[Cobertura] Glenn Hughes prova que o rock n’ roll jamais morrerá

Glenn Hughes + Marenna
18 de novembro de 2025
Tork n’ Roll
Curitiba/PR

Por Luís Bocatios
Fotos de Clovis Roman

O Tork n’ Roll, em Curitiba, foi o palco daquele que deve ter sido o último show de Glenn Hughes em terras brasileiras. O lendário baixista e vocalista, conhecido principalmente por sua passagem pelo Deep Purple e pelo Black Sabbath, é uma das vozes mais longevas da história do hard-rock e manteve sua qualidade vocal praticamente intacta ao longo de mais de 50 anos. 

Se a turnê de despedida, “The Chosen Years”, for de fato a despedida do artista dos palcos, seu último show no Brasil foi digno da grandiosidade artística que o acompanhou ao longo de toda a sua carreira.

Marenna

Rod Marenna e Bife (foto: Clovis Roman)

Às 19h40, a banda gaúcha de hard-rock Marenna subiu ao palco do Tork n’ Roll para dar o pontapé inicial da noite. Trata-se de um quinteto formado pelo vocalista Rod Marenna, o guitarrista Eduardo Werlang Lersch, o baixista Bife, o baterista Arthur Schavinski e o tecladista Luks Diesel.

Tanto a sonoridade quanto a temática das letras, que falam em sua maioria sobre perseverança e superação, remetem diretamente ao hard rock dos anos 1980, principalmente bandas como Journey, Foreigner e Styx. É um som que não tem absolutamente nada de inovador, mas cumpre com muita competência aquilo ao que se propõe.

Em um set curto, que durou cerca de 40 minutos, a banda se provou altamente talentosa e agradou demais o público que já estava presente. Isso aconteceu desde a primeira música, a ótima “Voyager”, faixa-título do último álbum de inéditas do quinteto, lançado em 2022. A canção apresenta a voz de Rod em excelente estado e ainda conta com um fantástico solo de guitarra, com Lersch abusando do tapping com muito bom gosto, sem jamais perder o feeling.

O entrosamento da banda também estava em alta: o vocalista compartilhou o microfone com os outros integrantes da banda em vários momentos, gerando um show divertidíssimo. O clima continuou ao longo do show inteiro, com destaque para “Never Surrender”, a mais oitentista da noite, e “You Need to Believe”, ambas com letras otimistas características do hard rock dos anos 1980.

É verdade que a banda não apresenta uma variação nas músicas, que seguem basicamente a mesma linha, mas o nível de composição é muito bom, e a performance de todos os músicos é perfeita. Foi um show curto, mas bastante divertido e bem colocado na abertura de Glenn Hughes.

Repertório

Voyager
Never Surrender
Out of Line
You Need to Believe
How Long
Breaking the Chains
Perfect Crime
Had Enough

Glenn Hughes

Glenn Hughes e Soren Andersen (foto: Clovis Roman)

Às 21h, Glenn Hughes subiu a um palco brasileiro pela última vez em sua carreira. Desta vez, o repertório foi bem diferente das últimas vezes em que visitou Curitiba, com um foco muito maior em sua carreira solo e em suas parcerias, fazendo um panorama mais abrangente de sua carreira — em suas outras passagens pela capital paranaense, o repertório focava em sua fase com o Deep Purple.

A primeira música foi a estupenda “Soul Mover”, que apresenta toques fortíssimos de Jimi Hendrix, especialmente de canções como “Crosstown Traffic”. A música já apresenta os três pontos essenciais do show: primeiramente, o impressionante estado da voz de Glenn Hughes, que, do alto de seus 74 anos, destrói as pessoas que utilizam a idade para justificar o estado patético da voz de determinados vocalistas.

Outros aspectos que saltam aos olhos são a excelente dupla de músicos que acompanha Hughes, Soren Andersen na guitarra e Ash Sheehan na bateria), e o absurdo volume do baixo na mixagem — nos mais de 100 shows que assisti na vida, jamais vi um som de baixo tão alto, estridente e arrebatador.

