[Baú do Clovis] O dia que o Vision Divine tocou para ninguém em Curitiba

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por Clovis Roman

Nestes quase 15 anos fazendo cobertura de shows já me deparei com alguns momentos históricos e bizarros. E com apresentações feitas para públicos ínfimos: a primeira vinda do Rattus à Curitiba deu em torno de 70 pessoas no total, sendo que vários deles não pagaram; o Belphegor em 2006 teve 70 e poucos pagantes. Mas um que é praticamente imbatível no quesito ‘fracasso’ foi a passagem do grupo italiano Vision Divine pela mesma cidade, em 2007. Na época, o grupo que contava com Michele Luppi nos vocais, faria alguns shows no país, mas tudo foi cancelado e sobrou apenas a data na capital paranaense. Mas o público local não soube aproveitar a oportunidade e o Opera 1 recebeu meia dúzia de gatos pingados na noite de 09 de novembro.

Flyer do show

A apresentação foi organizada pela In Concert Tour Agency, e a divulgação foi nula. A empresa, que na verdade era um cara só, convocava algumas pessoas para fazer trabalhos, aproveitando para pegar gente jovem e entusiasmada com o ‘maravilhoso mundo dos shows de Rock’, e também, os mais ‘famosos’ da região. Ser famoso, no caso, era ser frequentador assíduo do Opera1 e ter alguma habilidade específica. Com esta tática, gente como Felipe Sanchez, um aficionado por música que servia de intérprete e o que mais precisasse; e Clovis Roman, jornalista e fotógrafo de shows entraram no hall de ajudantes (sem vínculo) da produtora. Foi Felipe o responsável por agilizar diversas questões relacionadas a apresentação do Vision Divine, como ser o intérprete e providenciar o catering (o rango do camarim). E ele só foi avisado em cima da hora: “Eu nem sabia que ia ajudar nesse show, eles me avisaram dois dias antes“, relembra, adicionando que quando soube que trabalharia no evento, perguntou aos amigos mais próximos quem iria, e todos responderam negativamente.

Os preparativos
Durante a tarde houve bastante trabalho, como lembra Felipe: “Eu fui pro Opera com dois membros da banda, para ver a casa e conferir os equipamentos. Nesta parte não teve nenhum problema. E as 16 horas foi a passagem de som. Aí eles voltaram para o hotel e eu fui para casa. As 19h nos encontramos novamente para jantar“, e complementa: “Deixei meu carro no hotel e pegamos um ônibus para ir jantar na churrascaria Nova Estrela, e depois a gente foi direto pro Opera1 dali“. O caminho que banda e produção tomaram para ir a churrascaria cruzou com o meu em uma rua da região central da cidade. Eu, Clovis, havia acabado de descer do transporte coletivo e estava indo a pé para a casa de shows. A italianada não entendeu nada quando o ônibus parou no meio da rua e abriu a porta para minha entrada. Troquei algumas palavras com eles em italiano, um clima amigável se instaurou e finalmente rumamos todos para o local onde jantamos. Lá os caras ficaram conversando mais entre eles, meio que ressabiados com tudo. Entretanto, eles foram relativamente simpáticos. Ao fim da refeição, reuni a banda na frente da churrascaria e tirei uma foto.

Público seleto no show do Vision Divine (foto: Clovis Roman)

Após a janta, rumamos ao Opera 1, um espaço que poderia acomodar pouco menos de mil pessoas, devidamente enlatadas. Fiquei um tempo sozinho por ali, na pista, com a casa ainda fechada. Regulei a câmera, fumei dois cigarros e logo antes de acender outro, peguei uma cerveja (cortesia da gerência do Opera 1). Assim que abri a lata, o produtor chega com cara de assustado e me conta que as vendas estavam fraquíssimas: a ridícula quantidade de 50 ingressos havia sido vendida até então. Era por volta de 23h e ele me entregou um pacote com 50 ingressos, presos em um elástico, e me disse: “Você que conhece todo mundo, vai por aí e distribui ingressos para todo mundo que você encontrar“. Disposto a ajudar, me arrumei e saí minutos mais tarde. A missão foi um fracasso. Encontrei diversos conhecidos mas simplesmente ninguém aceitou ir ao show. Ninguém. Guardo esses convites comigo até hoje como recordação. No total, foram exatos 57 pagantes.

O show
Uma banda paulista, Papai Noel Em Chamas (?) e a local Miracle foram escaladas para a abertura. Quando chegamos ao Opera1 não havia fila alguma, apenas um ou outro espalhados. Encontramos o pessoal de São Paulo, todos animados com a viagem e tudo o mais. Mas eu achei o nome da banda horrível, me recusei a vê-los, e desci até o Hangar para ver o Dream Theater cover de um amigo que por lá se apresentava. Felipe lembra que os caras queriam ir embora após tocarem, ou seja, não pretendiam ficar para ver o Vision Divine: “Eles queriam vazar, e o produtor pedindo por favor, quase de joelhos, para os caras ficarem. Tinha umas 15 ou 16 pessoas. E o produtor pediu para eles ficarem para dar uma engrossada no público“.

Michelle Luppi e Cristiano Bertocchi (foto: Clovis Roman)

Uma hora mais tarde voltei e o Miracle estava prestes a subir no palco. O grupo, que apostava no Metal Melódico, era de um profissionalismo impressionante. Eram músicos bastante técnicos e tinham composições marcantes. O baterista Mike “Digo” Vieira roubou a cena por tocar com força extrema seu instrumento. Tanto que quebrou uma ou duas baquetas durante o setlist.

