Trilogia Flores Douradas: Canções que brotam da alma

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por Rico Boschi

Preparando a terra
A semente da música foi plantada no quintal de casa. E só precisou de alguns encontros em família embalados pelo acordeom do avô para florescer no fértil coração de Karyme Hass. “Sempre fomos todos muito musicais. E quando nos encontrávamos para um autentico churrasco sulista, meu avô erguia a sanfona nordestina de peito aberto, era uma festa”, recorda.

E quando o talento encontra um solo rico, gerar bons frutos é questão de tempo. Do coral da igreja para os palcos da noite, dos palcos para os primeiros registros autorais reunidos no disco independente “Tempo de Gritar” com produção de Paulo Dáfilin e Nestor Madrid.

A voz suave da curitibana caiu como pétala nos ouvidos das principais gravadoras da época. E, entre EMI, BMG e Warner, a artista escolheu a primeira para trazer à luz, em 2003, seu disco de estreia: Faces e Fases, que contou com a produção de Nilo Romero.

O reconhecimento veio na forma de indicação ao prêmio TIM, na categoria “Revelação”, além de figurar na trilha sonora da novela Prova de Amor (Record), com a canção “Coração Insano”.

A carreira se ramifica e, em 2008, lança no Rio de Janeiro o segundo disco, “Amor Solene”, repetindo a parceria com Romero. O registro traz onze faixas que mesclam canções autorais e em parceria, além de “Simplesmente”, canção inédita de Samuel Rosa (Skank) e uma versão de “Close to You” (Burt Bacharach) em português. E é no Rio – mais precisamente na Pedra do Sal – que a artista se deixa enamorar pelo samba.

“Quando fui com um amigo nesse reduto do samba, foi como se uma lâmpada se acendesse dentro de mim e eu passei a compor mais sambas. Acabei encontrando o estilo de vida e a corrente musical que me completam”, conta.

O contato com esse novo mundo foi tão intenso que a cantora resolveu assumir a identidade pela qual passou a ser conhecida nas rodas de samba. Já com o nome de Branka, buscou o auxílio do produtor, compositor e arranjador Carlinhos sete Cordas para dar forma ao disco Barra da Saia, que teve como convidado ilustre ninguém menos que Zeca Pagodinho.

Todos os orixás parecem ter abençoado a mudança. O disco foi indicado ao Grammy Latino, na categoria “Melhor Engenharia de Gravação”, além de integrar a pré-seleção da categoria Melhor Álbum de Samba no Prêmio da Música Brasileira. Com esse amadurecimento, a terra se fez pronta para se deixar penetrar pela raiz, sustentar o caule e fazer desabrochar as flores.

O samba primaveril
Como é próprio das flores, também as douradas escolhem a primavera para desabrochar por completo. Com cada canção “representando uma rosa amarela” – como explica a cantora – a Trilogia Flores Douradas foi chegando ao público aos poucos, alcançando a completude somente no último 20 de outubro.

A primeira parte, “Raiz”, é composta de canções que reverenciam os pilares do samba. Abre com “Batismo de Fé”, onde através da leveza de instrumentos tradicionais como o pandeiro e a flauta transversal, Branka reafirma sua identidade musical atrelada ao gênero e convida o ouvinte a se deixar levar pela sonoridade.

O disco segue com “Banho de Mar”, faixa que conta com a participação do sambista Arlindo Cruz. A canção é uma aula de partido-alto (misturado com maxixe): letra que versa de forma alegre sobre os dilemas da vida cotidiana, expressos de modo certeiro e “malandro”, que ganham ares de conselho de amigo na voz cativante de Arlindo Cruz. As estrofes são costuradas por um refrão em quarteto que reforça com naturalidade o compasso marcado característico do estilo.

Relembrando a parceria, Branka ressalta que “Arlindo é uma grande presença, um dos maiores nomes do samba e um amigo, consegue transportar essa sensação natural do samba de estar inserida em um ambiente alegre onde as pessoas falam o que vai de fato aos sentimentos”, explica.

Outra canção que merece destaque é “É D’oxun” (Gerônimo), que ganha uma interpretação única de Branka, acompanhada dos arranjos primorosos de Carlinhos sete Cordas”. Os artistas propõem uma introdução ao violão que apresenta ao público um andamento mais suave que a versão original e coloca a voz da intérprete em primeiro plano. O arranjo mais enxuto, longe de descaracterizar a canção, coloca em evidência os assertos melódicos naturais dela.

Essa inclinação natural em imprimir a identidade nas músicas que interpreta pode ser percebida também na versão de “Olho de Graúna”, originalmente composta por Zé Katimba e Roque Ferreira. Presente na parte “O Caule”, o forró ganha em feminilidade e harmonia nas entonações brejeiras escolhidas pela cantora.

“Interpretar a canção ao invés de copiá-la é uma preocupação que existe em mim desde menina. Claro que a primeira regra é respeitar o que foi criado mas também é importante sentir o que o seu coração pode proporcionar para a canção”, reflete.

A terceira parte, “Flores”, é focada na temática dos relacionamentos, dos sentimentos. E foi numa interação de cumplicidade musical que nasceu a canção que melhor sintetiza o conceito desse bloco de canções. Xande de Pilares faz questão de frisar verbalmente essa atmosfera durante “Amor e Luta”, música composta em parceria, onde Branka contribui com a letra e Xande trouxe a melodia.
Embora às voltas com a promoção do disco, Branka confidenciou durante a entrevista envolvimento em dois outros projetos previstos para o próximo ano: um disco de inéditas interpretando canções do compositor Sombrinha (que deve se chamar “Trilha Sonora”, além do disco “Branka canta Clara”, um tributo à Clara Nunes.

Ouça o álbum pelo Deezer no botão abaixo.

 

 

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