Crypta + Paradise in Flames + Allen Key
3 de julho de 2025
Stage Garden
Curitiba/PR
Por Luís S. Bocatios
Fotos de Clovis Roman
O primeiro disco da Crypta, Echoes of the Soul, foi lançado em 2021 e caiu como um meteoro na cena do metal brasileiro. Com a bagagem adquirida em seus anos de Nervosa, Fernanda Lira recrutou as guitarristas Sonia Anubis e Tainá Bergamaschi e a baterista Luana Dametto, em uma união de forças que resultou em um álbum de estreia cru, pesado e extremamente poderoso — absolutamente tudo o que podemos pedir de um álbum de death metal.
Após turnês bem-sucedidas ao redor do mundo, o grupo lançou Shades of Sorrow em 2023. Com uma pegada mais técnica mas sem perder a brutalidade, o álbum contava com a guitarrista Jessica Falchi no lugar de Anubis. Mais turnês, mais sucesso, até que, no começo de 2025, a banda perdeu Falchi. E agora? Provavelmente nem elas sabem, mas o fato é que a guitarrista escolhida para as turnês de 2025 foi Helena Nagagata, notadamente conhecida por seu trabalho com a banda Sinaya e pelas performances ao vivo com o projeto Shamangra.
O público de Curitiba foi agraciado com uma oportunidade rara nos dias de hoje: assistir a um show sem fazer a menor ideia do repertório. Para fãs da banda foi um deleite, pois era uma pedrada atrás da outra em um show que se diferenciou das turnês anteriores por trazer um equilíbrio entre as músicas dos dois álbuns: se nas excursões que promoviam Echoes of the Soul o segundo disco obviamente ainda não existia, nas turnês seguintes Shades of Sorrow dominou quase que completamente o repertório, deixando espaço para apenas uma ou duas músicas de seu antecessor. O resultado disso tudo é um show destruidor do início ao fim.
A abertura foi idêntica à do último show da banda em Curitiba, em novembro de 2024: o piano da vinheta “The Aftermath” é seguida pela pedrada “The Other Side of Anger”, que, mesmo estando perto da metade de Shades of Sorrow, é uma faixa que parece feita sob medida para abertura de shows: é rápida, pesada, impactante e excelente. Nesse momento já era perceptível que o público curitibano seria agraciado por uma Fernanda Lira com uma voz descansada e, como sempre, muito afim. A vocalista não poupou a voz, oferecendo gritos e guturais viscerais do início ao fim do show.
O palco trazia uma bela cortina de fundo e detalhes bem trabalhados que enriquecem a experiência como um todo, enquanto a iluminação utiliza um vermelho fortíssimo para criar uma sensação de “inferno”, como é praticamente uma regra em shows de bandas pesadas. O som, por sua vez, trouxe algumas falhas em momentos em que o vocal não era ouvido, mas, no geral, foi bastante satisfatório — e muito, muito alto!
Em seguida, veio a primeira representante de Echoes of the Soul: a pérola “Kali”, que já abre com uma virada incrível da monstruosa Luana Dametto — assisti-la ao vivo é uma aula de bateria, tornando difícil a tarefa de qualquer interessado no instrumento tirar os olhos dela ao longo do show. Sua fabulosa técnica faz com que a histamina pareça infinita, oferecendo uma performance brutal do primeiro ao último minuto. A canção é uma das mais puramente death metal da banda, com riffs cheios de “satanagens” e solos de guitarra caóticos e melódicos na medida certa.

A dobradinha que vem a seguir é composta por duas das melhores músicas de Shades of Sorrow: a fenomenal “Lift the Blindfold”, uma das mais pesadas e, ao mesmo tempo, mais técnicas da carreira da banda, com solos fantásticos de ambas as guitarristas; e “The Outsider”, cujo início sombrio lembra “South of Heaven”, do Slayer, e vai se desenvolvendo até remeter à fase Individual Thought Patterns e Symbolic do Death, especialmente na forma como Dametto utiliza os pedais duplos, que soa muito inspirada por Gene Hoglan.
O repertório continua em Shades of Sorrow com a pesadíssima “Lullaby for the Forsaken”, cujo ritmo dos versos se aproxima mais do thrash do que do death metal, e com os petardos “Stronghold” e “Trial of Traitors”. A essa altura, já está claro que a escolha de Helena Nagagata foi certeira: a guitarrista tecnicamente dispensa comentários, o que já era claro para qualquer um que conhecia seu trabalho. Ela aprendeu nota por nota os solos complicadíssimos de Anubis e Falchi, mesmo que, é claro, ainda não tenha um entrosamento tão aguçado com o resto da banda.
Bergamaschi, por sua vez, é outro destaque do concerto, apresentando solos agressivos e um estilo que se repete em praticamente todas as músicas da banda, o que demonstra uma guitarrista extremamente técnica e já confortável dentro de sua linguagem instrumental.
Em todas as suas interações com o público, Fernanda Lira agradece à plateia por ter comparecido e promete sempre voltar a Curitiba. Mesmo após uma turnê europeia, a vocalista ressalta que a banda “roda e roda, mas tocar no Brasil é sempre diferente, porque nós somos a melhor plateia do mundo!”.

