[Entrevista] Hugo Mariutti fala sobre sua carreira solo, sua relação com o metal e recomenda bandas novas

Por Luís Bocatios
Foto de Clovis Roman

Mesmo que o heavy metal seja o principal estilo no qual as pessoas pensam ao ouvirem o nome Hugo Mariutti, o ex-guitarrista do Shaman é um artista muito mais versátil do que o comum dentro do metal. Com uma carreira solo que já está no quarto lançamento, Hugo ainda trabalha como compositor de trilhas sonora para séries, filmes e peças publicitárias.

Em entrevista concedida ao Acesso Music, o guitarrista falou sobre sua carreira solo e discutiu suas influências, que vão do thrash metal do Anthrax até o britpop do Oasis, além de sons mais atuais que aprecia, como as bandas Wolf Alice e Fontaine D.C. e até o último álbum da artista pop Rosalía.

Confira a entrevista abaixo:

Você lançou o seu último disco solo, This Must Be Wrong, no começo de setembro. O disco tem momentos, como a música “Heaven”, que soam como um The Cure mais moderno, mas também como bandas mais recentes, como Wild Nothing, The Drums e Real Estate. Você se considera influenciado por bandas mais recentes, como essas três, ou considera que você e essas bandas compartilham as mesmas referências?

Cara, esse lance de influência fica muito no seu inconsciente quando você escuta muita coisa diferente. Eu sou um cara que, pelo meu trabalho como produtor de trilha de filme, estou sempre ouvindo muitas coisas diferentes, então com certeza essas bandas novas me influenciam. Eu acho que tem muita coisa legal, gosto muito do Fontaines D.C, Wolf Alice… um monte de bandas mais recentes e também essas mais antigas. É muito engraçado, porque quando você está fazendo você nem percebe, quando vê o resultado pronto também não percebe, aí alguém fala que parece com alguma coisa e você pensa “é verdade”. Hoje em dia é muito difícil fazer algo que não parece com nada, acho que tudo já foi feito; se não tudo, muita coisa. Então eu tento absorver ao máximo todas as influências que tenho e na hora que estou compondo é uma coisa instintiva que em uma hora pareça uma coisa, outra hora pareça outra coisa.

Quando você lançou o The Last Dance, em 2023, deu algumas entrevistas em que parecia bastante desanimado com a indústria e disse que aquele seria o seu último lançamento musical. O que te fez mudar de ideia foi apenas o bichinho da criatividade ou houve alguma outra coisa?

O mercado continua muito ruim, não só pra mim, acho que todas as bandas vão se queixar disso. O lance do streaming é uma ideia muito boa, ter disponível tudo o que você quiser, porém eu acho que os músicos são muito mal remunerados pelas plataformas. O que eu acho que tem de bom é a democracia de ter milhões de bandas ali, mas com esse lance de algoritmo o seu foco vai sempre pras mesmas bandas, então fica muita coisa no limbo e tem muita coisa boa que fica um pouco perdida. O seu disco ser muito ou pouco ouvido não quer dizer que ele é bom ou ruim, ter mais like ou menos like… mas, como eu faço tudo sozinho e não tenho apoio de gravadora, é um trabalho gigantesco, então você tem que estar muito disposto mesmo. Mas é isso, quando eu vi, já tinha umas vinte músicas e pensei “cara, o que eu vou fazer com essas músicas?”, aí falei “ah, vou lançar e tudo bem”.

E você está novamente com essa ideia de que esse pode ter sido o seu último disco ou voltou pra valer?

Não sei se eu vou ter criatividade para lançar mais coisas, mas provavelmente sim. A coisa que eu mais gosto em trabalhar com música é fazer música. Sempre foi assim: na minha primeira banda, com 15 anos, as músicas eram minhas. É o que eu realmente gosto, muito mais do que ficar estudando técnica, voltado só pra guitarra. Eu sempre curti mais esse lance de fazer música, de compor, tanto que fui fazer trilha sonora, que também é algo que eu sempre quis trabalhar.

Como um fã do Radiohead e compositor de trilhas sonoras, eu imagino que você acompanhe com atenção o trabalho do Johnny Greenwood, que desenvolve um trabalho brilhante no cinema, especialmente ao lado do Paul Thomas Anderson. Além dele, você estuda o trabalho de outros compositores? Se sim, fica mais nos clássicos, como Ennio Morricone e Nino Rota, ou procura pesquisar tendências mais atuais?

