[Entrevista] Macumbazilla: A encruzilhada de um só caminho

O Macumbazilla é um dos nomes mais ativos do cenário musical de Curitiba na atualidade. A desenvoltura e energia que apresentam em cima do palco foi repassada para o primeiro álbum completo de estúdio da banda: …at a Crossroads. Por mais que o título evoque um dilema, o fato é que o som da banda, na verdade, leva o fã a apenas um caminho: A diversão. Afinal, sem malabarismos instrumentais ou momentos de presunção musical, o trio entrega canções enérgicas e de qualidade indiscutível – e às vezes tocantes, como a belíssima balada “Morningstar”. Aliás, em breve, a resenha completa deste CD aqui no Acesso Music.

A formação que registrou este álbum, que levou um tempo entre as gravações até chegar de fato às mãos da galera, conta com André Nisgoski (guitarra e voz), Carlos “Piu” Schner (baixo e Júlio Goss (bateria). O grupo recém fez o show de lançamento do disco no Crossroads (coincidência?), e logo sobre ao palco no Tenda Xperience (mais infos no Serviço ao fim da matéria) , que celebra os dez anos do lendário Programa Tenda. Sobre estas e outras coisas do universo do Macumbazilla, batemos um papo prolongado com Nisgoski.

Por Clovis Roman

At a Crossroads é um álbum extenso. Houve faixas que sobraram das sessões de gravações ou quando entraram em estúdio a tracklist já estava definida?

André Nisgoski: Salve Pessoal do Acesso Music! Em primeiro lugar é um prazer estar falando com vocês! É um álbum extenso mesmo, inclusive fomos aconselhados a não fazer um álbum com esse número de faixas, mas pelo jeito não ouvimos [risos]. As pessoas que estão conosco desde o começo esperaram muito tempo para ter um material cheio em mãos, nós tínhamos um compromisso moral de lançar isso, não pensamos em “mercado”, pensamos em quem pensa na gente, foi uma decisão óbvia para a banda. Algumas músicas fariam parte do nosso álbum que deveria ter sido intitulado Colossus, mas a vida foi esmorecendo esse Colossus, ao ponto que ele deixou de ser impávido [risos]. Chegamos a entrar em um hiato, mas decidimos tocar o barco para frente, compor mais músicas e lançar o “…at a Crossroads”, hoje em dia ficamos felizes de ter tomado essa decisão.

Mesmo tendo 14 faixas, nenhuma das faixas do EP autointitulado de estreia foi regravada. Vocês chegaram a cogitar esta hipótese em algum momento?

Nisgoski: Em momento algum pensamos em regravar algo, tínhamos novas músicas, novas experiências. Às vezes é interessante respeitar a cronologia das coisas. Não tínhamos porque requentar material, bora pro que é inédito!

Assim como no EP de estreia, há uma música no atual disco que tem a sagrada palavra “beer” no título – no caso “Leave my Beer Alone”. Poderia falar mais sobre a letra dela, qual o conceito?

Nisgoski: Como já diria Pink Floyd “ Wish you where beer” [risos]. O Macumbazilla trabalha muito com o mundano, não temos grandes letras epopeicas que falam de aventuras imaginárias, tampouco revisões cantadas de feitos passados da humanidade, essa última porque humildemente não tenho as ‘manhas’. E partindo desse princípio do carnal, mundano, ordinário, acabamos falando de coisas que estão no nosso dia a dia. Desde uma dor de uma despedida, a um momento de fuga da realidade consentida, mas não se enganem, sempre existe uma mensagem por trás de tudo que é dito. “The Ritual” (que por sinal também fala de cachaça) e “Leave my Beer Alone”, estão na mesma tocada de um mundo cheio de represálias desnecessárias, ordens não escritas e fúteis que se dissolvem em meio a qualquer panis et circenses.

Aliás, porque houve este intervalo grande de sete anos, entre o EP e o CD At a Crossroads?

Nisgoski: Vixi!!! Isso dá um livro. Costumo dizer que hoje em dia é engraçado falar, mas na época que passamos foi barra! Na verdade, começamos a gravar os materiais para o Colossus, como mencionado anteriormente, logo após o lançamento do EP. Mas às vezes você faz um plano e a vida dá de ombros. Nesse caso, tudo que poderia atrasar o processo e dificultar nossa vida aconteceu. Foi necessário muito amor e resiliência para passarmos por cima de tudo isso e gravarmos o disco. É tanta coisa que aconteceu, que nem sei por onde começar! Mas o que importa é que fomos insolentes o suficiente para ignorar qualquer adversidade que muitas pessoas classificariam como “sinais” e terminar esse disco.

