[Cobertura] Electric Mob: jogando em casa e provando que o rock está mais vivo do que nunca

Electric Mob
Jokers
Curitiba/PR
28 de maio de 2022

Texto: Gustavo Abiner
Fotos: 
Mari Ribeiro

Na madrugada do último sábado (28/05), o palco do Jokers ficou pequeno para os curitibanos do Electric Mob, que nos deixaram, com o perdão do trocadilho, absolutamente eletrizados. Com uma apresentação que juntou uma banda com qualidade digna de públicos de quatro ou cinco dígitos ao charme e familiaridade dos de três, além da excelente abertura dos conterrâneos da Landfall, não deixaram pedra sobre pedra e impressionaram até mesmo aqueles que já sabiam o que esperar com seu som poderoso e inovador. Comandado pelo frontman Renan Zonta, o quarteto mostrou a que veio e nos deu uma lista enorme de motivos para acreditarmos (e recordarmos) o quão forte pode ser a cena independente da capital do Paraná.

Voltando aos poucos (mas com tudo)

Como sabemos, o retorno dos shows, maiores ou menores, tem sido gradual. Se para as grandes estrelas tem sido fácil encher estádios e esgotar ingressos, o público vem se mostrando um pouco menos empolgado em relação aos artistas de menor renome. Nesse sentido, a casa custou um pouco a encher, e mesmo com o atraso (não sei se proposital), o palco parecia apenas metade cheio para a apresentação da banda de abertura. Contudo, sejamos justos, tratou-se de uma plateia bastante animada e participativa.

Para a Landfall, esse retorno era ainda mais especial. Antes conhecida como Wild Child (e posteriormente W.I.L.D.), a banda passou por uma reformulação, tendo mudado de nome, identidade e vocalista, podendo assim, enfim, se reencontrar com o público. Talvez por isso, por estarem há tanto tempo longe dos palcos, a primeira impressão que passaram, ao abrirem com “Rush Hour”, antecedida pela música tema de “Missão Impossível” vinda do som mecânico, foi de uma leve ansiedade. Porém, não tardou para que os vocais intensos de Gui Oliver se encaixassem ao intrincado instrumental e tudo fluísse com naturalidade.

A transição para a segunda música, a forte “No Way Out”, foi interessantíssima e a canção já contou com boa participação do público no refrão, cuja letra replica o título. Daí em diante, tudo foi muito bom, com um equilíbrio quase perfeito entre a guitarra multifacetada de Marcelo Gelbcke e a cozinha veloz e recheada de Felipe Souzza (bateria) e Thiago Forbeci (baixo). Foi, de fato, uma ótima mistura (fazendo jus à forma como a própria banda se descreve) de um hard rock um pouco mais clássico com rock melódico cheio de efeitos e temperos, com alguns pontos altos sobre os quais falarei adiante.

Poderiam, é claro, ser feitas críticas muito pontuais a alguns aspectos da apresentação. Contudo, elas se tornam ainda mais ínfimas quando se leva em conta que esse foi o primeiríssimo show da banda, o qual nos deu ótima esperança e deixou a todos ansiosos pelo álbum que está por vir. Os músicos foram se soltando ao longo da apresentação, e fizeram seu trabalho com inegável paixão e carinho pela arte. Os integrantes, aliás, são todos muito talentosos, e dentre eles destaco, em especial, o guitarrista Marcelo Gelbcke, quase um veterano da cena, que fez um pouco de tudo em sua Strato e roubou a cena, sendo o membro mais aplaudido ao ter o nome chamado pelo vocalista.

Landfall:
Rush Hour
No Way Out
Jane’s Carousel
Two Strangers 
Across the Street
Taxi Driver
Waterfall
Roundabout
Road of Dreams
Elevate
Sound of the City

Para alegria dos muitos fãs que chegaram após o show da Landfall, com camisetas e adereços do Electric Mob, o quarteto já chegou quebrando tudo com “Black Tide”, que abre o primeiro EP da banda, de 2017, chamado Leave a Scar, estendendo o breakdown do início e variando com primazia entre os momentos calmos e acelerados da canção. Já nos primeiros minutos, foi possível notar a vontade, o sangue nos olhos que carregavam e carregariam pelo resto da noite, tocando com a alma e aparentemente extremamente gratos pela turnê que estavam ali concluindo.

Durante muitos momentos da apresentação, tocaram no assunto da pandemia, sem se alongar muito, mas deixando claro que estavam muito felizes em poderem estar de volta e que, nas palavras do vocalista Renan Zonta, “não tem como, jogar em casa é diferente”. Assim, levaram, do início ao fim, os muitos fãs que ali estavam só para vê-los ao delírio, agradecendo e interagindo o tempo todo, e contando com o coro em praticamente todas as músicas, sem contar nas ovações em qualquer momento em que havia oportunidade para tal. Uma performance praticamente irretocável.

