[Resenha] DVD Roadie Metal Vol. 01

por Clovis Roman

As vezes é necessário frisar o óbvio: para uma cena restrita no quesito alcance, iniciativas como esta da Roadie Metal são essenciais. O Metal é um espaço dentro da música que conta com fãs dedicados e que levam a sério sua opção. Volta e meia ele esbarra no mainstream mas é, por definição, um estilo feito para um grupo selecionado. Então quando uma coletânea dupla em DVD reúne apenas bandas autorais do país todo, a música pesada no Brasil ganha mais força.

O material reúne 32 bandas com clipes em sua maioria bem feitos, de qualidade, que podem e devem acender o cenário brasileiro do Metal e relacionados no que tange a música autoral. Os grandes nomes internacionais, claro, merecem toda nossa atenção,mas o pessoal daqui do Brasil também está fazendo muita coisa boa.

Antes, veja um teaser de todos os clipes:

Vamos então ao relato de todos os materiais compilados neste DVD.

Disco 01
O VoodooPriest é a banda do ex-vocalista do Torture Squad, Vitor Rodrigues, e manda um som na mesma linha, um Thrash/Death simples e feito para ser tocado ao vivo. Não é a toa que o clipe é um compiladão de cenas da banda em cima do palco. O som em questão, “Juggernaut”, é básico e tem até umas partes dançantes no meio. Algumas passagens remete àquela sonoridade caótica do Entombed em seus tempos áureos.

O Tellus Terror é uma banda espetacular. O som dos caras tem voz gritada, tem gutural profundos, ‘pig screams’ de fazer o Devourment ter inveja e até mesmo vocais limpos operísticos. A música em si tem peso, variação, cadência, peso, agressividade e tudo soa grandioso. O clipe é instigante também, com cenas da banda tocando com outras atuadas. Deveria ser o primeiro vídeo do disco.

O curitibano Death Chaos é outro grande destaque do DVD. O EP dos caras ano passado chamou atenção no público e crítica, e o clipe para “House of Madness” é angustiante, tenso e agressivo, assim como sua música. Death Metal feito com conhecimento de causa, e vídeo muito bem dirigido, com cenas muito bem escolhidas e takes certeiros, principalmente nas partes que mostram os músicos em ação.

As outras duas bandas da capital paranaense presentes nesta compilação aparecem na sequência. O Krucipha com seu Thrash moderno e fortemente percussivo, detona com “Reason Lost”, uma de suas melhores músicas. O vídeo é gravado em um cenário fechado, e prioriza a banda tocando. Quem curte bandas como Soulfly e Ektomorf pode ir atrás do trampo dos caras, que recém lançaram seu 2º álbum, Inhuman Nature.

Como um rolo compressor, o fantástico Division Hell participa com “Bleeding Hate”, um clipe bastante ‘metal’: edição insanamente veloz, muitos closes, deixando o cenário em segundo plano e claro: FOGO! Na parte musical não tem erro: o som é Death Metal bruto, com algumas inserções de passagens mais caóticas. O resultado é pura destruição em forma de música agressiva. O disco que a música em questão pertence se chama Bleeding Hate e é essencial para fãs do estilo.

O som mais alternativo, experimental, do Tribal, merece mais de uma audição. O som minimalista não é de fácil assimilação, assim como seus elementos visuais. Primeiro veja o clipe com atenção, depois acompanhe lendo as letras no encarte. Aliás, o encarte do material conta com mini biografia e letras de todas as 32 faixas, mostrando esmero e profissionalismo.

Modernidade, mas agora com bastante agressividade e peso, aparece com o No Trauma, que aposta no Metalcore e no Nu Metal. A letra em português é visceral, bastante crítica. O vídeo foi gravado no Rio de Janeiro, na rua, e sugere as origens e a realidade que eles mesmo gritam contra em suas letras.

O Core Divider traz bastante informação sonora e também tratou de fazer um clipe com uma história, que se relaciona estreitamente com a letra. Como eles mesmos escreveram, o trampo da banda é “pesado, direto e assustador”, indo na linha do Pantera (o finalzinho de “No War” lembra muito o que Dimebag e companhia fariam). O conceito do vídeo é explicado no encarte, e no fim das contas, a banda fala contra a guerra como um todo.

Os cariocas do Monstractor surgem na sequência, com um clipe que é bem simples, que se resume a mostrar os caras tocando. A música, “Immortal Blood”, vinda depois de tanta pancadaria, acaba soando deslocada nessa sequência. Ainda mais que logo depois surge o grande Vorgok com a estupenda “Hunger”, veloz e grosseira, alicerçada por imagens do grupo em estúdio, tocando-a. A letra fala sobre o direito dos povos do terceiro mundo à segurança alimentar. Tema delicado e pertinente. A agressividade da realidade e da pobreza casa com a violência emanada pelo quarteto em “Hunger”.

