[Resenha] Circus Satanae: Insanidade musical extrema e erudita

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Circus Satanea – Nuclear Moments…

Material gentilmente cedido por Terceiro Mundo Chaos Discos

Por Clovis Roman

Antes que eu teça quaisquer comentários sobre Nuclear Moments…, álbum do Circus Satanae: Ouça!

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Estou acostumado com projetos avant-garde, daqueles que conversam com o grindcore e o noise, mas que acabam ultrapassando estas barreiras para chegar em um terreno ainda desconhecido ou pouco difundido. O Circus Satanae é um destes projetos. A banda arquitetada por Lord Ciabaatator (que entre outras, tocou no lendário Life is a Lie) apresenta neste disco uma música insana porém coesa, original porém cativante, desvairada porém ganchuda. Afinal, por mais doideira que seja, há diversos momentos que você memoriza de imediato e numa segunda audição, já “cantarola” junto.

A criação de tal projeto é explicada por seu mentor: “A banda iniciou em 2004, com uma proposta bem ousada em comparação as bandas nacionais de som extremo, trazendo elementos de outros estilos musicais inusitados. Lançamos uma demo e um EP em 2006 e durou até 2007, quando o baterista mudou-se para outro país. Retomei o projeto em 2018 graças as facilidades tecnológicas, isso propiciou gravar o álbum 100% sozinho. Mas, inicialmente, não era a ideia ser uma one-man-band”.

As letras são críticas sociais pesadas e de cunho ideológico. “Quando retomei a Circus Satanae, achei extremamente necessário externar posições politicas e ideológicas. Acho pertinente tornar essa discussão algo natural, já que o apolítico é um prato cheio para a extrema direita. Críticas sociais sempre serão dos principais temas dentro dos estilos mais extremos”, adiciona.

O álbum

Desde sempre a crítica musical gosta de forjar rótulos para encaixar os grupos musicais. Então vou cravar o Circus Satanae como Grindcore Erudito. Há como pescar referências da música erudita no trabalho do Circus Satanae, mas isto fica explícito em “In the Hall of the Mountain King”, movimento final da mais maravilhosa peça clássica de todos os tempos, “Peer Gynt Suite 1 Op. 46”, de Grieg. Ciabaatator explica: “Foi bem fácil escolher essa obra, já que ela sempre foi uma referência para direcionar o som da Circus. Foi desafiador transcrever uma obra clássica para guitarras, mas não de uma maneira convencional, como existem varias versões heavy metal. Refiz quase todos os instrumentos da versão orquestrada em camadas de guitarras e baixo. Foi bem complicado, principalmente a mixagem”.

Outro exemplo da erudição musical do projeto é “Astrologer From Virgínia”. Afinal, a canção soa como se Hermeto Pascoal caísse de cabeça no noise/grind. “Hermeto é um mestre da música. Acredito que a principal influencia é a liberdade em criar sons a partir de qualquer coisa ou mistura de qualquer sonoridade. É muito divertido o processo de criação, por não existir uma preocupação em estar dentro de determinado estilo ou estética”, afirma Ciabataator sobre a faixa e o processo de criação do Circus Satanae. Liricamente, “Astrologer from Virgina” fala do Olavo de Carvalho e de suas “teorias tiradas do cu” (uso este termo como uma licença poética, inspirado na frase ‘theories  with anal fixation’). O músico complementa: “Olavo de Carvalho é um símbolo do Brasil reacionário, um picareta oportunista e preguiçoso, com suas teorias rasas e negacionistas. Seus seguidores encontram nele o reflexo de si mesmos”.

O clima meio circense de “Rich Man, Steal Me!” sonoriza uma letra sobre a perda de direitos trabalhistas e a exploração da mão de obra do pobre, como por exemplo, para apps de entregas de alimentos ou de transporte. Um problema para o qual não se enxerga uma solução a curto prazo. O ideal seria “Guilhotinar toda a elite econômica e intelectual, inclusive a esquerda Chico Buarque. Implantar o Comunismo e tornar o Satanismo a única religião vigente!  Mas, infelizmente, não existe saída a curto prazo, somente com muito trabalho educacional de base social, com foco na consciência de classe, visando mudanças na politica econômica estrutural do pais, o que é muito diferente de apenas criar bolsas e auxílios, que nada mais são que uma medida neoliberal, para manter anestesiada e mansa a população”.

