Lucifer retorna ao Brasil em 2026 para sua terceira e mais extensa turnê pela América do Sul. Após apresentações em 2022 e 2024, a banda alemã (com base na Suécia) consolida sua presença no país em um momento de transição importante. Em maio de 2025, a fundadora e vocalista Johanna Platow anunciou uma nova configuração para o grupo, que agora conta com as guitarristas Rosalie Cunningham e Coralie Baier, a baixista Claudia González Díaz e o baterista Kevin Kuhn.
O Acesso Music conversou com Johanna sobre a recepção do público latino-americano, a estética visual que define o projeto e os bastidores dessa nova fase da carreira. Confira a entrevista abaixo.
Os ingressos para o show em Curitiba estão disponíveis em https://101tickets.com.br/events/details/Lucifer-em-Curitiba-18.

por Jessica Valentim
Acesso: Johanna, o Lucifer estabeleceu uma relação muito intensa com o Brasil, com visitas em 2022, 2024 e agora retornando para a maior turnê de vocês aqui. Você sente que o público brasileiro entendeu a mensagem da banda de forma única, criando esse chamado constante?
Johanna: Espero que sim! É difícil analisar tudo de fora porque eu acabei de sair de um inverno muito longo de hibernação, onde passei muito tempo sozinha na minha própria bolha. Quando você sai em turnê, é o oposto; de repente, você vê a outra extremidade do bastão e todas as pessoas que se conectam com a música. Às vezes, como artista, fico tão presa nos meus pensamentos que me surpreendo com a conexão real que existe. Sou muito grata por isso.
Acesso: E você sente que o público latino-americano reage de forma diferente em comparação com a Europa ou os EUA?
Johanna: Sim, é diferente pela forma extrovertida e apaixonada como as pessoas agem. Eu amo isso no público latino porque eu sempre “uso meu coração na manga”. Sou muito emocional, então me relaciono melhor com esse temperamento do que com o comportamento reservado alemão, por exemplo. Na Alemanha, às vezes me sinto a pessoa estranha; no público latino, me sinto em casa.
Acesso: O Lucifer sempre pareceu mais do que uma banda, mas uma experiência ritualística. O quanto você é consciente sobre a construção desse “mundo” em torno da música?
Johanna: É uma decisão totalmente consciente. Cada elemento é importante para mim. O plano sempre foi atender a todos os sentidos: sonoramente, visualmente e esteticamente. Como fã, eu amo bandas onde tudo caminha junto — onde as letras, a arte do álbum, o merch e os posters formam uma unidade. Esse sempre foi o meu plano absoluto para o Lucifer.
Acesso: Em 1974, Alice Cooper fez o primeiro grande show internacional no Brasil e gerou um pânico moral por sua imagem. Com a atual ascensão do conservadorismo, você acha que o nome “Lucifer” soa mais provocativo agora do que há dez anos? Você vê a banda como um santuário para a liberdade artística acima do dogma?
Johanna: Eu gostaria que fosse assim. Honestamente, não acho que o Lucifer seja a banda mais rebelde do planeta; existem bandas de Black Metal ou Punk muito mais extremas. Eu cresci no Death e Black Metal, meu irmão era punk, então esse espírito está em mim, mas acho o Lucifer “manso” em comparação. Ainda assim, me surpreende que o nome ainda levante sobrancelhas entre fãs de rock conservadores. Venho de uma família liberal na Alemanha, tenho primos góticos, de heavy metal e até padres, e nunca foi um problema. Quando vou aos EUA ou à América Latina e vejo que alguns cristãos acham o nome “nojento”, eu penso: “Uau, que legal! Posso ter um pouco mais dessa reação?”. Eu adoro isso.
Acesso: Sobre a nova formação, você reuniu músicos incríveis como Rosalie Cunningham, Coralie Baier e Claudia González. De que forma ter mulheres tão criativas e consagradas ao seu lado mudou a química interna e a energia no palco?
