Living Colour: uma aula de rock n’ roll

Living Colour
1º de março de 2025
Live Curitiba
Curitiba/PR

Por Luís Bocatios
Fotos de Clovis Roman

Da última vez que o Living Colour tocou em Curitiba, Lula era o presidente do Brasil, os Estados Unidos atacavam o oriente médio sob justificativas altamente questionáveis e um filme brasileiro estava indicado a quatro categorias do Oscar. Calma: não estou falando de 2026, mas sim de 2004.

De lá pra cá, o sociopata no comando dos EUA mudou de Bush para Trump, o indicado da vez é “O Agente Secreto” e não “Cidade de Deus” e Lula… bem, esse é realmente o mesmo. Outra coisa que não mudou foi a relevância do Living Colour, o que é bom por tratar-se de uma banda excelente, cuja energia ao vivo permanece intacta mesmo com todos os integrantes já na casa dos sessenta anos, mas ruim por percebermos que as letras da banda, repletas de comentários críticos ao estado da sociedade, estão mais atuais que nunca.

Sem contar alguns covers, o repertório é completamente formado por músicas dos três primeiros álbuns da banda, os clássicos Vivid, Time’s Up e Stain. A escolha comprova o que o baixista Doug Wimbish já havia antecipado em entrevista a este que vos escreve, quando afirmou que a banda pretende gravar novas músicas, mas prioriza uma experiência ao vivo visceral. Por mais que faça falta um trabalho de inéditas da banda nos tempos atuais — o último foi Shade, de 2017 —, a conta fecha.

Não há superlativos o suficiente para descrever a performance do quarteto em cima do palco: com 63 anos (e fumante!), Corey Glover ainda exibe um gogó inacreditável; Vernon Reid é uma força da natureza, desfilando seu estilo único de tocar guitarra com um virtuosismo que jamais se torna prepotente; Wimbish é uma atração à parte não apenas por sua habilidade inigualável com o instrumento, mas também por sua presença de palco; e William Calhoun mistura uma técnica impressionante com uma brutalidade tremenda, espancando a bateria a ponto de parecer que ela vai sair voando a qualquer momento.

Isso tudo já vem à tona na primeira música: após a Marcha Imperial de Star Wars, a banda sobe ao palco sob fortes aplausos do público e abre o show com “Leave it Alone”, perfeito exemplar da sonoridade do grupo ao misturar os riffs pentatônicos de bandas como Led Zeppelin e Cream a um groove característico do funk e da soul music. É uma sonoridade única que jamais foi replicada, fazendo do Living Colour uma das bandas mais originais das últimas décadas.

Vernon Reid, guitarrista do Living Colour

A mesma linha segue em uma dobradinha de Vivid composta pela ótima “Middle Man” e por “Memories Can’t Wait”, cover de Talking Heads que comprova a capacidade incrível da banda em inserir autoralidade nas suas versões. Um dos grandes momentos do show foi no final dela, quando, após uma parte mais calma, acontece uma porradaria homérica, na qual tememos pela saúde das peles da bateria.

Em “Ignorance is Bliss” o destaque é o instrumental, com uma bateria extremamente groovada e uma interação fantástica da guitarra com o baixo, que às vezes repete as notas e às vezes faz uma base para loucuras de Vernon Reid. Já na metaleira “Go Away” o melhor momento é novamente o final, que traz uma performance majestosa de Corey Glover.

Após isso, o vocalista apresenta a divertida “Funny Vibe” como a primeira música do Living Colour. Com uma guitarra digna de Nile Rodgers, a música é uma das mais funkeadas do repertório, trazendo um solo de guitarra magnífico e uma letra que fala sobre a forma com que alguns acham que estão sempre em perigo ao lado de pessoas negras: “eu não vou te roubar, eu não vou te estuprar, eu não vou te machucar, e tento não te odiar”.

“Bi” é uma excelente música com uma letra engraçadíssima sobre como ser bissexual dobra as suas opções de flerte — o que, por sua vez, também oferece um risco dobrado de traição e de decepções amorosas — e traz um solo de baixo no final, comprovando de uma vez por todas que Doug Wimbish é um dos maiores baixistas do mundo, não apenas por sua técnica absurda mas também por seu formidável senso rítmico e melódico. A vibe alto astral foi cortada por um cover um tanto quanto aleatório de “Hallelujah”, de Leonard Cohen. Mesmo sendo uma das músicas mais batidas do mundo, há de se admitir que a canção ficou lindíssima na voz de Corey Glover. 