Sim, Hans Zimmer, John Williams, o Thomas Newman, que fez Beleza Americana, o Yann Tiersen, que fez O Fabuloso Destino de Amélie Poulain. É super importante conhecer o trabalho de todo mundo e eu gosto de ouvir vários caras, até mesmo aqui na América do Sul, o Gustavo Santaolalla. Eu procuro ouvir muito esses caras, inclusive o Johnny Greenwood. O próprio Thom Yorke chegou a fazer a trilha do novo Suspiria, o Trent Reznor também, do Nine Inch Nails, que faz coisas muito legais, como A Rede Social. Tem vários filmes que eu assisto porque vejo quem fez a trilha.

E você é cinéfilo? Foi por isso que você começou a fazer trilhas sonoras?

Eu sempre tive muita curiosidade em relação a como os caras faziam. Hoje em dia é mais fácil, dá pra fazer tudo no computador, e aí eu comecei a trabalhar com trilha para publicidade, que eu fiz muito e ainda faço, e a partir de um momento começou a aparecer muito filme, série, aí eu fui fazendo e, nos últimos anos, acabei fazendo mais isso do que publicidade. Publicidade é uma coisa mais genérica, o lance das séries e dos filmes é muito mais artístico.

Pelo o que eu percebo, a maioria dos músicos para de se alimentar de novas influências ao longo da carreira, seja por falta de tempo ou de interesse em conhecer coisas novas. O mesmo vale para os fãs, que muitas vezes passam a vida inteira ouvindo as mesmas 10, 15 bandas dos anos 1980 e 1990. Seja de rock, de metal ou de qualquer estilo, você pode citar algumas bandas novas, que surgiram nos últimos 10 ou 15 anos, que você acha que as pessoas deveriam buscar conhecer?

Eu gosto de muitas bandas novas. Como eu falei, o Fontaines DC é uma banda da Irlanda que eu acompanho desde o primeiro disco e é muito legal ver a diferença entre um disco e outro, eles vão adicionando coisas novas. É uma banda que eu gosto muito. O Wolf Alice eu também acho uma banda muito legal. Tem a banda The Last Dinner Party, que eu acho legal pra caramba, é uma banda só de mulheres. Tem uma outra banda inglesa que é uma mulher que canta, se chama English Teacher, eu acho muito legal também. Eu ouvi o último disco da Rosalía, é um atropelo aquilo lá. O que eu achei mais legal é que ela é uma artista pop consagrada e fez um disco super experimental e incrível, os arranjos são um negócio… e é um disco pra você pegar e ouvir inteiro, é uma viagem. Nesse cenário de inteligência artificial, ver um disco assim, com orquestra, coros e coisas bem humanas, eu achei incrível, muito bom, muito bom mesmo.

E como você consome música? Eu imagino que, se um artista que você gosta lance um disco novo, você escuta do início ao fim, mas, no dia a dia, se bate a vontade de ouvir Oasis, que eu sei que você gosta, você vai botar uma playlist ou vai ouvir o What’s the Story? (Morning Glory) de novo?

Mesmo que eu não escute inteiro, eu gosto de botar os discos, porque eu acho que, como artista, você pensa na ordem, no conceito para um disco. Eu sou meio da velha guarda, não tinha tantas bandas para ouvir na hora que você quisesse, tinha que comprar o disco e escutar o disco. Mas o meu filho, por exemplo, gosta muito do Oasis, monta a playlist com as que ele mais gosta e vai adicionando outras. Eu sei que essa geração é mais assim. Mas pro artista leva um tempo: eu monto uma ordem, escuto, penso “putz, não é isso”, aí coloco uma música pra lá, uma pra cá. Você vai ajeitando, tem meio que um conceito, mas eu entendo que a geração do meu filho, que tá com dezesseis, monta playlist, ouve uma música de cada artista e assim vai.

A razão pelas bandas brasileiras de metal fazerem músicas em inglês é bem óbvia e até lógica, visto que várias bandas acabam fazendo mais sucesso fora do que dentro do país. Com o rock, não é bem assim. Quando você deu início à sua carreira solo, o que te fez decidir compor letras em inglês?

