Há 50 anos, Bob Dylan arrasava corações ao redor do mundo com o lançamento de Blood on the Tracks

Por Luís S. Bocatios

Em 1975, Bob Dylan estava longe do auge de sua popularidade. Após uma sequência enorme de clássicos na década de 1960, o compositor abriu os anos 1970 com o controverso Self Portrait, até hoje considerado um de seus piores trabalhos. Os próximos discos de Dylan passaram um tanto quanto batidos pelo público geral, mas, ao longo do tempo, passaram a ser apreciados pelos fãs, mesmo que ainda sejam subestimados (especialmente New Morning, de 1970, e Planet Waves, de 1974).

É claro que um artista da importância de Bob Dylan nunca ficaria completamente fora dos holofotes, até porque a geração de músicos que o sucedeu sempre fez questão de homenageá-lo e citá-lo como referência, mas ele fez de tudo para desaparecer. 

Entre 1966 e 1974, Dylan não fez nenhum show, raramente deu entrevistas e se manteve recluso durante a maior parte do tempo. Uma turnê com a The Band reacendeu a chama dos palcos dentro do artista, e sua inspiração para compor voltou com força total nos próximos anos.

A fonte dessa inspiração estava longe de ser a mais agradável do mundo: o casamento de quase dez anos do cantor com Sara Lownds estava caindo aos pedaços. A tensão entre o casal crescia cada vez mais, muito devido à pressão da fama, diferenças pessoais e, possivelmente, infidelidades por parte de Dylan.

Mesmo que o cantor tenha negado que Blood on the Tracks – lançado no dia 20 de janeiro de 1975, há exatos 50 anos atrás – é inspirado no término de seu casamento, é um consenso entre biógrafos e pessoas próximas a Dylan que praticamente todas as músicas tratam exatamente sobre isso. A palavra do compositor já deixa de ser confiável a partir do momento em que o ouvinte bate o olho nos títulos das músicas: “Tangled Up in Blue” (pt: envolto em tristeza), “You’re Gonna Make Me Lonesome When You Go” (pt: você vai me deixar solitário quando for embora), “If You See Her, Say Hello” (pt: se você vê-la, diga oi), entre outros.

Além do mais, pouco importa a real intenção do compositor; uma vez que as músicas são lançadas, cada um contorna a música com o significado que mais faz sentido para si. Toda interpretação é válida, mas é quase impossível que alguém escute qualquer música de Blood on the Tracks e não chegue à conclusão de que ela está falando sobre o término de um relacionamento e as consequências que ele trouxe ao narrador.

Se o Prêmio Nobel de literatura que Dylan ganhou fosse apenas por esse disco, já estaria justificado: Blood on the Tracks é um dos momentos mais inspirados de um letrista na história da música e um dos registros mais singelos e dilacerantes de todos os tempos. Basicamente, o álbum conta a história das ruínas de um relacionamento e as dores que vêm com isso, focando mais nos efeitos que o término do casamento causaram em Dylan do que nos motivos pelos quais o divórcio aconteceu (embora eles também sejam abordados).

Instrumentalmente, o disco é possivelmente o mais rico da carreira de Dylan (que também foi o produtor, ao lado de Phil Ramone): gravado de forma turbulenta entre Minneapolis e Nova York, o álbum apresenta dezenas de camadas de violões diferentes, que preenchem as canções de forma brilhante, assim como o órgão e o piano, que não são tão notáveis na primeira audição, mas, a cada revisita ao álbum, o ouvinte percebe o quão fundamentais eles são para a sonoridade de Blood on the Tracks.

O vocal de Bob Dylan, sempre contestado e alvo de debates infinitos nas mesas de bar ao redor do mundo, também atinge o auge nesse disco. É claro que não estamos falando de nenhum Frank Sinatra ou Ronnie James Dio, mas, goste-se ou não da voz de Dylan, sua entrega vocal em Blood on the Tracks é incontestável.

