Marcelo Gonçalves, vocalista do Pavio, pela defesa da liberdade de expressão

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Atuante na cena hardcore, metal e punk há anos, Marcelo Gonçalves, sempre se manteve a frente da música e do tempo, inovando e lutando contra toda forma de censura, cantando denúncias sociais e políticas. Sendo considerado por onde passa, o vocalista e guitarrista, integra hoje uma das bandas de maior expressão da cena hardcore no país, o Pavio. Com posicionamento crítico e mensagem de resistência, o vocalista conquista fãs por onde passa usando o combustível social como uma forma de unir e educar, o público que o assiste.

Conversamos com o vocalista sobre a sua carreira, influências musicais, importância do hardcore na sociedade e outras curiosidades. Confira!

Você e os integrantes do Pavio apresentam uma dinâmica incrível no palco. Como que funciona a parceria de vocês como músico e amigos dentro do projeto?
É bem isso mesmo, antes de mais nada somos amigos e nada melhor que fazer o que ama e ao mesmo tempo se divertir com aqueles que você preza, respeita e tem orgulho de trilhar o caminho juntos. No Pavio somos assim, cada show é um divertimento diferente, cada música nos toca de uma forma e a química entre nós é perfeita, nos entendemos pelo olhar. O tempo que tivemos compondo e ensaiando nos trouxe muito entrosamento como músicos. A consideração e amizade entre nós facilita muito tudo que expressamos ao vivo e é certo que deixamos toda energia que temos no palco.

Dentro do cenário do hardcore/metal brasileiro, você costuma acompanhar bandas com trabalho autoral? E sobre as estrangeiras, alguma atual que tenha lhe chamado a atenção?
Sim sim hoje posso dizer que me interesso mais por bandas autorais brasileiras que as estrangeiras. Temos bandas de muita qualidade por aqui e estou sempre antenado no que surge,até porque o intercâmbio entre nós é inevitável. Acho fundamental o contato com bandas que estão no mesmo corre que nós,sou fã de algumas e me orgulho de ter amigos tão talentosos fazendo trabalhos de muita qualidade. Das estrangeiras a que realmente não sai do play é Lionheart. Os caras estão cada vez maiores lá fora sempre apresentando coisas novas.

Que dica você daria a músicos brasileiros da cena hardcore/metal, amadores ou profissionais, que tem medo de experimentar e inventar coisas novas em suas músicas?
Acho que vale pra qualquer um que queira compor sua música : faça aquilo que vem do seu coração, faça aquilo que der vontade. Influência todos nós temos mas acho importante não tentar se parecer com qualquer outra banda. Isso pode ser o diferencial pra que se consiga algum destaque em meio a tantos artistas excelentes. Na história conhecemos bandas que identificamos qual é pelo seu estilo único, e acho que o diferencial está aí, fazer algo que ainda não se experimentou, algo que te reconheçam pela sonoridade, pelos seus elementos. Quer um exemplo? Machete Bomb de Curitiba. Por tanto façam aquilo que der na cabeça, confiem no seu talento, no seu feeling sem tentar se parecer com alguém.

Quais são as suas maiores influências musicais? Pra você qual é o maior frontman de todos os tempos?
Logicamente já ouvi muito as bandas clássicas como AC/DC, Black sabbath, Metallica,etc.
O punk rock fez parte da minha vida por algum tempo mas o Hardcore New York especificamente é o que mais me interessa e me influencia.Isso mais especificamente quando ouvi pela primeira vez “Urban discipline” do Biohazard. Aquele disco definiu meu gosto pelo hardcore daquela região e sempre procuro pelas bandas do estilo. Sem dúvida o hardcore New York é minha influência e hoje algumas bandas de metal/hardcore também chamam minha atenção como Hatebreed, Lionheart, Lamb of God. Sobre o maior frontman é relativo porque conheço alguns muito bons mas o que mais admiro é Freddy Cricien do Madball, que é a banda que mais gosto. Tive oportunidade de conhece-lo quando abri o show deles ainda com minha antiga banda P.R.O.L. e me tornei mais fã dele ainda pela simplicidade, humildade e ideais que possui. Ah preciso citar que pra mim o maior frontman daqui chama-se Pascoal Mello da banda Cervical, recomendo.