Se o público já estava emocionado, o sentimento foi ampliado na introdução da esplêndida “Open Letter (To a Landlord)”, uma das melhores músicas da banda, que é um grito emocionante contra a destruição de vizinhanças em nome de transformações imobiliárias: “você pode derrubar esse prédio, mas não pode apagar uma memória // essas casas podem parecer ultrapassadas, mas elas têm um valor que você não pode ver”, canta Glover no grandioso refrão, um dos melhores momentos da noite. No final, a banda deixa com que a plateia cante o refrão e, quando acaba, todos ovacionam o vocalista com um coro de “Corey! Corey! Corey”.

Corey Glover e sua inesgotável voz

“Do Bronx, em Nova York, Will Calhoun!”, diz Glover ao deixar o palco para que o baterista faça um esplêndido solo de bateria, que acabou se juntando à música brasileira “Baianá”, para a qual Calhoun fez uma batida quase thrash metal. Reid e Wimbish foram para o backstage, provavelmente se hidratar ou sentar um pouco, mas o vocalista passou o tempo todo ao lado da bateria assistindo o solo.

Quando os outros voltam ao palco, a banda reproduz a introdução meio psicodélica de “This is the Life”, a música mais complexa da noite, com diversos tempos diferentes, pelos quais os músicos transitam como se fosse fácil. Também foi o melhor solo de guitarra da noite, com Reid dando uma aula de virtuosismo e feeling que levaram Glover a ficar admirado e balançando a cabeça em aprovação. 

Em seguida, “Pride”, outra das melhores composições da banda, levou todos a cantarem em voz alta a excelente letra. O glorioso refrão foi mais um dos melhores momentos da noite e a música, de certa forma, encapsula todos os elementos que transformaram o Living Colour em uma das grandes bandas de rock americanas de todos os tempos: peso, groove, excelência instrumental, melodias pegajosas e uma performance magistral de Corey Glover, não apenas no sentido de alcance vocal, mas também da personalidade que imprime em sua interpretação.

O momento que veio a seguir foi o único mais descartável da noite, com covers de músicas como “You Don’t Love Me” e “Apache”, mas o que veio a seguir compensou com sobras: com uma vibe meio Paralamas do Sucesso, a divertidíssima “Glamour Boys” botou todos para dançar e cantar, principalmente no ótimo refrão, a parte mais pesada da música.

Já a semi-balada “Love Rears It’s Ugly Head” é um dos momentos mais esquisitos do show, com uma característica sincopada que a transforma em quase hipnótica. Junto a uma ótima letra sobre as coisas que podem dar errado em um relacionamento, o ritmo “diferentão” coloca a música indubitavelmente entre as mais interessantes da carreira do Living Colour.

Outra delas é “Type”, outra composição complexa que passa por diversas partes diferentes até desembocar na quase etérea parte “everything that goes around, comes around”, que remete ao trabalho do The Who no início dos anos 1970. Já perto do final do show, a mastodôntica “Time’s Up” é uma das mais impressionantes performances da noite, com Doug Wimbish tirando onda em uma linha de baixo quase aleatória, mas que, pra quem conhece a gravação original, sabe que foi executada com uma precisão cirúrgica.

Com uma letra mais atual do que nunca, “Cult of Personality” é o maior clássico da banda e, obviamente, foi cantada a plenos pulmões pelo público. Fantástica, a música questiona qualquer culto à personalidade, seja a ditadores como Mussolini e Stalin ou a líderes religiosos como Mahatma Gandhi. Glover termina a música com os braços cruzados em formato de X, uma imagem extremamente impactante.

O final veio com um cover de “Should I Stay or Should I Go”, que, apesar de ser outra das músicas mais batidas de todos os tempos, foi fenomenal por se tratar de uma versão única do Living Colour — que, cá entre nós, é muito mais interessante do que a original, apesar do The Clash ser uma das melhores bandas da história.

Saindo do palco ovacionada, a banda provou que permanece com uma energia praticamente juvenil e deve continuar na ativa por muitos e muitos anos — Glover garantiu que eles voltariam ao Brasil. Ainda bem, pois o Living Colour está a cada dia mais necessário, não apenas por sua mensagem extremamente relevante mas também por sua qualidade muito acima de qualquer banda recente, coisas que, juntas, resultaram em um show monumental.

Repertório
Leave It Alone
Middle Man
Memories Can’t Wait
Ignorance is Bliss
Go Away
Funny Vibe
Bi
Hallelujah
Open Letter (To a Landlord)
Solo de bateria/Baianá
This is the Life
Pride
White Lines (Don’t Don’t Do It)/Apache/The Message
You Don’t Love Me (No, No, No)
Glamour Boys
Love Rears It’s Ugly Head
Type
Time’s Up
Cult of Personality
Should I Stay or Should I Go

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