[Entrevista] Música como mantra: Entrevista com a banda tcheca Cult of Fire sobre vida, morte e espiritualidade

Por Luis Bocatios

Fundado na República Tcheca em 2010, o Cult of Fire estabeleceu uma identidade sonora que une o black metal a temáticas do esoterismo oriental e do hinduísmo. Distante das convenções estéticas do gênero, o grupo foca sua produção em uma atmosfera ritualística, utilizando figurinos complexos e elementos visuais que buscam traduzir conceitos sobre a vida, a morte e a espiritualidade. Com uma discografia que soma cinco álbuns de estúdio, a banda consolidou uma abordagem que prioriza a construção de ambientes meditativos e densos, tendo a música como ferramenta para transmitir uma mensagem.

Chegam ao nosso continente nas próximas semanas, com a turnê Mantras of Peaceful Death over Latin America, sob coordenação da Talent Nation. O roteiro inclui uma única apresentação no Brasil, agendada para o dia 20 de maio de 2026, na Burning House, em São Paulo. Realizado pelas produtoras Caveira Velha e Gerunda Produções, o evento marca o retorno dos tchecos ao país para uma performance que sintetiza sua atual fase criativa. Na conversa a seguir, exploramos os fundamentos por trás de sua música e o que esperar desta nova passagem pela América Latina.

O foco principal do Cult of Fire não é a música, mas sim o hinduísmo, a adoração aos Deuses e Deusas e a meditação. Por que vocês encontraram na música a melhor forma de compartilhar essa mensagem?

Sim, você está certo. É um pouco paradoxal, mas a música no Cult of Fire não é a coisa mais importante. A música é essencialmente um produto de tudo o que eu experimento neste mundo e no reino espiritual, e isso é o que realmente importa. Nunca senti a necessidade de me forçar a compor música. Tudo vem naturalmente e se forma por conta própria, sem que eu tente criar uma canção específica. Apenas gradualmente aprendi, através da música que toma forma dentro de mim como um todo completo, a transmitir essas experiências e percepções aos outros.

A banda foi formada em Praga, onde o hinduísmo não é uma religião tão difundida. Como ele entrou na sua vida?

Hoje em dia, não é difícil encontrar, ler ou se interessar por diferentes religiões e cultos, já que a maioria das pessoas tem acesso à internet. Mas eu não estava procurando ativamente. A Mãe Kali me escolheu e encheu minha vida, e a vida da nossa família, de felicidade. Desde então, eu até ganhei família na Índia, já que minha irmã se casou com um indiano, Harsha, e eles têm dois filhos maravilhosos. Nossas famílias eslovaca e indiana se conectaram dessa forma, e o hinduísmo agora se tornou uma parte completamente natural de nossas vidas.

Das visitas que você fez à Índia, houve alguma experiência particularmente transformadora?

Minha primeira viagem à Índia foi definitivamente transformadora, mas especialmente a visita à antiga cidade de Kashi (Varanasi). No primeiro dia, fui ao campo de cremação de Manikarnika Ghat e conheci um indiano que começou a me fazer várias perguntas. Após uma conversa mais longa, perguntei a ele onde eu poderia encontrar os Aghoris (N. do R.: uma seita ascética hindu radical, devota de Lord Shiva, conhecida por práticas rituais extremas e macabras, incluindo o canibalismo ritual, uso de cinzas de cremação e meditação sobre cadáveres). Ele fez uma pausa e imediatamente percebeu que eu não era um turista comum.

Em Varanasi.

Duas horas depois, eu estava sentado em um barco, atravessando para o outro lado do Ganges até uma tenda onde residia o Guru Aghori Manikandan. A primeira conexão de nossas energias foi incrível. Naquele momento, algo parecido com um exorcismo estava acontecendo, então seus companheiros me disseram para sentar junto ao Dhuni (o fogo sagrado) e esperar. O Dhuni era feito de barro em forma de triângulo. Em cada canto havia tridentes, caveiras, flores e várias oferendas. Acima do fogo pendia o torso de um corpo retirado do Ganges. Fiquei ali sozinho por cerca de meia hora, quase completamente coberto de moscas porque o corpo estava queimando, e em minha mente eu continuava pensando que aquele era o dia mais incrível da minha vida. Então Manikandan chegou, e conversamos por cerca de uma hora. Ao sair, ele me disse que eu poderia voltar sempre que quisesse. E, claro, no dia seguinte eu estava lá novamente [risos].

Khajuraho.

Qual é a sua visão sobre os fãs que gostam da música, mas não se aprofundam na filosofia por trás dela?

A pessoa não precisa entender tudo ou praticar algo específico. A música é uma linguagem universal, um fluxo de energia que cria seu próprio tipo de ondas. Os shows ao vivo intensificam ainda mais essas energias e as colocam em movimento. Depois disso, cabe inteiramente a cada fã como ele vivencia, sente e o que isso provoca nele.

Em nossos concertos, já vi pessoas chorarem, meditarem, dançarem, franzirem a testa, rirem, cantarem mantras ou simplesmente beberem cerveja e parecerem desinteressadas. Tudo isso é completamente válido, e nós apreciamos igualmente.

Ao vivo.

Vocês têm um show marcado em São Paulo em alguns meses. A experiência ao vivo é mais apropriada para transmitir sua mensagem do que um álbum?

O show ao vivo é definitivamente mais intenso porque você pode envolver múltiplos sentidos e se permitir estar totalmente imerso na atmosfera. Sons, aromas e visuais podem transportar você profundamente para o Oriente antigo, onde as fronteiras entre realidade e experiência interior gradualmente se dissolvem.

Ao vivo.

Gostaria também de destacar algo muito especial que acontecerá durante esse concerto. Em sua cidade, prestaremos homenagem ao nosso falecido amigo Leo, do Rio de Janeiro, que faleceu exatamente há um ano nesta época. Para nossos fãs em São Paulo, preparamos algo único: apenas lá, e apenas desta vez, vamos apresentar uma nova música inédita dedicada a ele. Com isso, desejamos honrar sua memória e prestar-lhe nossa sincera homenagem. Ele foi um verdadeiro maníaco do metal, um fanático e um querido amigo nosso. Venham erguer um copo conosco e lembrá-lo durante este show.

SERVIÇO

Data: 20 de maio de 2026
Local: Burning House
Endereço: Avenida Santa Marina, 247 – Água Branca – São Paulo/SP
Horário: 19h

Ingressos:
Lote 2 – Pista – Meia Entrada ou 1kg de alimento: R$ 190,00
Lote 2 – Pista – Inteira: R$ 380,00
Lote 1 – Camarote – Meia Entrada ou 1kg de alimento: R$ 250,00
Lote 1 – Camarote – Inteira: R$ 500,00

Venda: https://101tickets.com.br/events/details/Cult-of-Fire-em-Sao-Paulo-20

Fotos: Acervo pessoal Vladimír Pavelka

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