O Heavenless é um dos melhores grupos que conheci este ano, com o álbum Whocantbenamed. O vídeo mostra cenas grotescas de como a religião pode ser usada para o mal: encenações, pastores ricos nadando em dinheiro e de férias curtindo o sol em barcos caríssimos despertam a cólera, o que se reflete em “Hatred”, pesadíssima, transitando entre o Hardcore e o Death Metal, mas mais inclinado ao Metal, já que as guitarras variam bastante, criando camadas de ódio sonoro junto ao groove. Ótima crítica social.

O Matricidium começa sem dó do espectador, já exibindo uma pessoa com o rosto cheio de sangue e hematomas, o que tem a ver com o nome da música: “The Beating Never Stops”. No decorrer do vídeo, você acompanha todo o desenrolar da treta que levou a vítima a levar uma surra. A música em si também é bem bacana. Tanto que dei uma pausa para olhar no Youtube outros vídeos deles – e achei até uma cover doida de “Eye of the Beholder”, do Metallica.

O Forkill apresenta “Vendetta”, em uma versão ao vivo, gravada no Rio de Janeiro, sua terra natal. O grupo brada por trazer de volta o espírito dos anos 80, época de ouro e surgimento do Thrash Metal, que sagrou bandas como Exodus, Metallica e Slayer. A música tem andamento moderado e serve para umas boas rodinhas de quebração e bateção de cabeça. Não é uma lição de peso, brutalidade e violência mas cumpre seu papel a contento.

O Ninetieth Storm (Nonagésima Tempestade, em português) é outro que aposta no híbrido entre Metal e Hardcore, com vocais gritados, beirando os ‘pig screams’ em algumas entonações. É bastante bruto, tem riffs quebrados e bateria massacrada impiedosamente, como pede o estilo. O clipe mostra a banda tocando com algumas cenas malucas no meio. Bacana!

Chegando perto do fim do disco, temos o ótimo clipe do Usina, banda santista que tem dois EPs em sua discografia. A simpatia é imediata, pois o timbre da guitarra é ótimo e o som é uma pauleira das boas, sendo nas partes rápidas ou mais cadenciadas. O vocalista Rafael ‘Bloodgrinder’ (!) mostra bom gosto ao aparecer com uma camisa do glorioso Napalm Death. Versos singelos como “Facada, muita treta, caixão e vela preta” são poéticos e marcantes.

O Cursed Comment apresenta “Luftwaffe”, que fala sobre a Alemanha nazista. Seu nome é uma referência ao ramo aéreo das forças armadas (Wehrmacht) alemãs durante a 2ª Guerra Mundial. O clipe é ao vivo, portanto nada traz além de imagens do trio em ação – e as vezes o pequeno público pulando e balançando a cabeça – material cru e honesto, portanto. O instrumental é bom, só o vocal que poderia ser mais encorpado.

Disco 2
A segunda rodada dessa verdadeira celebração a música autoral brasileira começa em grande estilo, com o ótimo Elephant Casino, que promete para 2018 um álbum completo. O som, “Believe”, que dá nome ao seu EP, é um Hard Rock que une um tanto de virtuosismo, peso e melodias acessíveis. O clipe mostra uma pessoa sendo manipulada, tentando se livrar dessa dominação. Mas o legal mesmo é cantar a frase “Leave behind what you have learned”, no refrão.

Na mesma linha musical, o SuperSonic Brewer surge com um som semi acústico e um vocalista que soa como um James Hetfield Grunge. Boa referência. “Blood Washed Hands” é uma espécie de balada, mas não é melosa. As imagens que a acompanham são da banda tocando em estúdio, e lá pelo meio aparece uma cobra. Uma bandeira do Iron Maiden e algumas cervejas também surgem como figurantes. O fato deles se denominarem uma banda de Heavy/Thrash e apresentarem uma música como esta, mostra que os caras são bastante talentosos.

O Demons Inside dá uma misturada legal no Metal com o Stoner e surpreende com “Remorse, Infected of Trauma… Remains” – o refrão é animal e a parte rápida lá pelos 3 minutos é empolgante. Pena que o vídeo seja um tanto incômodo, já que fica piscando praticamente o tempo todo; a edição também é muito alucinada.

O Jäilbäit (que mudou o nome para Prison Bait, ainda bem) vem na sequência com “Take it Easy”, um som simples e enérgico, com um vocal que parece o Lemmy (as tremas no nome da banda já sugeriam isto), só que pior. Mas aqui está o melhor clipe de toda a compilação. Nele, a protagonista é exibida vivendo uma rotina urbana, de trabalho, transporte, desrespeito masculino e violência, em detrimento a seus desejos e vontades, no fim, há a redenção, ou ao menos, o alívio para todo esse stress. A música parece ter sido moldada para o vídeo, e não o contrário. Trabalho fantástico.