Eu acho que esse projeto é muito influenciado pelo rock inglês, pela música inglesa, então pra mim soa mais natural fazer em inglês. Compor em português pra mim é muito difícil, eu acho que não é qualquer coisa que fica boa, é mais difícil de fazer um negócio que você pensa “isso aqui está bom mesmo”. É óbvio que tem elementos de coisas brasileiras porque eu ouço e gosto muito, tem uma música nesse disco novo que tem uma levada com umas percussões meio Nação Zumbi, mas eu achei que ficaria mais legal em inglês, eu me sinto mais satisfeito com as músicas. Para escrever em português tem caras tão bons que você fica até com medo.

Em uma entrevista ao Heavy Talk, o André Matos falou que você foi o maior parceiro musical que ele teve na vida. Os seus dois primeiros discos solo foram lançados enquanto o André ainda estava vivo. Você se lembra se ele chegou a comentar algo sobre os discos, te dar algum conselho, uma opinião ou algo do tipo?

Ele me ajudou pra caramba. No primeiro disco eu passei todas as letras pra ele revisar, ver o que poderia melhorar… ele me deu umas dicas, ouvia as músicas e comentava. No segundo disco, teve uma música que eu gravei com a orquestra de Londres, a “Little Things”, que eu escrevi todo o arranjo e mandei pra ele dizer se achava que podia mudar alguma coisa. Ele sempre apoiou muito esse meu projeto. Eu não falo muito porque, desde que o André faleceu, muita gente acha que a gente fala pra se aproveitar e não sei o que, mas ele foi um cara que sempre me apoiou muito e sempre estava disposto a ouvir novas coisas. Teve um aniversário dele que eu dei o OK Computer do Radiohead de presente pra ele, ele gostou, falou “cara, tem uns arranjos meio loucos”. É meio diferente do que ele ouvia, o André era um cara que ouvia música pop, ele gostava bastante do Morrissey, mas ouvia bastante música clássica, e tem umas harmonias nessas bandas mais experimentais que chocavam um pouco ele, sabe? É muito legal, porque de vez em quando eu vinha com um solo e ele falava “cara, mas essa nota aqui…”, e eu falava “ah, mas os caras de tal banda usam assim também” e ele “mas é estranho!”. Mas o legal era que a gente tinha essas diferenças e se dava muito bem escrevendo junto.

Falando um pouco sobre o seu estilo como guitarrista: na época de Shaman, você fez solos extremamente técnicos, como o de Here I Am; outros muito melódicos, como o de Fairy Tale; e outros que tem um ar quase jazzístico, não nas escalas mas no senso meio caótico e improvisacional , como o de “Pride”. Na carreira solo, como já falamos, a abordagem é totalmente diferente, uma coisa mais atmosférica. Como você encara essa diferença? Como um cara bastante técnico, às vezes é difícil se conter?

Eu acho que é o contrário [risos]. O heavy metal exige esses solos, mas mesmo no heavy metal os guitarristas que eu mais gostava faziam mais bases, tipo o Scott Ian e o James Hetfield. Também gostava muito do Randy Rhoads, que tinha muita técnica mas também tinha muito essa coisa de solos bonitos, que você conseguia cantar, esse tipo de coisa. Também gosto muito do guitarrista do Marillion, o Steve Rothery, que também faz solos melódicos. Às vezes eu fazia solos mais rápidos pela necessidade do heavy metal e porque eu tinha que tocar muitas músicas do Angra, que são técnicas, e eu tinha que ter a técnica pra poder executar tudo isso direito. Eu estudava bastante, mas na hora de fazer os solos eu sempre penso mais no que a música tá pedindo, o que cabe ali. Tem vezes que não cabe o solo rápido, e tem vezes que, sei lá, “Here I Am” não dá pra botar um solo muito lento. A “Pride” é uma música caótica, é quase um punk, então eu tento entender mais a música pra ver o que eu vou colocar.

Hoje em dia, você é muito mais ligado a esse rock alternativo do que ao heavy metal, mas ao mesmo tempo continua se apresentando com o Shamangra e as músicas do Shaman e do Angra exigem que você esteja com a técnica nos trinques. Você mantém uma rotina de prática e estudos de guitarra?

Eu descobri há uns três meses atrás um problema na coluna e toda a dor vai pro meu braço, então pra tocar principalmente essas coisas mais técnicas é bem difícil, dói, formiga a mão, não tem muita firmeza pra segurar a palheta. Eu tô fazendo um tratamento, mas é demorado. Mesmo antes disso, tipo um mês antes do show eu pego o repertório todo e toco as músicas todas durante esse mês todo, passo o show todos os dias. Na carreira solo é a mesma coisa, porque tenho que cantar, letras pra lembrar, então também exige esse treinamento, pelo menos um mês antes eu começo a treinar. E assim, eu tô sempre tocando pra gravar trilhas. É óbvio que, se eu fiz duas ou três trilhas de heavy metal durante os treze anos que eu trabalho com isso foi muito, então não é uma coisa que estou acostumado, mas também tem uma memória motora que, por mais que não esteja tão treinado assim, você lembra das coisas, mas exige um treino sim, principalmente pro heavy metal que é mais difícil.