O clima pesado permanece na mediana “Muscle and Blood” e na excelente “Voice in my Head”, cujo riff tem um peso ainda maior ao vivo. A essa altura, a performance de Sheehan já se torna central na performance da banda a partir da pancadaria absurda que promove na bateria.

Em sua primeira interação com a plateia, Glenn Hughes diz que o repertório busca contar toda a história de sua vida, desde sua adolescência até os dias atuais. A música que veio em sequência não foi o melhor exemplo, pois “One Last Soul” é bem mediana e pouco inspirada; em compensação, a pesada “Can’t Stop the Flood”, com seus toques de Soundgarden, joga o nível lá em cima novamente.

Antes de “First Step of Love”, Glenn ressaltou o quão especial o Brasil sempre foi em sua carreira e falou uma frase que foi repetida várias vezes ao longo da noite: “eu amo vocês, me deixem provar o quanto eu amo vocês!”. A música, segunda representante do álbum que Hughes fez ao lado de Pat Thrall em 1982, é milhares de vezes melhor ao vivo do que em estúdio.

A interpretação do vocalista chega às notas mais altas da noite e o consolida como o setentão com a melhor voz da história do rock. A composição não chega a ser a melhor do mundo, mas o instrumental tem toques fortíssimos de The Police e a performance da banda eleva a canção a outro nível, talvez o mais impressionante da noite. Hughes vai às partes mais agudas do baixo e faz uma base brilhante para o ótimo solo de guitarra.

Glenn Hughes (foto: Clovis Roman)

Em seguida, o artista conta sua história de entrar no Deep Purple, que teve início com a banda de rock clássico Trapeze. “Antes do dinheiro ou das mulheres, eu já considerava que fazer música foi a melhor coisa a acontecer comigo. Vou voltar no tempo e cantar algumas músicas da minha banda preferida, que foi a primeira e era exatamente o que eu queria fazer da vida aos 17 anos”.

A dobradinha de músicas da banda foi iniciada pela excelente e groovada “Way Back to the Bone”, uma das melhores da noite por sua performance altamente intrincada, que apresentou músicos transitando pelas diferentes partes da música com maestria. A surreal “Medusa” foi tão boa quanto, com o pesado riff pegando o público pela garganta e hipnotizando aos presentes ao mesmo tempo em que o punch do baixo atinge seu auge. É uma aula de rock n’ roll.

Antes de um medley com “Grace” e “Dopamine”, que gravou ao lado de Tony Iommi, Hughes classificou o mestre dos riffs de heavy metal como um de seus melhores amigos: “como pode um cara tão calmo, devagar e comedido compor os riffs mais fantásticos da história do rock?”. As músicas em si são inconfundivelmente “Iommísticas”, com riffs arrebatadores e pesadíssimos. Mesmo décadas após seu auge, o guitarrista tem uma marca impossível de contornar.

Como a turnê se chama “The Chosen Years”, é claro que não poderia faltar a faixa-título de Chosen, álbum que lançou este ano. A música é muito boa, mas ficou um tanto apagada após os momentos apoteóticos que viriam a seguir.

O vocalista cortou três músicas que estariam entre as duas do Deep Purple, então o final acabou sendo uma dobradinha de clássicos que Hughes gravou no álbum Burn, de 1973. A primeira delas foi a majestosa “Mistreated”, um blues clássico que levou a platéia a cantar e berrar enquanto os músicos se divertiam no palco, alongando ainda mais a gravação original, que já tem mais de 7 minutos.

O final, com “Burn”, dispensa comentários, pois foi uma catarse completa. Talvez tenha sido a última oportunidade do público brasileiro em assistir uma das mais brilhantes canções da história do hard rock ao vivo; se assim foi, a despedida valeu cada segundo.

Repertório

Soul Mover
Muscle and Blood
Voice in my Head
One Last Soul
Can’t Stop the Flood
First Step of Love
Way Back to the Bone
Medusa
Grace/Dopamine
Chosen
Mistreated
Burn

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