Em um disco cheio de letras depressivas, a performance do cantor é fundamental para que o ouvinte sinta a tristeza que ele busca passar. Em várias canções do álbum, é a voz desolada e por vezes desesperada de Dylan que convence o ouvinte do quão despedaçado está o narrador.

Com todos os pontos mencionados acima, talvez já tenha dado pra entender que estamos falando de uma obra-prima absoluta e de um dos maiores discos de todos os tempos, mas para compreender totalmente a magnitude da obra é necessário discutir cada uma das faixas.

Faixa a faixa

[a análise das letras é uma interpretação pessoal. Para entender cada detalhe do que estava passando pela cabeça de Dylan ao escrever as músicas, o podcast Discoteca Básica tem um excelente episódio dedicado à análise deste disco, que conta com a participação de Eduardo Bueno, o Peninha, um dos maiores especialistas na obra de Dylan no mundo.]

A letra de “Tangled Up in Blue”, que abre o álbum, é praticamente um romance condensado em pouco menos de 6 minutos. Com uma harmonia simples, como é comum de Dylan, mas um arranjo de violões sofisticado e muito bem trabalhado, a canção segue uma estrutura não-linear que conta a história de um relacionamento, desde o momento em que o casal se conheceu até o declínio da relação, oferecendo frases que ficam com o ouvinte para sempre e podem ajudá-lo a entender coisas sobre o próprio relacionamento, como a passagem que encerra a música: “nós nos sentíamos da mesma forma, apenas víamos de um ponto de vista diferente”.

Em termos musicais, a música é excelente, mas talvez nem esteja entre as melhores do disco; falando apenas da letra, talvez seja um dos maiores trabalhos da vida do compositor. Um Nobel foi pouco.

Em “Simple Twist Fate”, Dylan usa um breve encontro com uma pessoa especial como uma metáfora para a passagem de Sara Lownds em sua vida. A canção, que tem um instrumental minimalista, apenas com violão, baixo e gaita, traz uma melancolia quase palpável em todos os seus aspectos.

A harmonia e a melodia são lindíssimas, mas extremamente melancólicas, a letra traz um homem completamente quebrado, que enfrenta um vazio irremediável, e a performance vocal de Dylan soa como um lamento desolado por algo que jamais voltará – a não ser, é claro, que algum simples truque do destino esteja guardado. Ele estará sempre esperando.

A próxima música, “You’re a Big Girl Now”, é uma das mais tristes do disco. A longa introdução traz variações harmônicas interessantes e uma instrumentação que consegue ser ao mesmo tempo minimalista e marcante, com frases de violão que remetem à música flamenca.

A letra é composta por cinco estrofes, cada uma sobre um estágio do “luto” pós-término: a primeira traz a tristeza do narrador, que vem acompanhada de uma admiração pelo crescimento de sua amada no tempo em que estiveram juntos; a segunda é a mais triste de todas, em que Dylan basicamente confessa que está fazendo um disco inteiro direcionado à sua ex, como uma espécie de terapia: “um pássaro no horizonte, sentado na cerca/canta sua canção para mim/e eu sou como aquele pássaro, cantando só para você/espero que você consiga me escutar cantando por trás dessas lágrimas”. Um Nobel foi pouco.

Na terceira estrofe, Dylan reflete sobre a passagem rápida do tempo durante o relacionamento, ao mesmo tempo em que promete mudar e implora por mais uma chance. Na penúltima estrofe, o narrador se tortura ao pensar em sua amada no quarto de outra pessoa, e, na última, estabelece o estado mental instável em que o término o deixou: “eu estou ficando maluco, com uma dor que começa e termina/como um saca-rolhas no meu coração/desde que estamos separados”.

“Idiot Wind” é a segunda canção mais longa do disco e trata da influência que a imprensa e a “cultura das celebridades” tiveram no divórcio de Dylan. No começo, o compositor estabelece a relação conturbada que sempre teve com a mídia e o público, tanto em relação às mudanças artísticas que ele sempre promoveu ao longo de sua carreira quanto sobre as fofocas que saíam nos jornais sobre sua vida pessoal. Em seguida, ele se debruça sobre como isso sufocou a vida do casal, extenuou Sara e ajudou a acabar com o casamento.