Outro momento marcante do CD é a faixa “Morningstar”, de uma beleza rara e com um tema forte. Poderia dissertar sobre as inspirações para esta letra e falar mais sobre o videoclipe que foi lançado dessa faixa?

Nisgoski: Em primeiro lugar, obrigado por ter se conectado com Morningstar. Significa muito ler isso! Ela começou como uma música normal, com o intuito de ser uma música bonita, talvez fosse falar de amor, talvez fosse falar das flores, mas ela acabou sendo um marco, pelo menos para mim. Começamos os trabalhos do disco em 2019, e tudo estava fluindo bem.

“Hellhounds” seria o primeiro single definitivamente, não sabíamos quem seria o segundo na ordem, e no percurso das produções, minha mãe veio a falecer. Eu sempre fui muito ligado a ela, e foi como se a bússola e o relógio fossem artifícios inúteis, nada mais fazia sentido, creio que eu nunca tenha me sentido tão desnorteado na vida, achei uma injustiça uma pessoa como ela não estar mais entre nós, na verdade achei injusto para com o mundo, todos deviam ter conhecido ela, ter tido a chance que eu tive de conviver com ela. E nesse momento sinistro, eu tive uma rede gigantesca de apoio de amigos e pessoas que me amam, que impediram que eu mergulhasse em um buraco.

Mas nem sempre as pessoas têm a sorte que eu tive e acabam sofrendo maiores sequelas por traumas. A sociedade parece não estar preparada para lidar com esse mal incapacitante, às vezes tratando como frescura ou como algo de momento, o que é muito leviano. A estigmatização desse problema só faz com que a pessoa afetada fique reclusa e não tenha condições de dar o primeiro passo que é buscar ajuda especializada.

Quanto ao clipe, foi um registro de pessoas muito especiais e amigas que se juntaram para cantar suas tristezas, foi real, feito por pessoas reais, e refinado com a empatia do Roberto Romero, que dirigiu o vídeo.

Macumbazilla ao vivo (foto: Clovis Roman)

O som do Macumbazilla pode se encaixar no rótulo do stoner rock/metal, mas traz diversas referências sonoras além desta classificação. Como vocês trabalham estas influências musicais para criar a música do Macumbazilla, que, inclusive, é repleta de identidade própria?

Nisgoski: Nós não as trabalhamos, elas nos trabalham [risos]. Achei genial a alcunha de “Encruzilhada Metal” que o Valtemir Amler [N. do R.: revista Roadie Crew] graciosamente criou recentemente, o que acontece de fato. Nós somos pessoas repletas de influências, e isso vai se misturar e aparecer no som. Não estamos mais no momento da vida em que queremos soar a algo, por mais que tenhamos extrema admiração. Não se deve andar na sombra de grandes figuras, por isso optamos por ser a melhor opção que tínhamos em mãos, que é ser o que somos [risos].

Para quem é entusiasta de rock e suas vertentes, acaba sendo uma coisa fácil pegar boa parte das influências, e honestamente ficamos muito felizes quando as pessoas nos comunicam essa descoberta, porque é sinal que ouviram e se identificaram.

Macumbazilla (foto: Bruna Arins).

Gostaria de voltar um pouco no tempo para falar sobre o A.M.F., banda que você integrou nas antigas e que lançou o excelente disco A New Speech For An Old World Full Of Shit. Como foram aqueles tempos, como era a cena e os shows? E por fim: Como aquela experiência se reflete hoje na sua formação musical e naquilo que você compõe e toca no Macumbazilla?

Nisgoski: Nosssssaaaa, desenterrou [risos]! Adorei o jeito sutil de usar o termo “voltar um pouco”, faz 20 anos! [risos]. A época do AMF, assim como a época do Resist Control, que o Piu fazia parte, parecem um passado distante hoje em dia. Haviam outras prioridades, tanto por parte das bandas, quanto por parte do “mercado”. Na época do Resist Control, por exemplo, as bandas autorais enchiam casas com capacidade de mil e poucas pessoas numa quinta feira em Curitiba! Existia uma esperança de que algum grande nome da música seria oriundo daqui. Lembro bem dessa época porque fazia do Prankish, que ganhou prêmio nacional da Rock Brigade e chegamos a ir nos apresentar para os  “bam bam bams” em São Paulo, por exemplo.

O período do A.M.F foi surreal. Nós tínhamos bandas em Curitiba com um nível musical e artístico que não devia para “gringo” nenhum! Nesse momento, a “cena”, em questão estrutural, de casas noturnas e abrangência, era um pouco mais precária do que nos anos 1990. Mas mesmo assim, tínhamos grande interesse por parte do público! Hoje em dia, a “cena” não é ruim! Longe de mim ser o saudosista que vive de glórias passadas! Porém, creio que a pulverização da informação, tenha causado um desapreço pela cultura local, digna de um livro de Aldous Huxley.