Falando em guitarristas que você admira, eu tenho uma pergunta muito específica: talvez a minha música preferida do Shaman seja a “Scarred Forever”, do Reason. De zero a dez, o quanto você estava pensando no Zakk Wylde pra fazer aquele riff?

Putz, caramba! Olha, eu não lembro, mas com certeza o Ozzy é um cara que eu escutei muito na minha vida, só teve guitarrista bom, impressionante. Essa foi a segunda música que eu fiz pro Reason. Eu fui guardando as ideias, eu tinha feito a “Turn Away”, depois fiz essa, depois a “Reason”. Eu lembro que foi bem quando eu comecei a gravar no computador, antes eu gravava no porta-estúdio, que era um aparelho com uma fita cassete e quatro canais, aí você ia gravando, como era feito antigamente, muitas das gravações dos Beatles eram desse jeito. No Reason eu comprei um sistema e comecei a trabalhar bastante com o computador.

Acompanhando você no Instagram e a sua carreira solo, dá a impressão de que você não é um cara que escuta metal no dia a dia. Qual é a sua relação com o metal atualmente, teve algum momento em que você parou de escutar?

Eu escuto muito menos hoje em dia, pra ser sincero. Mas eu ouvi muito na minha vida, e é engraçado que o tipo de metal que eu sempre escutei é diferente do que eu toquei. Eu sempre escutei muito Ozzy, Anthrax, Exodus, Slayer, eu era um cara mais thrash metal. Óbvio que também ouvia Iron Maiden e tal. Hoje em dia eu ainda escuto alguma coisa dessas bandas mais pesadas, mas eu dei uma cansada. Eu conheço só algumas bandas novas, não conheço tudo, conheço menos do que conheço o rock alternativo, mas eu tenho a sensação de que os sons são muito parecidos, os timbres de guitarra, o som de bateria, e isso me incomoda um pouco. Eu sempre gostei de coisas diferentes: o Metallica soa de um jeito, o Anthrax soa de um jeito totalmente diferente e assim vai. Eu nem acho que é culpa das bandas, acho que já foi feita muita música então é difícil fazer algo diferente.

Tem algo na música em geral que você tenha ouvido nos últimos tempos e considera inovador? Porque as coisas mais legais que tem hoje em dia acabam sendo retrô, mas que com uma roupagem um pouco mais moderna.

Inovador é difícil. O Fontaines, que eu falei, começou meio punk, ela tem um estilo diferente, mas muita coisa lembra o pós-punk dos anos 1980 ou final dos anos 1970. Eu acho que o System of a Down é uma banda que inovou pra caramba, é um som completamente louco, diferente. O Rammstein também, porque misturou o eletrônico com um negócio pesado e cantando em alemão, é muito diferente. Esse CD da Rosalía eu não sei o que parece, é uma coisa muito louca. 

Eu sei que é difícil, mas, por essa diversidade nas coisas que você escuta, você conseguiria citar os cinco discos mais importantes da sua formação musical?

Quando eu comecei a tocar, foi o Master of Puppets, do Metallica. Um disco que também me influenciou muito é o Diary of a Madman, do Ozzy. Também tem o Clutching at Straws, do Marillion, que eu gosto muito. O OK Computer não tem como não citar, esse disco pra mim é o mais… se eu tivesse que separar um disco na minha vida pra levar pra algum lugar, seria esse que eu levaria. E o último do Fontaines D.C. também, o Romance. Acho que essa lista mostra um pouco de todo o meu trajeto musical. Mas eu esqueci de um monte.. não falei nenhum dos Beatles por que é melhor deixar de fora da disputa. Tudo o que os caras fizeram… em todas as bandas hoje você vê alguma coisa que os caras fizeram lá nos anos 1960. Outra banda que fez coisas incríveis na época é o Beach Boys, o Brian Wilson era um gênio. Mesmo se os artistas não souberem, foram influenciados por eles, porque quem influenciou eles foi influenciado por esses caras.

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