[Baú do Clovis] Há 18 anos, o Saxon dava uma aula de Heavy Metal pela primeira vez em Curitiba

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O dia 16 de maio é lembrado tristemente pelos amantes de Heavy Metal, afinal, em 2010 o grande cantor Ronnie James Dio faleceu, exatamente um ano após seu último show no Brasil, país que tanto visito durante sua carreira. Mas o mesmo 16 de maio pode ser lembrado com carinho, ao menos pelos headbangers de Curitiba. Afinal, nessa data, porém em 2002, o quinteto britânico Saxon aportou pela primeira vez na capital paranaense. Justamente na semana que esse show completaria 18 anos, encontrei meus manuscritos daquela noite, que ficaram perdidos esse tempo todo. Então confeccionei uma resenha detalhada baseada nessas observações de um fã de Heavy Metal de 17 anos.

por Clovis Roman

O Saxon veio pela primeira vez ao Brasil em 1997, tocando em Santos e também no Palace, em São Paulo, em show que recebeu resenhas inflamadas da imprensa especializada da época (leia-se Rock Brigade). No ano seguinte teve repeteco no Monsters of Rock. Ambas foram dentro da turnê do furioso Unleash the Beast. A tour do Metalhead (1999) nem passou perto do nosso continente, mas esse erro foi corrigido com Killing Ground (2001), que trouxe a banda ao país para algumas datas marcadas por públicos moderados em quantidade, exceto, obviamente, em São Paulo. Vale frisar que o show do Rio de Janeiro, previamente anunciado, não aconteceu. Mesmo com disco novo debaixo dos braços, o grupo focou mesmo no seu repertório clássico, o que escreveu o nome do grupo na lista de shows mais memoráveis que a capital paranaense já recebeu.

O cartaz da turnê no Brasil, ainda com a data carioca. (acervo pessoal)

O show do Saxon em Curitiba aconteceu na noite/madrugada de 16 de maio de 2002, uma quinta-feira de clima agradável, nas dependências do Moinho São Roque, tradicional casa de show da cidade naquela época. A fila não estava tão grande quanto em outros eventos que vi no local. O público estimado foi de 500 pessoas, uma quantidade tímida para uma das bandas mais sólidas do Heavy Metal mundial. Por volta das 22h a galera começou a entrar, e logo depois a Dominus Praelii iniciou os trabalhos com um show bacana, mas que pegou a galera ainda meio dispersa, procurando um bom local para ficar ou comprar uma cerveja. . A banda não estava escalada para se apresentar essa noite. Eles tocariam no Rio de Janeiro apenas, mas como essa data acabou sendo cancelada, acabaram sendo encaixados no show na capital paranaense.

Na lateral esquerda da pista havia tapumes fechando uma parte do ambiente, possivelmente para espremer um pouco mais o público e dar uma impressão visual de estar mais cheio do que de fato estava. Ao lado dessas divisórias, algumas cadeiras compunham o ambiente. Me instalei por ali mesmo para ver a Hellish War, que fez um show indubitavelmente Metal. Afinal, três em um repertório de sete músicas tinham o termo em seus títulos: “We Are Living for the Metal”, “Memories of a Metal” e “Defender of Metal”, essa última faixa-título do até então único álbum do grupo. Somando a isso uma postura e vestimenta condizentes, com braceletes e muito couro, e uma cover muito efetiva de “Victim of Fate”, do Helloween, o show foi muito convincente.

Banner de divulgação dos shows, utilizado na época.

Enfim, era chegada a hora da grande atração da noite. A trinca inicial do show do Saxon foi pura maldade. A primeira foi a canção que nomeia o disco da turnê, Killing Ground, com sua intro pesada e um breve solo antes das linhas vocais de Biff Byford tomarem as rédeas. Na excitação momentânea, a galera cantou junto, mesmo sem saber direito a letra. A clássica “747 Strangers in the Night”, com sua letra que narra uma situação complicada durante um voo, manteve os ânimos em alta. O público, reduzido, era bastante barulhento. A banda interagiu com essa energia dos fãs e os brindou com uma interpretação brilhante da colossal “In the Court of the Crimson King”. A composição é do gigante do Rock Progressivo King Crimson, que os headbangers britânicos haviam regravado em Killing Ground (2001).