 Intensidade, sensações e novidades

Seja como for, tanto a Landfall quanto o Electric Mob nos entregaram apresentações absolutamente intensas, ainda que em sentidos diferentes da palavra. Ambas, é claro, foram capazes de entoar refrãos marcantes em quase todas as músicas, mas cada uma em seu estilo. A Landfall, em geral, o fez de forma mais tranquila, quase introspectiva, enquanto o Electric Mob a sua maneira mais voraz e quase visceral, às vezes. Contudo, de modo algum se limitaram a isso.

Num dado momento, Renan, jocoso como sempre, brincou com a plateia falando que sua banda gosta de juntar tudo: “Um pouco de drogas, um pouco de salada, um pouco de grito e um pouco de groove”, e eu mesmo não poderia dizê-lo melhor que o vocalista. Se na maioria das canções trouxeram os já mencionados refrãos intensos e bons para gritar junto, como na explosiva “Higher Than your Heels” e na queridinha do público “Devil You Know”, em alguns momentos provaram ter muitas outras qualidades musicais. Na belíssima “Your Ghost”, por exemplo, o frontman, pela primeira vez no show, lançou mão de seu violão e trouxe ao palco uma emoção diferente, causando arrepios com o belo dedilhado acompanhado de seus assobios, nos outorgando mais um de tantos momentos memoráveis.

 A anedota sobre “drogas e salada”, na verdade, define de maneira bastante interessante (metaforicamente, é claro), o que foram ambos os shows. As duas bandas, em quantidades diferentes, nos proporcionaram as mais variadas emoções. De um lado o Landfall, como já disse, de forma calma e profunda, mas não sem trazer aquela pegada mais clássica, como na já mencionada “No Way Out” e na animada “Roundabout”. Do outro, o Electric Mob com suas baladas cheias de riffs, viradas e performances vocais incríveis, mas também entregando um som mais veloz e pesado, como no encore “Upside Down” e, por outro lado, momentos mais introspectivos em “Your Ghost” e “4 Letters”.

Por falar em “4 Letters”, imagino que esse nome soe estranho até mesmo para os maiores fãs. Isso se dá pois foi literalmente a primeira vez em que a banda executou a canção, e ao fazê-lo realizou algo que nunca havia antes visto: obteve a participação constante do público numa música inédita! Isso foi possível porque antes de a iniciarem, Renan, ainda com seu violão, explicou para a plateia como seria o coro que deveriam fazer durantes os refrãos, numa espécie de ensaio, e o público, por sua vez, consentiu em ajudá-lo e, mais uma vez,  fez bonito, complementando a ótima obra que tivemos o privilégio de ouvir em primeira mão (e ainda participar ativamente). Essa, porém, foi apenas a quarta estreia da noite, já que a banda de abertura nos apresentara antes “Two Strangers”, “Waterfall” e “Elevate”, todas do novo álbum, cujo nome ainda é um segredo. Estou bastante ansioso para ouvir as quatro em suas versões de estúdio.

Renan Zonta: tudo e mais um pouco

 Não há dúvidas que o quarteto curitibano, a “multidão elétrica”, é de raríssima virtuosidade. O baterista André Leister, por exemplo, mesmo com o frio daquela noite, já iniciou show tocando sem camisa devido, imagino, à agressividade, num ótimo sentido, com que toca e tem, para além dos predicados técnicos relativos a seu instrumento, uma qualidade rara e até peculiar para alguém que fica no fundo do palco, mas nem por isso menos interessante: presença. As cordas, por sua vez, que ficam por conta de Ben Hur Auwarter são donas de méritos individuais e mais ainda coletivos, pois, apesar dos estilos quase que opostos dos dois músicos, tanto de se vestir, portar, etc, quanto de tocar seus instrumentos, não perdem sua sincronia em momento nenhum, aproveitando toda oportunidade para realizar belos duetos, como em “Higher Than your Heels”. Todavia, e não é demérito nenhum dizê-lo, a estrela do show é, indubitavelmente, o vocalista Renan Zonta, para cujos timbre, tessitura, técnica… enfim, para cuja voz me faltariam adjetivos.

 Por falar em voz, porém, me sinto na obrigação de, antes de prosseguir a comentar sobre o vocalista, realizar uma espécie de mea culpa. Quando soube da apresentação da banda em Curitiba, e até mesmo enquanto planejava este texto, só conseguia pensar na participação do frontman curitibano no reality show “The Voice Brasil” e em como e quando iria citá-la. Contudo, tendo refletido um pouco mais, chego a conclusão de que isso é péssimo. Não é que sua performance tenha sido ruim, até porque foi exatamente o contrário, Renan deixou a todos boquiabertos na ocasião e o próprio grupo cita esse fato em sua biografia, no site oficial. O que ocorre é um reducionismo absurdo em relacionar um talento como esse diretamente e quase exclusivamente ao programa, pois, se a situação da música em nosso país fosse minimamente decente, um artista excepcional como ele jamais precisaria se sujeitar a isso para ser reconhecido. Sim, “se sujeitar”, pois cantores como Renan estão muito acima do que o programa costuma oferecer, com “malabaristas” vocais que, embora possuam toda a técnica possível, não têm (e são incentivados a não ter) qualquer personalidade ou senso de inovação – o que de modo algum falta ao vocalista do Electric Mob. Creio, porém, que shows como esse, e o bom público que já movem, são uma prova de que lentamente estão caindo essas amarras e a banda pode alcançar as paradas legitimamente, como deveria ter sido desde o princípio, em um tempo ou espaço melhor.

