dos grandes momentos da noite, o septeto deixou o palco sob aplausos intensos e calorosos. Para qualquer um que goste de jazz e esteve presente na Ópera de Arame nesta noite, não resta nenhuma dúvida de que Kamasi Washington, sim, já pode ser colocado no mesmo patamar de genialidade dos grandes nomes da história do jazz — com a exceção, é claro, de Miles Davis, que é para o jazz o que os Beatles foram para o rock e jamais será superado ou sequer igualado. Entre os humanos, Kamasi não deixa a desejar para ninguém.

