[Cobertura] Festival BB Seguros em Curitiba mostrou o melhor da música brasileira

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4º Festival BB Seguros
Museu Oscar Niemeyer
Curitiba/PR
26 de maio de 2018

por Clovis Roman e Kenia Cordeiro

O 4º Festival BB Seguros reuniu e uma tarde agradável grandes nomes da música nacional, de maneira gratuita, nos fundos do Museu Oscar Niemeyer. Bacana a preocupação da BB Seguros em apostar na sustentabilidade, ao dar sacolas para que as pessoas nela colocassem seu lixo. Deu resultado, afinal, o ambiente se manteve bastante limpo durante os shows. Como era um evento que começava – e portanto também acabava – cedo, muitas famílias foram unidas, até mesmo com seus pets. Um ambiente amigável estava instaurado.

Musicalmente, a BB Seguros Jazz Band, o Milk N’Blues e O Bando deram início aos trabalhos, para um público ainda escasso e tímido. Vale citar que a BB Seguros Jazz Band voltou em cada um dos intervalos entre as atrações, tocando e andando em meio a platéia mais próxima do palco.

Nuno Mindelis (foto: Clovis Roman)

Nuno Mindelis foi quem tratou de realmente instigar a galera, ao interagir e clamar por uma reciprocidade. Seu show – que pareceu mais curto do que realmente foi – claro, foi guiado pelo Blues, mas teve algo de Rock em seu meio, o que deu dinamismo ao seu repertório. Em seu repertório apareceram algumas canções de outros artistas e também faixas de seu próximo projeto.: um álbum em kimbundu, dialeto de Angola, país onde Mindelis nasceu.

O guitarrista, mostrando que está preocupado não apenas em fazer um show tecnicamente brilhante, mas também em obter uma resposta do lado de lá do palco, clamou por palmas e gritos da platéia, provocando-os, ao dizer que “Está tudo muito litúrgico, vou rezar uma missa aqui”. O resultado foi o desejado e além. A galera curtiu bastante e tudo terminou debaixo da aprovação ruidosa de todos. Deixando boas impressões naqueles que não o conheciam, ele abriu espaço para a seguinte atração.

Pepeu Gomes
O guitarrista Pepeu Gomes fez uma apresentação primordialmente instrumental, sendo baseado em temas por ele registrados nos anos 70, como “Saudação Nagô” e “Alto da Silveira”, vindas ambos de Geração do Som, seu primeiro registro solo após a dissolução definitiva do Novos Baianos, banda que vinha capitaneando. Entre os bons momentos é possível citar “Swing por Natureza”, com a força da guitarra de Pepeu, e “Didilhando”, trocadilho com o nome do baixista, Didi Gomes, apresentado justamente da referida música.

Pepeu Gomes (foto: Clovis Roman)

O irmão de Pepeu, que chegou a integrar o Novos Baianos, se impôs na introdução da canção, que assume contornos do Rock Progressivo em seu decorrer. E sim, a música instrumental “Um Bilhete pra Didi”, do Novos Baianos, é referência ao músico e questão. Músico sólido, o cara foi um destaque a parte. O clima familiar notado na platéia se refletiu no palco, pois o filho de Pepeu Gomes, Filipe Pascual também faz parte da banda. O tio do garoto, Jorginho Gomes, era o baterista.

Na metade do enxuto repertório, Pepeu Gomes sacou uma guitarra baiana e mandou temas como “Toninho Cerezo” e “Belo Horizonte”, dois chorinhos de extrema importância, segundo ele mesmo, inclusive, para a música brasileira. Num dos poucos momentos cantados de seu repertório, Pepeu mandou “Malacaxeta Blues”, uma parceria com Caetano Veloso.

Hermeto Pascoal e seu Mundo Paralelo dos Sons
O público, então, foi convidado, tacitamente, a entrar No Mundo dos Sons de Hermeto Pascoal & Grupo. O som do experiente músico, prestes a completar 82 anos, é de difícil digestão. Afinal, é complexo, pouco ortodoxo, extremamente técnico e um tanto desvairado. Basta pegar uma das primeiras músicas apresentadas, “Para Ron Carter”, para perceber que nada ali é de fácil consumo; “Vinícius Dorin em Búzios” sugere a mesma coisa.

Hermeto Pascoal (foto: Clovis Roman)

Hermeto foge dos padrões e hoje se dá ao direito de fazer o que bem entende, na hora que julga melhor. Ele toca, e de repente dá umas voltas pelo palco, observando sua banda. Ele sai, e logo volta, com sua taça de vinho nas mãos, saudando o público. A galera, passiva, absorve o som que, embora homogêneo, traz como destaque o baixo marcante de Itiberê Zwarg, um monstro das 5 cordas. Entretanto, toda a banda brilha. Seja o saxofonista Jota P, o batera e novato Ajurinã, o pianista André Marques ou o percussionista Fábio Pascoal, filho de Hermeto. A unidade é tanta que durante o show, em meio a um solo, o restante da banda era vista, ao fundo do palco, batendo um papo descontraído, como estivessem em um bar.

A apresentação, inclusive, começou antes mesmo dos músicos subirem ao palco. Eles, assim que saíram do seu camarim, pegaram seus instrumentos e saíram tocando por todo o trajeto até o palco, que incluía uma pequena caminhada e uma escada. Hermeto foi por último, seguindo sua trupe, dançando o ritmo do som. Chegando em seu lugar principal, todos desempenharam suas funções de maneira inquestionável. Hermeto surpreendeu em um momento em específico, onde brincou com a galera dando alguns gritos ao microfone, sem uma lógica aparente. Um show de Hermeto Pascoal é uma experiência quase que transcendental.

Stanley Jordan (foto: Clovis Roman)

Dudu Lima Trio + Stanley Jordan
A apresentação do Dudu Lima Trio começou com temas instrumentais, guiados pelo baixista que empresta seu nome ao grupo. Mas logo após algumas poucas canções, a participação de Stanley Jordan foi anunciada, e então a parceria estava formada. O público assistiu tudo com momentos de plena reverência aos músicos. Os temas suaves, calmos, até mesmo introspectivos, cativavam. A leitura de “Eleanor Rigby”, do Beatles, foi um momento marcante.

Após duas performances bombásticas, barulhentas, o contraponto foi bem vindo e serviu como uma despedida elegante de um evento que – torcemos muito – se torne vitalício na agenda musical de Curitiba. Com a cidade tendo vários duros golpes na cultura nos últimos tempos – sendo o fim da Corrente Cultural a pior delas – é gratificante ver um evento que proporciona à população o acesso gratuito a cultura. Vida longa ao Festival BB Seguros.

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