Como que você compõem em cima da sua linha vocal? Como se da seu processo criativo?
No Pavio. as composições se iniciam geralmente com uns riffs matadores de guitarra,que o que nós não abrimos mão. Depois de colarmos um riff no outro e estabelecermos as levadas é que penso na letra e em como vou cantar em cima daquilo. É um processo que me facilita,ter a parte instrumental e depois pensar na linha vocal. Eventualmente fazemos alguma adaptação para melhor encaixe mas normalmente a parte vocal é a última a ser composta.

Como a música surgiu em sua vida?
Por pura paixão mesmo. Em minha família não tem nenhum músico que pudesse me incentivar. Penso que toda engrenagem que envolve estar no palco tocando a própria música é o que mais me estimula.Comecei com aulas de violão e logo comprei uma guitarra pra fazer mais barulho e inventar uns riffs loucos. Minha primeira banda em 1995 chamava -se Lei do Cão na mesma época e região que surgiram Uzômi e Noção de nada e a partir daí nunca mais deixei de tocar. Passei a dar meus berros na falta de um vocalista que nos representasse. Desde então troquei as 6 cordas pelo vocal embora ainda faça parte do Força & honra banda que toco guitarra.

Qual a importância que o hardcore cumpre na sociedade? e qual importância esse estilo musical tem em sua trajetória?
Penso que o hardcore tem um grande poder na sociedade de informar e assim como outros estilos também contestadores como o rap,ainda sofre preconceito e falta de aceitação.É um estilo de música ainda subjugado onde quem não se interessa e ainda assim fala sem saber,considera que não temos nada de importante pra informar ou para nos posicionarmos.Ainda hoje é considerado apenas música barulhenta,sem conteúdo. Acho que falta a algumas pessoas se darem a oportunidade de conhecer o ideal do hardcore. Quem vive verdadeiramente o hardcore sabe que seria importantíssimo que a sociedade em geral tomasse alguns exemplos principalmente com relação ao respeito ao próximo e a humanidade, coisa que anda tanto em falta nos dias atuais. Posso dizer que o hardcore fez parte da minha educação,da minha índole como homem. As amizades verdadeiras que construí,o respeito a qualquer um que passe pela minha vida.Posso dizer que fez parte do meu amadurecimento como pessoa e como músico na passagem entre adolescência e idade adulta.O entendimento sobre as diversas fases políticas que passamos muitas vezes foi o hardcore quem me trouxe. Isso tudo também me identificou como o estilo que eu queria abraçar. Poder passar através do microfone tudo aquilo que temos como ideal e tudo aquilo que não queremos enquanto sociedade é uma oportunidade preciosa de fazer a diferença e o hardcore proporciona tudo isso.

Tem algum show na história do Pavio. que você ache que foi o melhor show? Algum em especial que sempre lembrará?
Sem duvida nenhuma foi o show que fizemos no Garage Sounds 2019. Estrutura perfeita e público a mil. Tivemos uma aceitação monstruosa e o retorno foi sempre positivo. Foi um show muito intenso, adrenalina mais alta possível porque além de estarmos diante do nosso maior público, tínhamos um setlist contado no relógio, por causa do tempo. Então tudo tinha que sair perfeito, sem erro nem problema técnico nenhum. Foi maravilhoso, deixamos toda energia no palco e foi sem dúvida nosso melhor show. Tocamos com bandas como Krisiun, Surra, Gloria, entre outras e tivemos a oportunidade de conhecer outras tantas bandas que estão na mesma batalha que nós.

Confira o último lançamento do Pavio, o EP “O Jogo Vai Virar“.

Foto: Thayná Gomes Fotografia

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