[Cobertura] Petra e Bride mergulham na nostalgia atemporal do hard rock

Petra e Bride
22 de outubro de 2024
Teatro Bom Jesus
Curitiba/PR

por Clovis Roman

O rock cristão, assim como o convencional, tem seus baluartes. Dois deles, Petra e Bride, vieram juntos ao Brasil para uma turnê nostálgica, que em momento algum, soou enferrujada. Os clássicos de décadas atrás ainda são vigorosos e proporcionam uma experiência musical muito agradável. O foco dessa análise ficará restrita, exclusivamente, ao espectro musical.

Esta turnê reuniu dois gigantes que provavelmente nunca mais voltariam ao Brasil. Ano passado, o Petra fez um show único no Brasil, em uma turnê de despedida. O Bride tinha uma situação ainda mais delicada: mesmo gravando discos nos últimos tempos, não subia ao palco há 17 anos. Portanto, vislumbrar um retorno deles ao país parecia um devaneio alucinado. O hiato acabou recentemente, com um show nos EUA, então esta performance em Curitiba foi a segunda após muitos anos. E quem esperava encontrar uma banda enferrujada, se enganou.

Os irmãos Troy Thompson (guitarra) e Dale Thompson (vocal) foram soberbos. Troy esbanjou um bom gosto tremendo em cada acorde, com muito feeling e uma capacidade absurda de criar riffs ganchudos, daqueles que conquistam de imediato. Dale, por sua vez, foi uma excepcional surpresa positiva. Cobri um show da banda em 2006, e os agudos tão característicos de sua trajetória não marcaram presença. Aqui, ele se esgoelou a valer, dando uma rispidez ao hard rock do grupo em petardos como “Everybody Knows my Name”, “Would You Die For Me” e “Hell No”. O impacto veio desde a abertura, com a frenética “Rattlesnake”, que abriu caminho para uma sequência incrível de hits. O setlist parece ter sido pensado com muito carinho para os fãs brasileiros.

Troy Thompson (foto: Clovis Roman).

Basicamente não houve espaço para as fases mais obtusas do conjunto – portanto, nada do Drop, Oddities ou This is It. Apenas cinco álbuns foram contemplados, a maioria deles, os mais cultuados. Snakes in the Playground teve cinco: por exemplo, a sedutora “Fallout” e a belíssima balada “I Miss the Rain” (emendada com uma boa parte de “Knockin’ On Heaven’s Door”, de Bob Dylan, mas que estourou mundialmente com o Guns N’ Roses). Aliás, Dale e Axl Rose têm muito em comum, ao menos no passado. Ambos se destacaram com similaridades, como os vocais agudos e muita energia. Hoje, a diferença fica explícita: enquanto Axl praticamente não tem mais voz e não produz material novo há milênios, Dale segue gravando e cantando super bem, adaptando de maneira confortável – para ele – as músicas antigas para os tempos atuais.

Em certo momento, empolgado com a potência de Dale nos vocais, algum fã desavisado pediu “Heroes”, uma das coisas mais estridentes já gravadas na humanidade. Claro, não foi atentido. Por outro lado, ele e os demais presentes, que encheram a casa (mas não a ponto de sold-out) testemunharam “Hired Gun” e “The Worm”, do mais alternativo The Jesus Experience (1997). A faixa, menos hard e mais moderna, tem um dos melhores refrães da história do Bride. Impossível não cantar junto “I am the worm, crawling through your head”.

Dale Thompson (foto: Clovis Roman).

A mais antiga da noite, “Under the Influence” (Silence is Madness, 1989) ainda trouxe uma citação ao Rage Against the Machine em um bloco instrumental estendido, antes do último refrão. A postura de palco dos irmãos Thompson foi muito simpática, mesmo sem muitos diálogos com a plateia. Antes de “Hell No”, Dale convoca os fãs a cantarem junto o refrão, inclusive ensinando rapidamente a dificílima frase “We won’t go to. Hell, no we won’t go”. Mesmo assim, muitos se apoiaram no embromation; todavia, foi um grande momento. Após “Fallout”, o vocalista mandou um “You rock. Brazil rocks”, convocando, sem demora, “End”, que não foi a última, e sim, “Psychedelic Super Jesus”, um hard rock ultra enérgico. Saíram do palco com uma hora cravada, deixando a impressão de que ficou faltando muita coisa. E, de fato, faltou.

Repertório
Rattlesnake
Would You Die for Me
Hired Gun
Under the Influence
I Miss The Rain / Knockin’ on Heaven’s Door
Everybody Knows My Name
Hell No
The Worm
Fallout
End
Psychedelic Super Jesus

John Schlitt, do Petra (foto: Clovis Roman).

Petra
É difícil comentar sobre uma banda da qual somos fãs. O Petra está neste hall, pelas músicas grudentas, melodiosas ao extremo, com teclados e sintetizadores, a voz aveludada de John Schlitt, riffs especiais de Bob Hartman e uma cozinha discreta. A escolha do repertório foi sublime, como das últimas duas vindas do grupo a cidade, cujas ambas eu presenciei. A estrutura do show é sempre a mesma, mas há sempre espaço para mudanças. Assim sendo, fomos agraciados (ou abençoados, como queira) com pérolas como “Bema Seat”, do antigo Not of This World (1983), com uma roupagem mais crua, mas ainda muito radiofônica; e “Angel of Light” (que não é cover do Mercyful Fate), do Never Say Die (1981).