Johanna: Eu nunca me diverti tanto nos bastidores e no palco quanto com essas garotas. É a verdade honesta. Por muito tempo, fui a única mulher em turnê. Cresci em uma cena metal onde éramos poucas, e embora isso esteja mudando, é poderoso fazer isso com outras pessoas que compartilham as mesmas experiências biológicas e lutas. Infelizmente, ainda é mais difícil para uma mulher no rock; você precisa se provar mais, enfrenta mais obstáculos e uma cultura muito masculina. Ter amigas que passaram pelos mesmos estigmas traz uma facilidade e uma energia positiva que eu amo.
Acesso: Recentemente, o Brasil tornou a misoginia um crime. Você acha que esse “Third Coming” (terceira vinda) da banda com esse lineup também funciona como uma declaração sobre o poder feminino no rock?
Johanna: Eu gostaria que não precisássemos nem falar sobre isso, que a igualdade fosse natural e que os homens fossem criados para respeitá-las. Eu nunca planejei ter uma “banda de garotas” só para dizer “foda-se” aos homens, isso seria estúpido. Eu amo as pessoas pelo coração e pelo cérebro, independente de gênero. Mas, após alguns choques pessoais na minha vida, como a separação do meu ex-marido, que é mais famoso que eu e as pessoas tendem a tomar partido, decidi que queria apenas boa energia ao meu redor. Essas mulheres são talentosas e eu farei isso agora porque eu posso.
Acesso: E você pensa em gravar um novo álbum com esta formação?
Johanna: Vou manter a cortina fechada por enquanto… tudo o que vai acontecer daqui em diante é ultrassecreto.
Acesso: Após mais de uma década de Lucifer, o que parece mais fácil e o que parece mais difícil hoje?
Johanna: Tudo ficou mais fácil. Estou em bandas desde a adolescência, mas o Lucifer trouxe o profissionalismo de turnês e álbuns regulares. Você aprende muito em dez anos, desde a composição até como dirigir o navio da vida de forma mais elegante. Hoje, sinto que não preciso me provar tanto. No começo, após o fim do The Oath, as pessoas duvidavam se a nova banda seria boa. Agora existe um corpo de trabalho completo.
Acesso: Há algo na vida na estrada que você aproveita mais agora do que no início?
Johanna: Ficou um pouco mais confortável. Não somos uma banda rica, mas agora talvez eu consiga dormir algumas horas a mais entre os shows. Turnês latinas podem ser intensas fisicamente — voar às 4 da manhã para tocar em outro país no dia seguinte —, mas eu amo absorver diferentes culturas, comidas, paisagens exóticas e até visitar cemitérios. Minha alma absorve tudo isso; viajar me faz sentir viva.
Acesso: O que você espera que o público sinta ao sair do show de vocês no Bangers Open Air?
Johanna: Quero que experimentem todos os sentimentos. O rock e o metal trazem uma onda de energia e diversão, mas também quero que sintam o conforto da música. Espero que derramem uma lágrima, abracem um amigo, se divirtam muito e queiram voltar na próxima vez que o Lucifer estiver na cidade.
Assista a entrevista aqui:
LUCIFER NO BRASIL
16.04 – Brasília/DF (Infinu) – Ingressos: https://shotgun.live/pt-br/events/lucifer-em-brasilia
18.04 – Curitiba/PR (Basement) – Ingressos: https://101tickets.com.br/events/details/Lucifer-em-Curitiba-18
19.04 – Florianópolis/SC (Celula Showcase) – Ingressos: https://101tickets.com.br/events/details/Lucifer-em-Florianopolis-19
20.04 – Porto Alegre/RS (Espaço Marin) – Ingressos: https://101tickets.com.br/events/details/Lucifer-em-Porto-Alegre-20
25.04 – São Paulo/SP (Bangers Open Air) – Ingressos: https://www.clubedoingresso.com/evento/bangersopenairbrasil2026
26.04 – Rio de Janeiro/RJ (Experience Music) – Ingressos: https://101tickets.com.br/events/details/Lucifer-no-Rio-de-Janeiro-26
28.04 – Belo Horizonte/MG (Mister Rock) – Ingressos: https://101tickets.com.br/Lucifer-em-Belo-Horizonte-28
29.04 – São Paulo/SP (Hangar 110) – Ingressos: https://101tickets.com.br/events/details/LUCIFER-em-SAO-PAULO-SIDE-SHOW-BANGERS-OPEN-AIR-29
Foto: Chris Shonting