Raramente me deparo com pessoas que tenham conhecimento das peças que moveram o circuito desde os anos 1980 por exemplo. Já vi alguns vídeos documentais que precariamente retrataram verdadeiramente a importância dos músicos curitibanos na história da música underground brasileira. Mas isso é um reflexo do tempo! Eu não fico duelando com um passado de glórias que talvez fossem mais memórias afetivas do que feitos.

Prefiro me ater no presente, tentando ajudar na realização de um futuro melhor para todos os músicos da nossa cidade, usando o conhecimento que adquiri em tempos passados. Tomara que dê certo! Quero muito um dia ler que uma banda de Curitiba foi headliner em Festivais de grande porte! Divaguei né? Foi mal! [risos].

Voltando ao Macumbazilla: Vocês fizeram recentemente o show de lançamento de At a Crossroads no Crossroads em Curitiba. Esta coincidência – Crossroads – foi de fato uma coincidência?

Nisgoski: Como eu disse em outra resposta: “Não se enganem, sempre existe uma mensagem por trás de tudo que é dito.” Ou feito! [risos]. Nós temos uma parceria de longa data com o Ale e o Crossroads. Quando comentamos com o Ale sobre o nome do disco, o convite veio de imediato. Independente do nome do disco ter sido criado devido às adversidades que enfrentamos, parecia muito justo superarmos essa fase lançando no Crossroads, ao lado de amigos que nos apoiam sempre.

Show de lançamento do CD no Crossroads, em Curitiba (foto: Camila Kovalczyk).

Vocês vão participar do Tenda Xperience no próximo final de semana, que celebra os dez anos do Programa Tenda. Como é acompanhar este trabalho, participar e agora celebrar esta importante marca junto ao Tenda?

Nisgoski: Teremos a honra de participar dessa primeira edição, junto com duas bandas que são importantes na nossa história e nossas amigas! Já tivemos alguns rolês com o Bad Be Bop, tomando whisky quente na van voltando de show. E o Corram para as Colinas é um familiar! É seguro dizer que, desde o começo, andamos juntos, são nossos irmãos! O primeiro show do Macumba foi com o CPC, o show de lançamento do disco também e se depender de nós, existirão mais mil shows com eles.

E o Studio Tenda é reserva moral na história da cena curitibana. Poucas pessoas se dedicaram em fazer uma captura audiovisual das bandas dessa cidade. Gravamos  “Blood, Beer and Broken Teeth” com eles, e me surpreende o quanto o pessoal respondeu bem a essa empreitada, se não me engano, somos hoje um dos vídeos mais vistos do canal e pretendemos fazer algo com eles sempre que formos convidados. Quem já teve a chance de colocar os pés no set do Tenda sabe que eles trabalham com coração mesmo. A boa vontade e a competência que tratam o assunto é louvável. Se tivéssemos mais iniciativas como essas, provavelmente teríamos uma cena independente muito mais fortalecida e preparada. A Lyrian e o Mário são dois representantes da verdadeira classe artística!

Falando nisso, como estão os planos para shows no decorrer deste ano?

Nisgoski: Opa! Tamo na pista! Recebemos convites, que provavelmente aceitaremos, para fazer shows em outros estados e aceitamos propostas. Estávamos completamente focados em entregar esse disco, essa missão foi cumprida. Agora, queremos conhecer todo mundo que quiser nos conhecer!

Ouça … at a Crossroads:

SERVIÇO

Tenda Xperience – 1ª edição
Atrações: 
Bad Bepop, Macumbazilla, Corram para as Colinas
Data:
  26 de junho de 2022 (domingo)
Local: Tork’n Roll
Endereço: Av. Marechal Floriano Peixoto, 1695 – Rebouças
Horários: 17h (abertura da casa), 18h (shows)

Ingresso: R$ 20 (inteira) / R$ 10 (doando 1kg de alimento não perecível)
* Faça doação voluntária de agasalhos.
Vendahttps://www.torknroll.com.br/events/tenda-xperience

Patrocínio: Cervejaria Anbier / @anbierchopp

Conheça o Tenda:
Linktree: https://linktr.ee/studiotenda
Facebook: https://www.facebook.com/studiotenda
Instagram: https://www.instagram.com/studio_tenda/
Youtube: https://www.youtube.com/c/LyrianOliveiraTenda 

Foto de capa: Camila Kovalczyk
Fotos ao vivo: Camila Kovalczyk e Clovis Roman

Foto promocional Macumbazilla: Bruna Arins

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