Biff Byford saúda o público curitibano. (foto: autor desconhecido)

Me retirei do meio da galera, para ter uma melhor visualização do palco, e retornei às cadeiras laterais. Dali vi o quinteto invocar o grandioso Dogs of War, com a música de mesmo nome. Pesadíssima, foi um dos momentos mais viscerais de todo o setlist. Clássicos vieram aos montes, como “Backs on the Wall”, “Broken Heroes” e “Strong Arm of the Law”, mescladas com algumas coisas mais recentes, como a fabulosa “Conquistador” (Metalhead, 99) e “Dragon’s Lair”, outra do mais recente disco. Ela apareceu na metade do repertório, e foi a última das novidades; depois, praticamente só velharia, como “Heavy Metal Thunder”, esmagada dentro da supracitada “Conquistador”, que também englobou um solo de bateria inacreditável de Fritz Randow. O batera chegou a usar três baquetas simultaneamente, ao jogar uma delas para cima e usar as outras duas. Quando aquela primeira caia em suas mãos, outra já estava indo para cima. Um verdadeiro rodízio de baquetas. Solos de bateria são, em 99% dos casos, um tremendo porre. Apenas esse solo e os de Ian Paice (Deep Purple) deveriam ser permitidos em shows ao vivo.

Fritz Randow, o cara que faz solos de bateria legais. (foto: autor desconhecido)

A viagem aos anos 80 que a banda proporcionou na segunda metade do repertório começou com “The Eagle Has Landed”, e tomou rumo a partir de “Power and the Glory”. O veterano Paul Quinn puxou o riff inicial, mas foi logo interrompido pelo carismático vocalista Peter ‘Biff’ Byford. A galera chiou, claro, tudo em um clima amigável. A firula rolou um par de vezes e então finalmente o guitarrista introduziu a faixa título de um dos melhores álbuns do grupo. Do disco anterior, Denim and Leather, veio tanto a canção que o nomeia quanto “Princess of the Night”, que levou alguns marmanjos às lágrimas. Ver o Saxon em Curitiba era algo inédito, e a maioria esmagadora dos presentes nunca os tinham visto ao vivo anteriormente.

Doug Scarratt, guitarrista do Saxon. (foto: autor desconhecido)

Em “Denim and Leather” a performance de Biff impressionou pelo vigor. Se em “Motorcycle Man” ele segurou um pouco, comparando-se, por exemplo, com a versão apresentada no Monsters of Rock 1998, nessa outra o cara entregou 100%. A épica “Crusader” estava prevista mais para o fim, porém devido aos insistentes pedidos, a banda resolveu antecipá-la, como Biff fez questão de frisar antes de a tocarem. A galera dançou, cantou e balançou os cabelos sem medo de ser feliz. Foi possivelmente a canção que mais agitou os presentes.

A visão que a galera tinha do palco. (foto: Dane Souza)

Com sua postura despojada, Biff transborda sinceridade em sua performance e na alegria que demonstrava durante todo o set. Entre sorrisos e acenos, ele avistou duas placas erguidas no meio da galera: em uma delas estava escrito “Wheels of Steel” e na outra, “20.000 Ft”. O vocalista jogou pra galera, mostrando cada uma das placas e pedindo para que escolhessem qual gostariam de ver. A primeira ganhou com folga. Com isso, Biff olha para o lado, na direção de Doug Scarratt, acenando positivamente. O guitarrista puxa o riff inicial e mais um momento catártico estava decretado. Com esse forte tom apoteótico, os cinco músicos de despedem dos curitibanos. Esses, entretanto, não estavam dispostos a deixá-los irem embora tão cedo. “Motorcycle Man” foi pedida de maneira tão contundente que os britânicos logo retornaram para tocá-la. Mais uma breve saída, e ainda deu tempo de mandarem a concisa “20.000 Ft”, preterida anteriormente pela galera.

E a visão de quem estava em cima do palco (foto: autor desconhecido)

As luzes se acenderam, sugerindo o final definitivo de um show monstruoso. O pessoal foi saindo lentamente, ainda em leve estado de torpor pela verdadeira aula de Metal proporcionada pelo Saxon. Quem resolveu ficar mais um pouco dentro da casa, ainda conseguiu um autógrafo de Scarrat, que voltou ao palco para pegar algumas coisas e claro, atender os fãs.
Na noite seguinte, em São Paulo, o Saxon tocou absurdas 25 músicas. Em Curitiba foram bem mais econômicos: 18. A presença tímida do público – apesar de ruidoso e empolgado – certamente influenciou nisso. A banda só retornaria mais uma vez à cidade, em 2011. E novamente o público rondou a marca de 500 pessoas.

E por fim, o ingresso desse show tão bonito. (acervo pessoal)

Repertório
Killing Ground
747 (Strangers in the Night)
The Court of the Crimson King
Dogs of War
Backs to the Wall
Broken Heroes
Strong Arm of the Law
Dragon’s Lair
The Eagle Has Landed
Conquistador + Drum Solo
Heavy Metal Thunder
Power and the Glory
Princess of the Night
Denim and Leather
Crusader
Wheels of Steel
Motorcycle Man
20.000 Ft

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