Já era mais de 2 horas da madrugada quando o Vision Divine finalmente subiu ao palco. A abertura se deu com “25th Hour”, faixa título do mais recente álbum a época. A banda veio com apenas um guitarrista, o mentor Olaf Thorsen, sendo alegado que o outro guitarrista estava doente. Mentira. A banda, para economizar gastos, deixou Federico Puleri em casa. Todavia, o show funcionou muito bem com apenas cinco músicos. No palco, o vocalista Michele Luppi brincava o tempo todo, cantava magistralmente bem e se portava como se estivesse tocando para um público de 10.000 pessoas. O restante dos caras também mantinha um clima parecido, principalmente Olaf, que esbanjava sorrisos a todos. Músicas como “Colours Of My World”, “Versions Of The Same” e “La Vita Fugge” fizeram a alegria dos (poucos) presentes. Antes de “The Fallen Feather”, Luppi pergunta se alguém sabia cantá-la. Uma menina de São Paulo, que no Orkut atendia pela alcunha de Bruna Gothmoon, acenou positivamente, e acabou em cima do palco cantando ao lado de Luppi; nas partes em que não cantou, ela ficou encarregada de filmar a banda de um lugar privilegiado. Aliás, Luppi filmou várias cenas do show com sua filmadora, equipamento do qual ele não desgrudava. Mesmo no restaurante, horas antes, ele a segurava.

Para o final ficaram duas das melhores composições do “sexteto com 5 músicos”: “Send Me An Angel” e “God Is Dead”. Apesar da apresentação em si ter sido soberba, o encerramento foi um tanto melancólico. A falta de energia do público tornou a apresentação um tanto maçante em determinados momentos. E por falar em ‘falta de energia’, a luz caiu completamente lá pelo meio do show, e apesar da falha ter sido rapidamente solucionada, foi outro fator que contribuiu para o clima morno do show.

Pós-show
A galera de São Paulo, que compreendia a banda Papai Noel em Chamas (nunca houve nome de banda tão ruim) e alguns amigos, era bem agitada e divertida. Depois do show rolou uma bagunça na porta do camarim dos italianos. Os gringos não entenderam muita coisa mas se divertiram bastante. Mas quando saímos da casa de shows e fomos para o hotel, o clima mudou.

Clovis e Luppi (foto: algum amigo desconhecido)

O produtor, além de Felipe, eu e a banda rumamos de ônibus fretado para o Hotel Lizon, que fica próximo a rodoviária da cidade. Assim que chegamos por lá, as coisas complicaram financeiramente, e um calote era iminente. Eu e Felipe, como nada tínhamos a ver com a situação, saímos para fumar  e tomar umas cervejas. A banda já estava pressentindo o pior. E como desgraça nunca vem sozinha, eles encontraram o hotel sem energia elétrica. Como as fechaduras das portas eram acionadas com cartões magnéticos, eles não conseguiam entrar em seus respectivos quartos. Alguns decidiram dormir nos sofás do saguão.

O baterista Alessandro Bissa chegou até mim e pediu um cigarro. Com poucas palavras, dei um a ele, que agradeceu e deu uns passos para o lado, para conversar com um de seus colegas de banda. Um tempo depois fui falar com ele, que estava sozinho naquele instante. Perguntei qual cigarro ele mais gostava e ele me respondeu, desprovido de entusiasmo: “O mais forte possível“. Atravessei a rua e me direcionei a um posto de gasolina que funciona 24 horas. Comprei algumas cervejas e três carteiras de cigarro: uma para mim, de filtro branco, e dois Lucky Strike de filtro vermelho, que são dos mais fortes que existem por aí. Voltei e entreguei este par de carteiras ao baterista, que deixou transparecer em sua expressão facial a gratidão pelo ato. As palavras, entretanto, foram escassas, resumindo-se em um “muito obrigado, muito obrigado“. O gesto teve valor amplificado pelo fato de que nenhum dos músicos tinha um centavo furado para comprar nada.

O produtor estava envolto em um imbróglio complexo. Ele tinha que pagar o hotel, o cachê da banda e o motorista do ônibus. A pouca grana que ele tinha mal dava para pagar uma dessas três pendências. Tendo em vista este momento conflitante, ele tomou a decisão mais madura e acertada possível: foi embora. Sobrou para Felipe ter que negociar com o empresário da banda, que estava em outro país. Para fazer a ligação, ele foi a outro hotel, na esquina, pois o Lizon continuava sem luz alguma.

A negociação foi feita de acordo com o que o produtor prometeu. Felipe foi o intérprete, sobrando para ele explicar ao gringo que logo a grana estaria na conta da banda. Todo seu trabalho, de certa maneira excruciante, não teve retorno financeiro algum, diferente do que lhe foi prometido. Eu, que fotografei, também não ganhei um centavo sequer, a não ser algumas cervejas na casa de shows. Mas estas foram cortesia da casa, e não do produtor. No fim da noite, o hotel foi pago, já que eles disseram que não liberariam os hóspedes se não rolasse o pagamento. O motorista ficou a ver navios, assim como a banda. A grana do cachê nunca foi depositada pelo produtor.

O Vision Divine chegou a voltar ao Brasil anos mais tarde, já com o vocalista original, Fabio Lione, de volta ao cargo. Luppi, por sua vez, tirou a sorte grande ao entrar como tecladista e vocalista (ele não faz apenas voz de apoio, e quem viu shows da banda com ele sabe muito bem) do Whitesnake. O grupo italiano, entretanto, nunca mais voltou a Curitiba, e certamente nunca mais o fará.

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