[Cobertura] All Metal Stars: digna homenagem ao grandioso legado de André Matos

All Metal Stars Band
8 de março de 2025
Hard Rock Cafe
Curitiba/PR

Por Luís Bocatios
Fotos de Clovis Roman

Sem contar os membros do Sepultura, André Matos certamente é a figura mais importante da história do metal brasileiro. Do pioneirismo do Viper ao esplendor do Angra e do Shaman, passando pela maravilhosa digressão com o Virgo e pelas participações em projetos como Avantasia e Symfonia, o Maestro teve uma carreira marcada pela excelência e pela integridade até o fatídico dia 8 de junho de 2019, quando nos deixou precocemente, aos 48 anos.

Como de costume no Brasil, foi após a morte de André que as pessoas passaram a valorizá-lo plenamente. Isso gerou a criação de diversos eventos e atos de tributo a seu legado, como é a All Metal Stars. Talvez essa tenha sido a que melhor tratou a empreitada, especialmente por contar com o envolvimento de Daniel Matos, irmão de André, carimbando a celebração com uma legitimidade extra.

Além disso, o nome All Metal Stars também se mostra adequado, visto que a banda é formada pelo vocalista Thiago Bianchi (Shaman, Noturnall), pelos guitarristas Edu Ardanuy (Dr. Sin, Sinistra) e Guilherme Torres (Noturnall), pelo baixista Saulo Xakol (ambos do Noturnall), pelo tecladista Fábio Laguna (Angra, Edu Falaschi) e pelo baterista Aquiles Priester (Angra, Edu Falaschi, Noturnall, WASP). Daniel Matos, atualmente baixista do Viper, é um convidado mais que especial, subindo ao palco para tocar algumas músicas.

Com um repertório dominado pela fase de André no Angra, formada pelos clássicos Angels Cry, Holy Land e Fireworks, a lista de músicas ainda contou com uma música do Viper, três do Shaman e uma de sua carreira solo. A primeira da noite foi logo o maior sucesso, “Carry On”, em uma quebra de expectativa interessante pelo fato da música ter se tornado quase sempre a última dos shows em que é tocada.

Após a primeira música do primeiro disco do Angra, veio “Here I Am”, a primeira do Shaman. Ambas maravilhosas, arrasa-quarteirões, já deixaram o público com a adrenalina lá no alto e mostraram que a banda não estava pra brincadeira: todos os músicos são competentes, mas o destaque fica com Bianchi, que deu conta das notas mais agudas, o sempre monstruoso Aquiles e o fenomenal Edu Ardanuy, que toca os solos com enorme fidelidade mas sempre colocando sua assinatura, especialmente no delirante timbre de sua guitarra.

Em seguida, uma dobradinha de ouro: “Carolina IV”, possivelmente a melhor música da história do metal brasileiro, foi perfeitamente executada, com destaque para um solo estendido de Ardanuy no final da música; e “Time”, uma das melhores power-ballads do metal, contou com uma belíssima performance de Bianchi e deixou o público emocionado.

Falando em emoção, foi exatamente aí que Daniel Matos foi convidado para subir ao palco e o que veio a seguir foi uma sequência de balada que começou com “Wuthering Heights”, cover de Kate Bush que o Angra gravou em Angels Cry. Em seguida, Daniel agradeceu ao público e disse que foi intimado por seus colegas de banda a cantar “Living for the Night”, do Viper, mas para isso precisaria de ajuda da plateia.

O que aconteceu foi uma confusão gigantesca: após algumas excelentes frases meio David Gilmour na guitarra de Ardanuy, o público começou a cantar alguns compassos antes do que deveria, fazendo com o que as mudanças de acordes não encaixassem com a melodia. O problema só foi resolvido no refrão, e a segunda parte da música, que não tem nada de balada, foi excelente.

Outra power-ballad maravilhosa de Angels Cry é “Stand Away”, uma das performances mais desafiadoras da carreira de André Matos, que Bianchi conseguiu dar conta. Essa é outra vantagem de shows tributo: recuperar músicas excepcionais que por algum motivo foram esquecidas ao longo do tempo pela banda que está sendo homenageada.

De esquecidas as duas músicas a seguir não tem nada: “Make Believe” e “Fairy Tale” talvez sejam as baladas mais celebradas da carreira de André e geraram exatamente a comoção esperada por músicas desse quilate. Daniel Matos sai, Xakol volta e, para dar um descanso para a voz de Bianchi após o inacreditavelmente agudo final de “Fairy Tale”, o vocalista Gui Antonioli, da banda de abertura Tierramystica, assumiu os vocais em “Letting Go”, música da carreira solo de André Matos que encontrou pouco entusiasmo do público.

Já em “Lisbon”, única representante de Fireworks no repertório (uma pena), quem tomou conta do microfone foi Cristiano Poschi, vocalista da outra banda de abertura Phornax. A canção, muito bem recebida pelo público e performada pela banda, foi sucedida por uma fala de Aquiles Priester que durou bem uns quinze minutos.

Após desejar feliz dia das mulheres a todas e depois ser vaiado por elas ao dizer que as únicas que o seguem são por influência do namorado, Aquiles chamou Laguna de vagabundo por nunca ter tido a carteira assinada, brincou com as primeiras experiências sexuais do “caipira” Guilherme Torres, disse que Saulo Xakol é praticamente mudo, classificou Ardanuy como seu padrinho de carreira e Bianchi como o grande maestro do evento. Se deixarem tanto Aquiles quanto Fabio Lione falarem na reunião do Angra no Bangers Open Air, o show terá umas sete horas — mas elas serão engraçadas.

Passado o stand-up, foi a vez de “For Tomorrow”, possivelmente a melhor música da carreira do Shaman, executada de forma impecável pela banda, que saiu do palco e voltou para as indispensáveis “Nothing to Say” e “Angels Cry”. A dobradinha encerrou a noite com chave de ouro e provou que esse é realmente um dos melhores shows possíveis para celebrar a memória do grande maestro André Matos, feito com muito carinho, dedicação e talento dos envolvidos.

Repertório

Carry On
Here I Am
Carolina IV
Time
Wuthering Heights
Living for the Night
Stand Away
Make Believe
Fairy Tale
Letting Go
Lisbon
For Tomorrow
Nothing to Say
Angels Cry

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