O Heavy Metal de adoração ao Iron Maiden e à Bruce Dickinson do Apple Sin vem na sequência. A canção homônima ganhou um clipe de baixo custo que ficou bom – lá vem spoiler: o vocalista começa a maçã e morre. A banda só deveria dar uma revisada nós seus textos: há vários erros de grafia, tanto na biografia quanto na própria letra da música no encarte.

Energia e positividade são as intenções da Cervical, que canta em português. O som é um Hardcore com Metal empolgante e a parte lírica também não decepciona. O clipe mostra os caras tocando, de maneira simples e sem firulas – assim com o som dos caras.

O Gallo Azhuu, com “Bruxa”, surpreende com um Metal que parece ter sido gravado nós anos 80, com baixo custo. As melodias das guitarras são impressionantes, coisa de altíssima qualidade. Mas o estilo da canção pedia um vocal mais inteligível, não dá pra entender nada o que é cantado, isto que a letra é em português!

O Exorddium celebra o estilo que mais ama no nome da música presente neste DVD: “Heavy Metal”. O clipe começa bem legal (as primeiras cenas são muito bacanas), mas na parte onde a banda dubla tudo parece muito artificial. Não questiono a simplicidade do vídeo (essa era mesmo a intenção da banda), mas a dublagem, bastante tímida. O som, em compensação, é muito empolgante, e como sua letra é em português, dá para aprender a letra rapidinho para cantar junto.

Deixando as coisas mais amenas, o Magnética aposta no Rock and Roll simples, calcado no Blues. Os vocais são suaves; a letra, simples; os arranjos, descomplicados. É apenas Rock and Roll. O vídeo é simples e não prende muito a atenção, mas “Super Aquecendo” é um dos bons momentos do DVD. No mesmo estilo, mas mais emotivo, o Basttardos apresenta uma música que canta sobre o amor inefável de um pai por seu filho, algo que transcende qualquer percalço que a vida apresente. Dá uma boa aliviada na pancadaria, que vinha dominando até o momento. Ótima composição, de beleza tocante.

O Hellmotz chama a desgraça sonora de volta à cena com riffs pesados e vocal bruto, mas mesmo assim é possível encontrar algumas melodias legais. O som agradará fãs de Pantera e Metallica. O clipe é simples e efetivo, com alguns efeitos e closes certeiros.

“Lugar de políticos de bosta, roubando pra caralho”. Esta é uma das frases da música “Cadáver do Brasil”, um som Thrash Metal da banda mineira Burnkill. Agora que você sabe a temática da letra, saiba que o som é um arregaço de primeira. O vocal é fraco perto do instrumental animal da banda. O vídeo tem um monte de cenas e é bastante longo, tem sete minutos. Algumas partes que mostram o vocal estão fora de sincronia. Mas se você focar no som vai virar fã, ótima banda.

O fantástico Fallen Idol surge então com “The Boy and the Sea”, um Heavy/Doom na linha do Candlemass. O vocalista Rodrigo Sitta (também guitarrista) até tem um timbre que lembra Robert Lowe. A música parece tratar sobre intolerância religiosa e violência, e o clipe mostra diversas imagens do Oriente Médio e situações angustiantes. O álbum Seasons of Grief, de onde veio esta canção, é simplesmente espetacular. Compre agora e ouça todos os dias até o fim de sua miserável existência.

O The Phantoms of the Midnight apresenta “Nightmare”, uma música com instrumental legal, mas com vocais tímidos. A dublagem não ficou boa, e o fundo totalmente branco com imagens mescladas em cima dos músicos também não ajuda muito. O potencial é bom, basta lapidar essa pedra ainda bruta. O Dust Commando chega na sequência com seu Stoner, que lembra um Alice in Chains metalizado. A música, extensa, parece na verdade ser a junção de duas composições distintas. O que é ótimo, a julgar pela qualidade do material. O clipe também tem um ar anos 90, muito bom. Bandaça!

Esta espetacular compilação, um catálogo da boa música pesada feita no Brasil, se encerra com o Razorblade, que parece aquelas bandas de Metal retrô. O clipe parece ter sido filmado com câmeras VHS com a regulagem do PAL-M com defeito. As cores são estranhas e tudo parece ter vindo da década de 1980. O som é um Rock/Metal com vocal suave. Interessante. Mas o vídeo é a melhor coisa que eles mostram: é uma homenagem travestida de sátira (ou vice-versa) ao Metal das antigas. As cenas em que aparecem tocando sentados na privada é impagável.

Que outras edições desse DVD cheguem as mãos dos fãs da música pesada no Brasil. Fantástico!

Conheça mais sobre a Roadie Metal: https://roadie-metal.com