Lorna Shore – I Feel the Everblack Festering Within Me
(Shinigami Records – nacional)
por Clovis Roman
A trajetória do grupo estadunidense Lorna Shore é marcada por uma evolução sonora que desemboca no symphonic deathcore, seja lá o que isto quer dizer. Iniciando com uma sonoridade mais calcada no metal/deathcore convencional, gradualmente incorporou elementos do black metal sinfônico e passagens mais técnicas. Assim, chegaram ao mainstream, angariando uma legião de fãs e outra de detratores.
O quinto álbum de estúdio da banda, “I Feel the Everblack Festering Within Me”, lançado em 12 de setembro de 2025 pela Century Media Records, consolida essa nova era ao expandir as fronteiras do metal extremo com uma abordagem ainda mais sombria e introspectiva. Produzido por Josh Schroeder, o disco foi gravado com o intuito de capturar uma sonoridade massiva e cinematográfica, e obteve, em geral, receptividade positiva dos fãs e imprensa especializada.
O negócio é insano, para dizer o mínimo. Tem aquela grandiosidade sinfônica do Dimmu Borgir, a velocidade de um Origin, vocais guturais e rasgados do death metal e do metalcore, com reminiscências psicodélicas. A abertura com “Prison of Flesh” é como um soco no estômago, pois cada parte – em sua maioria super velozes – chega sem aviso, tornando cada segundo um momento de tensão. O solo de teclado de Andrew O’Connor, por exemplo, é totalmente abrupto. O famigerado breakdown aparece nos segundos finais, deixando o Slaughter to Prevail com inveja.
“Oblivion” é mais cadenciada, mas ainda extremamente brutal. A rispidez não sei de cena nem mesmo quando agregam nuances góticas e melodias que chegam a lembrar o Amorphis. Tudo isso em pitadas. Como adepto do metal mais convencional, para mim é difícil ouvir bandas mais novas, dessas que são um caldeirão de influências e referências, pois a grande maioria delas soa sem sal, sem vida. Mas o Lorna Shore conseguiu prender minha atenção. E isto que estou ainda na segunda faixa. As orquestrações e alguns riffs análogos ao black metal pomposo completam esta faixa brilhante – apesar da primeira ser mais legal.
O que pode afugentar os tiozões 40+ como eu, são os vocais de Will Ramos, dono de grande versatilidade mas que às vezes soa artificial, principalmente nas partes mais rasgadas, que caberiam melhor em uma banda de grind/noise. Os guturais profundos são excelentes e os médios são médios. Outro fator que salta aos ouvidos é a duração das canções, que duram em média seis minutos e meio. A própria “Oblivion” ultrapassa os oito minutos, enquanto a última, “Forevermore”, encosta na dezena.
Mais pop com solo de guitarra melodioso, “In Darkness” traz uma nova perspectiva ao ouvinte, enquanto “Unbreakable” e “Glenwood” seguem na mesma, com boas melodias gélidas. Nessa, no fim da frase “Where Did it Go”, Ramos deixa o gutural e deixa escapar (propositalmente) um pouco de sua voz limpa, como se estivesse soluçando, o que, repetidas vezes, chega a ser irritante. Sorte a música ser boa. Alicerçada em boas orquestrações, bateria de death metal veloz e boas soluções vocais, “Lionheart” se destaca, mesmo que exista um breakdown no meio totalmente deslocado, que é igual a todos os outros breakdowns que existem.
Para manter as coisas interessantes, “Death Can Take Me” mantém a bateria à velocidade da luz dominante, porém com passagens mais climáticas; o pseudo-refrão parece nem ter guitarras, pois a orquestração e os vocais rasgados dominam todo. Sim, tem mais um breakdown no meio, daqueles pretensamente ultra mega brutais e pesados, assim como tem mais uma passagem etérea antes de tudo voltar com uma explosão sônica. São elementos do metal moderno, quer queira ou não, e eles não se furtam em usá-los.
Olhando um pouco mais ao passado, “War Machine” começa com um riff de guitarra metálico e um ritmo de bateria mais cadenciado – um breve interlúdio com gritaria e tiros pausa tudo antes do início da parte mais moderna, que segue mais lenta que as anteriores, e com boa base das guitarras, tendo algumas similaridades com o metal industrial do Fear Factory em algumas nuances. Sim, tem um breakdown no finalzinho desta que é a melhor música do álbum.
Algumas partes de “A Nameless Hymn” lembram o Behemoth de sua fase mais emo – que compreende três discos: The Satanist, I Loved You at Your Darkest e Opvs Contra Natvram. Um dos riffs de base para um dos versos parece totalmente criado por Nergal e companhia. O breakdown aqui é diferente. Indo contra a tendência atual de consumo de música, no qual a maioria das pessoas não ouvem álbuns inteiros, muitas vezes nem músicas inteiras, na urgência de ir logo para o próximo conteúdo – um comportamento fomentado por redes sociais como TikTok e Instagram – “Forevermore” encosta na marca dos dez minutos, e o Lorna Shore mostra competência ao segurar as pontas por tanto tempo. Deve agradar tanto os mais jovens quando uma parcela dos mais antigos.
Quem tem receio de ouvir a banda, pensando que eles se apoiam apenas nos breakdowns e guturais sem sentido, pode conferir I Feel the Everblack Festering Within Me – cuja duração chega a surpreendente marca de 66 minutos – sem medo. Estes elementos estão sim presentes, e em profusão. Mas há muitos outros elementos que unidos formam algo único. Não é a salvação do metal, mas eles estão à frente de 95% dessas bandas modernosas da atualidade.
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Músicas:
- Prison of Flesh
- Oblivion
- In Darkness
- Unbreakable
- Glenwood
- Lionheart
- Death Can Take Me
- War Machine
- A Nameless Hymn
- Forevermore
Foto: Mike Elliott
