[Cobertura] Smith/Kotzen: duo estreia no Brasil com showzaço em Curitiba

Smith/Kotzen
Tork n’ Roll
24 de abril de 2026
Curitiba/PR

Por Luís Bocatios
Fotos de Clovis Roman (fotos no Bangers Open Air, 2 dias depois do show em Curitiba)

Na noite de sexta-feira, 24 de abril, o Tork n’ Roll, em Curitiba, recebeu o primeiro show da dupla Smith/Kotzen em território brasileiro. Formado em 2021, o projeto é capitaneado pelos guitarristas Adrian Smith (Iron Maiden) e Richie Kotzen (Mr. Big, Poison, The Winery Dogs), que recrutaram os brasileiros Bruno Valverde e Julia Lage para formar a cozinha; Valverde na bateria, Lage no baixo. O autointitulado primeiro álbum foi lançado em 2021, e o mais recente, Black Light / White Noise, em 2025.

Trata-se de um retorno ao rock setentista, misturando influências como Eagles, Thin Lizzy e Bad Company — da qual, inclusive, a música “Bad Company” serviu como a “Doctor, Doctor” nos shows do Iron Maiden. Mesmo que algumas canções remetam a composições recentes que Smith entregou no Maiden, a maior parte das músicas carrega pouquíssimas semelhanças com o trabalho da banda britânica.

A plateia, aliás, estava repleta de camisetas do Maiden, mas o público estava bastante receptivo à sonoridade diferente proposta pelo projeto. Ouviam-se conversas do tipo “e não é que o som é maneiro mesmo?”, certamente entre pessoas que foram ao show apenas para ver Smith de perto e nem se deram ao trabalho de ouvir o som da dupla.

Por sorte, é um som super direto que já captura o público pela garganta na primeira audição. A primeira música já demonstra isso com louvor: “Life Unchained” é uma das que lembra um pouco Iron Maiden, com um riff que remete ao de “Speed of Light”, que Smith compôs ao lado de Bruce Dickinson e foi lançada no excelente The Book of Souls, de 2015. A música tem um excelente refrão e solos de guitarra de alto nível, como seria costume ao longo da noite.

A trinca de abertura, totalmente formada por músicas de Black Light / White Noise, foi completa pelas ótimas “Black Light” e “Wraith”, esta última com uma pegada grandiosa e destaque para a bela performance de Bruno Valverde. Em seguida, “Glory Road” surge como uma música que deu azar, pois se tivesse sido lançada nos 1970 seria um grande hit mundial: excelente composição com uma pegada de southern rock, a canção traz um magnífico “duelo” de solos de guitarra, que foi estendido ao vivo e se tornou um dos grandes momentos do show.

“Hate and Love” traz uma bela performance de Julia Lage, enquanto “Blindsided” tem os melhores solos de guitarra da noite e momentos nos quais Valverde mostra discretamente suas garras de baterista de metal progressivo. “Taking My Chances”, do primeiro álbum, é mais uma bela música com um ótimo refrão, que foi o momento que o público mais cantou — tirando, obviamente, o final, mas ainda chegaremos lá.

A dobradinha que veio a seguir trouxe mais músicas que remetem bastante ao rock norte-americano dos anos 1970: a ótima “Outlaw” foi o melhor momento de Kotzen no show, deixando até Smith admirado ao observar seu parceiro de palco solando; já “Darkside” começa com riff muito similar ao de “The Writing on the Wall”, lançada pelo Iron Maiden em Senjutsu, de 2021. Os versos têm a mesma progressão de acordes da música do Maiden, mas a música do Smith/Kotzen segue um caminho mais de balada — mesmo que o solo, assim como na música de 2021, seja espetacular, uma composição dentro de outra composição.

“Got a Hold on Me” começa interessantíssima, com Adrian usando um slide guitar, recurso raro em sua carreira, mas logo ela progride para um rock pesado e rápido sem muita criatividade, apesar de competente. “White Noise”, por sua vez, talvez seja a melhor música lançada pela dupla: com um riff pesadíssimo cuja estrutura remete à maravilhosa “Cinnamon Girl”, de Neil Young, a música mantém um nível altíssimo do início ao fim, com versos tensos, excelentes performances vocais dos dois cantores e, pra variar, solos de guitarra fantásticos, incluindo momentos harmonizados brilhantes.

Falando em guitarras harmonizadas, a balada “Scars” é competente do início ao fim, mas é elevada em sua segunda metade por causa dos magníficos solos e, em seguida, duetos de guitarra. A última música antes do bis foi a boa “Running”, que Smith apresentou como a primeira música que a dupla compôs em parceria.

O bis ficou por conta de uma música da carreira de cada um: a primeira foi “You Can’t Save Me”, balada um tanto quanto genérica de Kotzen que tem como principal trunfo uma bela performance vocal. “Wasted Years”, por sua vez, foi uma catarse coletiva, unindo todos os fãs do Iron Maiden em um coro ensurdecedor, especialmente no refrão, que, todos já sabem, é um dos mais bonitos, gloriosos e brilhantes do metal.

Mesmo os fãs do Iron Maiden que foram apenas para ver Smith de perto certamente aproveitaram um show tão competente e fácil de agradar; e, caso não tenham gostado das músicas do projeto paralelo de Smith, saíram de lá em êxtase após um dos maiores clássicos do Maiden.

Repertório

Life Unchained
Black Light
Wraith
Glory Road
Hate and Love
Blindsided
Taking My Chances
Outlaw
Darkside
Got a Hold on Me
White Noise
Scars
Running
You Can’t Save Me
Wasted Years

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