Feito meu pequeno desabafo, torno a falar dos aspectos meramente musicais. Trata-se de um talento absurdo, com agudos inacreditáveis e domínio absoluto de drives, oscilações e outros ornamentos. Cantando com a alma do início ao fim, e explodindo sempre que possível, Renan sabe muito bem a hora de subir e de descer, não deixando sua performance nos cansar em momento algum e tampouco desafinando. Mais do que isso, estamos falando de um showman completo, que além da técnica vocal, tem para si toda a presença de palco e o carisma necessários, conforme as interações anteriormente citadas mostram. É uma estrela orbitada por planetas também sensacionais e fico feliz de saber que vem daqui, de nossa capital.

 Foi uma apresentação completa como poucas vezes vimos. Com gritos absurdos, mas também vocais mais calmos, assobios e danças. Com uma condução do público invejável, que por tantas vezes clamou o nome do grupo em uníssono. Participações excelentes no violão, quando Auwarter precisou de uma base. Um nobilíssimo pedido de aplausos para a Landfall, prontamente atendido pela audiência. E, além de tudo, um coro de “fora Bolsonaro” orquestrado, a combinar com a jaqueta com uma mensagem antifascista que usava no início. Que desempenho do vocalista!

Final apoteótico e conclusões

 Se havia ainda alguém insatisfeito com aquela noite no Jokers, o que nem creio ser possível, as três últimas canções certamente o/a fizeram mudar de ideia. Ao terminar a encantadora “Need to Rush”, o frontman guardou seu violão e fez um convite interessante ao público: “Vamos ‘farofar’?”. Prontamente, iniciaram a pedrada “Far Off”, com baixo e bateria mais presentes impossível e uma performance vocal hipnotizante no final. Após as palmas, que foram muitas, o vocalista novamente intimou a audiência, dizendo que, já que haviam participado daquela canção, teriam de cantar com ainda mais vontade a seguinte. Desse modo, iniciaram o hit “Devil You Know”, na qual houve um pouco de tudo, danças, palmas, o vocalista cumprimentando os espectadores mais próximos e depois rodando o microfone, um solo de bateria, coro e tudo mais. Uma execução perfeita de uma canção excelente e um momento que seria ótimo para encerrar.

 Ao som de “mais um, mais um!”, porém, os músicos, sem nem deixarem o palco, se prepararam para tocar a derradeira. Antes, contudo, mais um pedido peculiar do vocalista, dessa vez para que acontecesse um mosh de verdade, já que até ali só havíamos visto rodas punk muito pequenas. Dito e feito: com a mais moderna e pesada “Upside Down”, a porrada comeu solta, como pedira o próprio Renan, e ele mesmo pulou do palco e participou da brincadeira após encerrar sua participação na canção. Os instrumentistas aproveitaram o momento para mostrar um pouco mais seus talentos, e o guitarrista até mesmo deitou no chão e ficou solando e se remexendo ao melhor estilo Angus Young no auge. E assim acabou a música ao vivo da noite (e que final!).

Terminado o show, e com todos exultando de alegria, a banda agradeceu e tirou fotos de cima do palco, e Renan ainda chamou o público para conversar com eles posteriormente, já que ficariam “ali tomando uma”. Depois de muitos aplausos e um tanto extasiado, finalmente respirei fundo e me senti agraciado por poder viver momentos como esse. Virei-me para trás, para poder descer as escadas da parte superior do palco do Jokers, e tive uma surpresa. Passando por mim e todo público estavam os quatro membros da banda, um após o outro e nunca esquecerei suas expressões: “alegria” seria pouco para descrever o semblante que carregavam em suas faces. Vendo isso, fiquei ainda mais feliz, por saber que, embora sejam tempos de vacas magras para o estilo musical que tanto amamos, ainda o amamos e a paixão, satisfação e felicidade que vi naqueles jovens são motivos para o amarmos ainda mais, e para relembrarmos que, enquanto esse sentimento existir, o bom e velho rock and roll não morrerá.

Confira os repertórios:

Electric Mob:
Black Tide
Gypsy Touch
King’s Ale
Higher Than your Heels
Brand New Rope
We Are Wrong
your ghost
4 Letters
Got me Runnin’
Need to Rush
Far Off
Devil You Know
Upside Down

Confira a galeria de fotos:

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