Musicalmente, a composição carrega contornos épicos que evocam grandes tragédias e um senso de destruição e desolação iminente. O trabalho de violões é belíssimo, assim como o órgão, que adiciona ainda mais misticismo à canção. A interpretação de Dylan é uma das mais emotivas e comprometidas do disco, convencendo o público da dor que o narrador sente a cada palavra cantada.

Após a faixa mais complexa do disco, é a vez da mais simples: “You’re Gonna Make Me Lonesome When You Go” é outra que tem apenas violão, baixo e gaita, mas é ainda mais simples do que “Simple Twist of Fate” por causa de sua estrutura harmônica pouco criativa e bastante derivada do folk/country clássico.

Isso está longe de ser uma crítica, pois a canção é das mais legais do álbum e talvez a única que carregue uma certa alegria na melodia. A letra, por sua vez, é extremamente deprimente: por mais que o narrador esteja criando uma conexão super saudável com uma outra pessoa, a separação foi tão traumática que ele não consegue parar de pensar que essa nova pessoa o abandonará e o deixará solitário. O próprio Dylan está condenando a relação a um final triste, mesmo que ela ainda esteja no começo.

Essa dissonância entre uma melodia alegre e uma letra triste é genial por refletir totalmente a dualidade do que o narrador está vivendo, sem se entregar totalmente à felicidade mas também já saindo do estágio mais agudo de tristeza.

Iniciando o lado B do vinil, “Meet Me in the Morning” segue a estrutura clássica do blues, tanto na composição quanto na letra, que novamente traz o narrador tentando de todas as formas convencer sua ex a lhe dar outra chance: primeiro, a convidando para uma viagem e, em outro momento, apelando até para o bom e velho coitadismo na frase “dizem que a hora mais escura é logo antes do amanhecer/eu não saberia dizer, pois todos os dias são escuros desde que você se foi”.

Instrumentalmente, trata-se da canção mais classuda do disco: há um solo de guitarra com lap steel, uma linha de baixo forte e cheia de personalidade e a bateria tem um arranjo simples, porém criativo e extremamente efetivo.

A canção mais longa de Blood on the Tracks é “Lily, Rosemary and the Jack of Hearts”, que beira os nove minutos de duração e conta uma história ambígua sobre traição, desejo e vingança que se passa em um bar durante uma noite tumultuada que começa com um jogo de poker. A narrativa é cheia de reviravoltas e explora temas como o amor, a perda e a moralidade. Um fã da Nova Hollywood, movimento do cinema norte-americano que dominou a indústria nos anos 1970, pode imaginar um filmaço baseado nessa música dirigido pelo saudoso cineasta Robert Altman.

A harmonia é simples e se encaixa perfeitamente na estética do folk-rock, assim como o instrumental, que pesa a mão nos violões e utiliza o órgão de forma sutil mas efetiva, seguindo as mudanças de acordes. A bateria, por sua vez, é muito simples, porém fundamental no ritmo da música, que adiciona uma curiosidade extra ao que está sendo cantado.

Chegando perto do final do disco, temos a canção de término definitiva: em “If You See Her, Say Hello”, Dylan arranca o coração do ouvinte de seu peito, o corta em pedaços, bota fogo, o joga para uma alcateia de leões, mata os animais, os coloca em sacos plásticos e passa por cima de suas carcaças com um tanque de guerra.

A letra retrata uma conversa entre o narrador e, provavelmente, algum amigo em comum que ele tem com sua ex. Basicamente, ele pede para que o amigo mande lembranças para ela e passe a mensagem de que, após muito tempo, o narrador finalmente conseguiu aceitar o final do relacionamento e, principalmente, entender o lado de sua ex-parceira e respeitar sua decisão. Mesmo assim, ele continua apaixonado por ela, revive mentalmente os momentos da relação e sempre estará disponível caso ela deseje voltar.