O foco volta para Echoes of the Soul na trinca a seguir, que tem início com a magnífica “Under the Black Wings”, que traz uma cadência muito bem-vinda após músicas tão sem freio. “Starvation”, a faixa de abertura do disco, engata novamente a quinta marcha em uma composição que traz praticamente todos os clichês do death metal e é embalada por outra performance surreal de Dametto; e “Shadow Within”, uma das menos faladas do disco, que impressiona por sua brutalidade ao vivo, chegando a superar a que ouvimos em estúdio.
Quando o público olha para o relógio, percebe que já está na reta final do show. Em meio a um mosh praticamente infinito e extremamente agressivo e gritos enaltecendo a banda, o tempo se perdeu e restavam apenas três músicas. A primeira delas foi a frenética “Dark Clouds”, que tem alguns dos momentos de guitarra mais interessantes da carreira da Crypta e dinâmicas completamente malucas que parecem ser um terror de executar ao vivo, mas a banda dá conta.
A dobradinha final trouxe os dois maiores sucessos: “Lord of Ruins”, cujo riff fica na cabeça por horas depois do final do show e talvez seja um daqueles raros casos em que o maior hit da banda é também sua melhor música — o peso dos versos é avassalador e ao vivo ela se torna ainda mais impactante.
O final foi com “From the Ashes”, realizando o desejo de um sujeito que inexplicavelmente gritava de forma desesperada pedindo a música desde o começo do show. É o mesmo que ir a um show do Deep Purple e passar o show inteiro pedindo “Smoke on the Water”; calma, amigo, vai dar tudo certo! Brincadeiras à parte, a música dispensa comentários: é death metal puro do início ao fim, com aquele selo de qualidade e autenticidade que a Crypta já conseguiu conquistar mesmo em apenas dois discos.

Repertório
The Aftermath
The Other Side of Anger
Kali
Lift the Blindfold
The Outsider
Possessed
Lullaby for the Forsaken
Stronghold
Trial of Traitors
Under the Black Wings
Starvation
Shadow Within
Dark Clouds
Lord of Ruins
From the Ashes
Paradise in Flames
Uma das bandas que rodará o Brasil com a Crypta é a mineira Paradise in Flames, que faz um death metal sinfônico/melódico e apresenta uma segurança muito grande em sua sonoridade. Com mais de vinte anos de estrada, a banda atualmente é composta pela vocalista Nienna, pelo guitarrista e vocalista A. Damien, pelo tecladista e vocalista G. Alvarenga, pelo baixista R. Aender e pelo baterista S.J. Bernardo.
A sonoridade mescla a brutalidade do death metal com a grandiosidade do metal sinfônico, com o teclado de Alvarenga trazendo tons épicos que são fortalecidos pelos vocais competentes e sinistros de Nienna, enchendo as canções de dramaticidade. O baterista S.J. Bernardo tem uma ótima performance, oferecendo blast-beats intensos e ritmos caóticos que servem muito bem ao propósito da banda.
Atualmente promovendo seu mais recente álbum de estúdio — Blindness, de 2024 —, a banda acompanhará a Crypta ao longo de toda a turnê, oferecendo uma diversidade bacana ao tipo de som que dominará a noite, sem fugir do death metal mas inserindo elementos a mais.
Allen Key
A primeira banda da noite foi a paulista Allen Key, cujo hard rock com elementos modernos surge como uma grata e divertidíssima surpresa. Composta pela vocalista Karina Menascé, pelos guitarristas Pedro Fornari e Victor Anselmo, pelo baixista Raphael Paiva e pelo baterista Alessandro Kelvin, a banda tocou para um público de início minúsculo, mas que foi aumentando ao longo da apresentação e engajou muito bem no som da banda.
Mesmo que Menascé chame todas as atenções pra si ao se mostrar uma excelente frontwoman (e uma voz poderosíssima!), ainda há espaço para que os músicos se destaquem, oferecendo canções pesadas e muito bem compostas, como a pesada “Easy Prey”, que se aproxima do metal, e “The Last Rhino”, cujo ótimo riff conduz a canção de forma a soar muito melhor ao vivo do que em estúdio (a mixagem original da canção deixa bastante a desejar).
Em todas as interações com o público, Menascé ressaltou a felicidade em estar fazendo sua primeira turnê — antes, a banda fazia shows esporádicos —, além de agradecer ao público pela recepção, que resultou até em moshs, também solicitados pela vocalista.
O show ainda contou com uma cota de momentos curiosos, como quando Alessandro Kelvin deu uma porrada tão forte na caixa da bateria que ela foi catapultada para longe (o baterista se virou com os tons até que arrumassem a caixa),. Na penúltima música, Menascé passou mal e caiu pra trás; a banda parou e foi tentar socorrê-la, mas Victor Anselmo tropeçou em seu pé e saiu catando cavaco por uns dois metros. A vocalista logo se recuperou e ficou tudo bem.
No final das contas, a Allen Key foi uma abertura surpreendemente aprovada pelo público; mesmo com um som muito mais leve em comparação ao das bandas seguintes, a banda conquistou a plateia pela qualidade de suas composições, pelo carisma e pela potência vocal de Menascé e pelos ótimos músicos que usaram de seu curto tempo no palco para deixar uma ótima impressão.
Repertório
Granted
Apathy
Death From Above
Easy Prey
Hustler
Get in Line
The Last Rhino