Nas últimas duas visitas deles, o repertório teve grande foco na fase Schlitt (vocalista que entrou na banda em meados dos anos 1980 e protagonizou as maiores conquistas comerciais do Petra), mas dessa vez, eles cavucaram um pouco mais no baú. Além das supracitadas, a boba “Lucas McGraw” (do debut auto-intitulado, de 1974), um bluegrass irritante, mas que Hartman explicou: Nos primeiros shows, enfrentaram públicos bastante frios, então fizeram uma canção mais descompromissada, e como resultado, ela se tornou um hit por anos. Não deixa de ser uma música ruim, mas o que vale é a diversão.

Mr. Bob Hartman, do Petra (foto: Clovis Roman).

Ainda da fase inicial, de quando Greg X. Volz era o vocalista, um belo medley trouxe “Rose Colored Stained Glass Windows”, “Road to Zion” e “More Power to Ya” (todas do More Power to Ya, 1982), impensáveis até pouco tempo atrás, junto com favoritas dos fãs como a açucarada balada “Love”, “The Colouring Song” e a tocante “No Doubt”. Outro medley, este já esperado – também foi apresentado nos shows anteriores na cidade, em 2010 e 2012 -, foi o que reuniu as pegadiças “Sight Unseen”, “I Am On The Rock” e “This Means War”, entre outras.

Devido a um problema técnico, o show atrasou 50 minutos para começar. A banda subiu e tocou na raça, enquanto o crew fez o que pode em tempo recorde. Schlitt pediu desculpas pelos erros da banda e até, brincando, sugeriu que o público não filmasse, pois “estamos muito ruins esta noite”. Ele não poderia estar mais enganado. Afinal, não há a menor possibilidade de um show com a pesadísima “Jekyll & Hyde” – anunciada pelo vocalista como Jekyll & Hyde Syndrome (!) -, a dançante “Beyond Belief” e as igualmente fofas “Creed” (um refrão apoteótico indescritível) e “Dance”, que veio logo no começo, ser ruim. Todo o show é um louvorzão, com letras bastante panfletárias, e algumas pregações no meio, mas o bloco final foi ainda mais ecumênico: “Lord, I Lift Your Name on High”, a acelerada “Somebody’s Gonna Praise His Name” e “He Came, He Saw, He Conquered” que, como sempre encerra a noite.

O lendário tecladista John Lawry (foto: Clovis Roman)

A banda, além de Schlitt e Hartman, teve o baixista de longa data Greg Bailey, o live member Cristian Borneo, na bateria, e o lendário tecladista John Lawry, que não veio com a banda nas outras apresentações em Curitiba. “We couldn’t have asked for a better bunch of folks. Thank you very much”, disse Schlitt à plateia em certo momento. Nós é que temos de agradecer pela bela música que forjaram portões celestiais adentro. A música do Petra – assim como a do Bride – é tão boa que conquista até mesmo aqueles que, de maneira alguma, compartilham da mensagem cristã. Só não posso falar que o show foi perfeito pois um solo de teclado de 10 minutos, incluindo uma parte que o instrumento solta a frase “Jesus Loves You” é uma experiência quase traumática. De resto, soberbo! I love these lords! 

Repertório
Destiny
Dance
Bema Seat
Just Reach Out
Sight Unseen / It Is Finished / Think Twice / I Am on the Rock / Midnight Oil / Mine Field / This Means War! / It Is Finished
Creed
Judas’ Kiss
Angel of Light
Lucas McGraw
Rose Colored Stained Glass Windows / Road to Zion / More Power to Ya / No Doubt / The Coloring Song / Love
Jekyll & Hyde
Beyond Belief
Lord, I Lift Your Name on High [The Maranatha! Singers]
Somebody’s Gonna Praise His Name
He Came, He Saw, He Conquered

Galeria de fotos:

3 comentários em “[Cobertura] Petra e Bride mergulham na nostalgia atemporal do hard rock

  1. “Under The Influence” na verdade não foi a música mais antiga do Bride tocada, e sim “Hell No” (Live to Die, de 1988), Hired Gun é do Kinetick Faith, não do The Jesus Experience e o “fã desavisado” fui eu, e se trata de uma brincadeira, até porque eu sei que há muito muito tempo eles não tocam mais Heroes pois o Dale não consegue mais cantar essa… Foi quase como um “toca Raul!”, aquele tipo de brincadeira que só quem conhece bem a banda entende 😉

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    1. Fala!!! Realmente, me equivoquei sobre a “Hell No”! Bem observado!

      Sobre a “Heroes”, eu escrevi pensando no show de 2006, pois naquela vez alguém também gritou pedindo “Heroes”, que é uma música que jamais rolaria… e curioso que o Dale acabou cantando uns versos dela a capela. Claro, foram os versos iniciais, “mais fáceis” : “I’m standing on the sword of the Dragon
      He can’t pull it from beneath my feet
      Down in the darkened cavern
      In the field of blood I’ll watch him bleed”.

      Até tenho vídeo disso aqui em algum lugar, depois vou atualizar aqui a matéria com este vídeo, vou subir no YouTube e inserir na matéria.

      Obrigado por seu comentário aqui! Um grande abraço!

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