Entre dezenas de passagens destruidoras, as mais dilacerantes são: “mesmo que o nosso término tenha perfurado o meu coração/ela ainda está dentro de mim, nós nunca estivemos separados”; e “pôr do sol, lua amarela, eu revivo o passado/cada cena está gravada no meu coração, todas elas passaram tão rápido/se ela estiver passando por aqui, não é difícil me encontrar/diga que ela pode me procurar caso tenha um tempo”. Um Nobel foi pouco.

A penúltima música é “Shelter from the Storm”, na qual Dylan expressa uma tremenda gratidão pelo apoio que teve de sua ex-esposa assim que a conheceu, em um momento em que estava afundado em uma vida de excessos. Se em “You’re a Big Girl Now” o narrador admirava o crescimento pessoal de sua amada durante o relacionamento, em “Shelter from the Storm” ele reconhece a importância que a ex-mulher teve em seu próprio amadurecimento. Tudo isso é feito em meio a metáforas que evocam passagens bíblicas, adicionando um tom épico à canção.

Musicalmente, é outra das faixas mais simples do disco: mais uma vez, temos apenas violão, baixo e gaita. A progressão descendente de acordes é acentuada pela linha de baixo, que adiciona dinâmica à música.

Encerrando Blood on the Tracks, temos “Buckets of Rain”, uma das melhores e mais singelas músicas do disco. Trata-se da canção mais enxuta do álbum; nem gaita ela tem, apenas violão e baixo.

Enquanto a linha de baixo é melódica e acrescenta ainda mais melancolia à canção, o violão é lindíssimo, carrega a música com maestria e tem uma das performances mais complexas que Dylan entregou na vida. Não que seja um oceano de complexidade, mas, comparada com a tradicional base das músicas do compositor, é bastante trabalhada e criativa – e, cá entre nós, o que importa é que sua beleza está muito acima de qualquer técnica.

A letra traz um Dylan mais reflexivo do que nunca se lembrando dos momentos que passou ao lado de sua amada, o que o leva a uma tristeza profunda. Basicamente, ele usa formas diferentes de dizer que estará sempre disponível para ela; basta chamá-lo que ele estará de volta, disposto a abrir mão de tudo para ter seu amor novamente.

No final de uma jornada tão poderosa pelos sentimentos de um homem que teve seu coração partido, o narrador entende que a vida é triste, tediosa e tudo o que temos que fazer é cumprir nossas obrigações diárias. Ao lado de sua paixão, no entanto, tudo ficaria mais suportável e agradável.

Poucas vezes na história da música alguém abriu o coração de forma tão explícita, honesta e madura quanto Bob Dylan em Blood on the Tracks. O resultado é um disco eterno, uma obra-prima que encanta gerações e serve como consolo para amantes machucados até os dias de hoje.

Sempre que houver um coração partido, Blood on the Tracks estará lá para consolo, reflexão e a garantia de que nenhum de nós está sozinho nessa situação. Um Nobel foi pouco!

2 comentários em “Há 50 anos, Bob Dylan arrasava corações ao redor do mundo com o lançamento de Blood on the Tracks

  1. PRA MIM é até difícil escolher o álbum preferido, já q sou muito fã tanto da fase rockstar dos anos 65-67 e da fase folk inicial entre 62-65…..mas na minha opinião, apesar de que se considere o período 63-66 como o auge criativo dele, Blood on the tracks é meu álbum preferido e acredito que seja o que melhor mantém a “média” entre todas as faixas. Simplesmente não tem música descartável nesse álbum.

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    1. Concordo plenamente! Meu favorito sempre foi o Nashville Skyline, mas, de uns três anos pra cá, o Blood on the Tracks cresceu demais e se tornou o meu disco preferido não apenas do Dylan, mas de qualquer artista. Muito obrigado pela leitura e pelo comentário!

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