Death to All
21 de janeiro de 2025
Tork n’ Roll
Curitiba/PR
Por Luís Bocatios
Fotos de Clovis Roman
Se os Estados Unidos tivessem um sistema de saúde pública minimamente humanizado, o genial e lendário Chuck Schuldiner possivelmente ainda estaria conosco. Diagnosticado em 1999 com glioma pontino, um tipo raríssimo e extremamente agressivo de câncer no cérebro, Chuck enfrentou dificuldades financeiras para custear o tratamento, o que atrasou intervenções médicas importantíssimas e o levou a morte em 2001, aos 34 anos.
É claro que a morte de Ozzy Osbourne, por exemplo, foi devastadora para os fãs, mas sua missão já havia sido cumprida; a de Chuck não. Uma morte tão precoce e próxima do auge de sua criatividade faz com que ela se torne ainda mais penosa e gere uma vontade maior de celebrar o legado de alguém que foi impedido de terminar de escrevê-lo.
Não por acaso, há duas bandas diferentes formadas por ex-integrantes do Death, projeto revolucionário e formidável ao qual Chuck dedicou sua vida, que têm o objetivo de celebrar o gigantesco legado deixado pelo compositor. A Left to Die, que conta com nomes como Rick Rozz e Terry Butler, foca mais nos trabalhos iniciais do grupo, especialmente os álbuns Scream Bloody Gore e Leprosy, duas pedras fundamentais no desenvolvimento do metal extremo.

Já a Death to All conta com a inacreditável cozinha formada pelo baixista Steve DiGiorgio e pelo baterista Gene Hoglan, além dos guitarristas Bobby Koelble e Max Phelps, que também assume os vocais. O repertório varia de tour para tour: na última visita a Curitiba, em 2014, ele foi composto por um “greatest hits” do Death; dessa vez, todos os álbuns foram representados, mas o foco foi especialmente para Spiritual Healing, de 1990, e Symbolic, de 1995, que foi apresentado na íntegra.
A faixa de abertura foi a porrada “Infernal Death”, que também abre Scream Bloody Gore, que foi tocada pela metade e emendou sem pausa com “Living Monstrosity” e, logo em sequência, “Defensive Personalities” — ambas de Spiritual Healing, que completaram uma trinca agressiva e impecável que não deixou o público respirar. A primeira pausa foi com DiGiorgio dedilhando seu baixo, em uma improvisação que eventualmente o levou ao inconfundível início da fabulosa “Lack of Comprehension”, um dos pontos altos da noite, que teve sua introdução de baixo cantarolada pelo público.
Falando em DiGiorgio, é impossível tirar os olhos do baixista ao longo da noite. Seu estilo absolutamente único ao tocar baixo é fascinante, assim como sua técnica inacreditável — anos vão se passar e eu jamais entenderei como ele consegue ser tão preciso em músicas tão complexas usando um baixo fretless. Em segundo lugar na lista de fascínio/confusão está Gene Hoglan, cujo estilo blasé e parado com o qual se porta na bateria é contraposto de forma magnífica pela explosão de técnica e brutalidade que oferece no instrumento. A performance da cozinha acaba diminuindo um pouco a atenção para a dupla de guitarristas, mesmo que a competência de ambos seja alta.

Também ficou com o baixista a tarefa de se comunicar com o público ao longo da noite. Em seus discursos, reiterava sempre o carinho que os músicos sentem um pelo outro e, acima de tudo, por Schuldiner.
Seguindo a primeira parte do show com um foco em Spiritual Healing, a banda toca a destruidora “Altering the Future”, responsável por abrir o mosh que não se fecharia até o fim da noite, e emenda com “Zombie Ritual”, que foi o maior coro da noite tanto no riff da introdução quanto no refrão. Após a boa “Within the Mind”, a banda encerra a primeira parte do show com as transcendentais “The Philosopher” (única na qual Di Giorgio utilizou um baixo de seis cordas) e “Spiritual Healing”, duas das melhores composições da vida de Chuck.
A partir daí, tirem as crianças da sala: Symbolic foi tocado na íntegra. Enquanto o novato Max Phelps cumpre com primor a missão de substituir Chuck, os outros três integrantes do Death to All simplesmente executam com perfeição aquilo que eles mesmos haviam gravado em estúdio, que resultou em um dos grandes álbuns da história do metal.

As três primeiras faixas são possivelmente as melhores do álbum e promovem uma experiência quase religiosa a um público completamente devoto à obra do Death. A performance de todas as músicas foi impecável, caminhando com primor entre a beleza da seção central de “Sacred Serenity”, a brutalidade inacreditável do riff de “1,000 Eyes” e a jornada épica que são os mais de 8 minutos de “Perennial Quest”.
Após deixar o palco por alguns minutos, o quarteto retorna para mais duas músicas: a primeira delas é a “Spirit Crusher”, para a qual não existem superlativos o suficiente para descrever o tamanho do brilhantismo. Talvez seja a música que melhor reúne um peso devastador com partes incrivelmente rápidas e divertidas, um refrão poderoso como poucos outros na história do metal, quebras de andamento fantásticas e performances avassaladoras de todos os músicos. Foi tocada ao vivo com uma precisão cirúrgica que é preciso ver para crer.
A brutal “Pull the Plug” surge quase como um epílogo, relembrando os primórdios da banda e exibindo uma faceta mais simples que marcou os dois primeiros discos do Death, uma das bandas mais fascinantes da história do metal exatamente pela habilidade que seu criador teve em evoluir e se reinventar sem jamais perder a essência visceral de seu trabalho. Chuck Schuldiner foi um dos grandes nomes da história do metal e seu legado deve ser sempre valorizado, relembrado e celebrado.
Repertório
Infernal Death
Living Monstrosity
Defensive Personalities
Lack of Comprehension
Altering the Future
Zombie Ritual
Within the Mind
The Philosopher
Spiritual Healing
Symbolic
Zero Tolerance
Empty Words
Sacred Serenity
1,000 Eyes
Without Judgement
Crystal Mountain
Misanthrope
Perennial Quest
Spirit Crusher
Pull the Plug
