Lucifer
Basement Cultural
18 de abril de 2026
Curitiba/PR
Por Luís Bocatios
Fotos de Clovis Roman
Mesmo antes da existência da Lucifer, a líder da banda Johanna Plattow já buscava recuperar uma estética crua, pesada e ocultista que se perdeu em algum lugar na história do rock n’ roll. O único e excelente disco de sua banda The Oath abriu os caminhos para a fundação da Lucifer, que se tornou um símbolo de retorno às raízes em um cenário cada vez mais plastificado, descartável e genérico no rock pesado.
A banda homenageia os grandes nomes do “rock pauleira” do início dos anos 1970, com ecos fortíssimos de Black Sabbath e momentos que lembram Deep Purple, Uriah Heep, Blue Oyster Cult e companhia. É uma lembrança muito bem-vinda de que, para ser pesada, uma banda não precisa necessariamente de pedais duplos incessantes ou uma guitarra afinada em Drop Z: um bom riff feito por alguém que sabe o que está fazendo, com as intenções corretas, pode soar muito mais demoníaco do que qualquer berro gutural genérico.
O que o público de Curitiba viu no sábado de 18 de abril, com a primeira visita do Lucifer à capital paranaense, foi essa estética sendo levada perfeitamente ao palco do Basement Cultural. Com uma iluminação minimalista, um som deliciosamente orgânico e uma performance direta, sem firulas, a banda ofereceu uma viagem a um tempo distante, emulando o que possivelmente eram os primeiros shows dessas grandes bandas da década de 1970.
Certamente nenhum dos presentes ali esteve em algum show do Black Sabbath em Birmingham no ano de 1969, mas a performance do Lucifer foi tão evocativa daquele período que acabou gerando uma nostalgia dele mesmo em quem sequer sonhava em estar nascido na épica. Como diria o grande poeta e ex-jogador de futebol Neymar Jr., “saudades do que a gente não viveu”.
Com uma formação quase totalmente reformulada em 2025, a banda já parece totalmente confortável em cima do palco. Johanna Plattow comanda tudo com uma segurança tremenda e conta com excelentes músicos ao seu lado: as guitarristas Coralie Baier e Rosalie Cunningham são perfeitas tanto nas partes solo quanto nos duetos, a baixista Claudia González Diaz é super competente, apesar de ter poucos momentos de destaque na mixagem, e o baterista Kevin Kuhn sabe perfeitamente a hora de dar uma segurada e a hora de descer a mão.
A banda subiu ao palco às 20h e mandou logo de cara uma de suas melhores e mais pesadas músicas: “Anubis”, puríssimo Black Sabbath tanto na pegada do riff inicial quanto no refrão, que carrega ecos da maravilhosa “Snowblind”. Já “Ghosts” tem um toque mais comercial, mas não menos evocativo do hard rock setentista. O público estava animado, mas ainda se aquecendo.
A coisa esquentou de vez a partir de “Crucifix (I Burn for You)”, que tem um dos melhores riffs da banda e um refrão que foi cantado por boa parte dos presentes. “Riding Reaper”, a primeira representante de Lucifer V, o último lançamento da banda, também contou com uma recepção extremamente calorosa do público desde sua introdução com belíssimas guitarras harmonizadas até o grandioso refrão e, posteriormente, o excelente e melódico solo de guitarra. É uma das grandes composições da banda, com uma parte mais interessante que a outra.
O riff mais pesado talvez seja o de “Wild Hearses”, possivelmente a música mais “sabbathica” da banda, especialmente na introdução e nos versos. Já a música-título da banda, que veio logo a seguir, tem uma pegada bem Uriah Heep, com um andamento que remete bastante a “Easy Livin”, um dos maiores clássicos do grupo liderado por Mick Box.
Em seguida, uma trinca de Lucifer V veio pra provar que a banda não para de evoluir e ficar mais pesada: a fantástica “At the Mortuary” contrapõe um riff absolutamente diabólico com um refrão super comercial e agradável de forma que apenas grandes compositores conseguem fazer; “Slow Dance in a Crypt” é o mais próximo de uma balada que a banda tocou durante a noite e conta com um solo de guitarra espetacular; e “The Dead Don’t Speak” é competente, mesmo sem ser uma das composições mais inspiradas.
A última música antes do bis foi “California Son”, outra que remete a Uriah Heep mas também tem toques de Deep Purple, cuja introdução foi marcada por uma citação a “Children of the Grave”, do Black Sabbath. A música é excelente e uma das que mais dá saudades de um tipo de rock n’ roll que simplesmente não é mais feito. Que bom que temos uma banda tão boa quanto a Lucifer para matar essa vontade de novas músicas com essa pegada.
Quando quase toda a banda sai do palco aos gritos de “Lucifer, Lucifer, Lucifer”, o baterista Kevin Kuhn continua e toca pedacinhos de “We’re Not Gonna Take It”, do Twisted Sister, e “Run to the Hills”, do Iron Maiden. As referências foram absolutamente bem escolhidas, pois a intro de “Bring Me His Head”, que viria a seguir, é muito similar à da música do Twisted Sister, e a progressão de acordes da música é a clássica “mi-dó-ré” do Iron Maiden, mas em tom um pouco mais grave, sendo um “ré-dó-si bemol”. A música foi outra das que o público mais curtiu, cantando o refrão muito alto.
A seguir, veio um excelente cover de “Goin’ Blind”, do Kiss, no qual todos os integrantes da banda tiveram destaque: a voz de Johanna casou maravilhosamente bem com a música e as duas guitarras foram brilhantes ao emular os bons tempos da parceria entre Paul Stanley e o saudosíssimo Ace Frehley, que tem nessa música um de seus melhores solos.
Para encerrar uma noite dedicada a homenagear um período tão especial da história da música, nada melhor do que uma música pesada, direta e inspirada como “Fallen Angel”, outra que contou com um público super animado e cantando o refrão. É verdade que o show foi curto, com apenas uma hora, mas ela foi suficiente para lembrar até o mais pessimista fã de rock que ainda temos bandas excelentes que não precisam apelar para afinações quarenta tons mais baixas ou um pedal duplo sem propósito para soarem pesadas. É verdade que o rock respira por aparelhos, mas a Lucifer é uma das bandas mais dedicadas a fazer com que esses aparelhos ainda demorem para ser desligados.
Repertório
Anubis
Ghosts
Crucifix (I Burn For You)
Riding Reaper
Wild Hearses
Lucifer
At the Mortuary
Slow Dance In a Crypt
The Dead Don’t Speak
California Son
Bring Me His Head
Goin’ Blind (cover do Kiss)
Fallen Angel