Propaganda da Terceiro Mundo Chaos Discos

O álbum conta como abertura com a faixa “Flat Earth”, ultra veloz e insana, o que se relaciona com a letra, que como indica o título, fala sobre a doentia teoria da terra plana: “Ela precisava soar megalomaníaca de alguma forma. A teoria da terra plana é divertida e trágica, demonstra um aspecto humano intrínseco da negação”. A letra fala “bordas recheadas com neve, como uma pizza”. Em entrevista feita para esta matéria, Lord Ciabaatator complementa, em tom jocoso: “Pizza de cloroquina com ivermectina”.

Por sua vez, “Brazilian Rightist” flerta de leve com o death metal, mas também traz intervenções curiosas e vocais “espremidos”, e fala sobre a falsa classe média tupiniquim – que na verdade é pobre – e defende o direito (e lucro) dos ricos. A extrema direita e religiosa é perigosa, mas são apedeutas. O problema são os que vendem a ideia do apolítico ou a falsa esquerda elitista que ergue apenas bandeiras identitárias, mas que economicamente e ideologicamente defendem a manutenção do liberalismo econômico. O Brasil é um país escravocrata, atrasado”.

“Green-Yellow Meat” é outra que se aproxima do death metal brutal, sendo a mais convencional do disco, o que não quer dizer que ela não tenha momentos mais insanos, como um clima mais circense em seu último minuto de duração. Com partes que lembram algo do System of a Down curtindo uma pira após consumo de entorpecentes, “Radioactive Weed Mutant” é outra faixa curta, ficando na faixa dos 90 segundos de duração. “Banker’s Guillotine” tem uma vibe mais hardcore, apesar de também trazer esta mescla de extremo com progressivo característica. Dá para cantar junto tranquilo.

Outra que transborda prog é “Lord Rothschild”, mais no sentido do rock progressivo mesmo. “Sou muito fã de rock progressivo, mas nunca quis tocar esse estilo no sentido mais purista. Criar essas atmosferas progressivas com certeza é influenciado por bandas como Atheist, Cynic e Pestilence, que fizeram isso há décadas”.

A doentia “Pink Flamingo” é tão maluca quando o filme homônimo, uma perturbadora e lendária obra de baixo orçamento parida pelo insano John Waters. Apesar do título emanar o longa-metragem, a faixa é instrumental: “Cheguei a cogitar vocais, mas o motivo pra declinar foi ela ser mais interessante de se apreciar por seu instrumental. As letras facilmente se encaixaria no contexto do álbum, já que o filme trata-se de uma competição, sobre quais as pessoas mais sórdidas e repugnantes de todo o mundo”.

A última música, “Nuclear Disaster”, é a mais convencional do CD, uma espécie de rock metalizado com partes metal e vocais esganiçados. “É um som mais direto, as letras também. Como ela é a mais comum e menos excêntrica, ficou por ultimo.

Como sempre pergunto aos meus entrevistados, questionei Lord Ciabaatator sobre qual banda ele acha que faria uma cover bacana de alguma das músicas do Circus Satanae. A resposta não chega a surpreender: “Nunca pensei nisso, mas eu acho que ficaria foda transcrever ‘Flat Earth’ para uma peça erudita, violinos e tudo mais! Aí já é sonhar BEM alto”.

O resumo da ópera [noise]: O som do Circus Satanae é perturbadoramente agradável, memorável e demente. Eu afirmo com total segurança e tranquilidade: Nuclear Moments… integra o Top 3 de melhores álbuns de 2021, ao lado do homônimo disco do Helloween e de Aggression Continuum, do magnânimo Fear Factory. As demais bandas do planeta que lutem para alterar este ranking.

Compre o disco: http://www.tmcdiscos.com.br/p-6487692-(TMCD130)-CIRCUS-SATANAE—NUCLEAR-MOMENTS…

Ouça:
https://open.spotify.com/album/49FyH1Ij28xqot05E4SZ6y
https://www.deezer.com/br/album/166892482
https://music.apple.com/br/album/nuclear-moments/1526709349

Conheça mais:
https://circussatanae.bandcamp.com
https://www.instagram.com/circussatanae
https://www.facebook.com/circussatanae

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