[Cobertura] Dream Theater dribla piada e faz show vibrante em turnê de disco sobre distúrbios do sono

Dream Theater
05 de maio de 2026
Live Curitiba
Curitiba/PR

por Clovis Roman

O Dream Theater é a maior e melhor banda de prog metal de todos os tempos. Ninguém chega nem perto. São mais de 40 anos de carreira, considerando o início em 1985, ainda com Majesty como alcunha. O atual nome veio em 1988, e a estreia discográfica, no ano seguinte, com When Dream and Day Unite. Mas foi em 1992, com Images and Words, que a banda estourou mundialmente e segue sendo uma gigante desde então. Com altos e baixos, a banda sempre manteve o trio da linha de frente inalterado: James LaBrie (voz), John Petrucci (guitarra) e John Myung (baixo). O mago das teclas, Jordan Rudess entrou em 1999 e Mike Portnoy, outro membro original, que havia saído em 2010, retornou em 2023.

Se em dezembro de 2024, a banda passou pelo Brasil com uma turnê especial celebrando quatro décadas de estrada, agora, vieram com um novo – e excelente – álbum debaixo do braço. Parasomnia é um trabalho sólido, sem músicas fracas e ao menos duas que devem entrar no hall de clássicos logo menos: a explosiva “Night Terror”, do nível dos clássicos do passado, e a épica “The Shadow Man Incident”, que inclusive contou com o referido personagem como elemento no palco, na forma de um gigante inflável que, estático, trouxe uma contextualização empírica para a letra, que versa sobre os terrores da paralisia do sono.

Jordan Rudess (foto: Clovis Roman).

Além da execução de Parasomnia na íntegra, logo na abertura, e da suíte “A Change of Seasons”, do EP homônimo, passaram por um punhado de discos, tocando basicamente uma de cada: Black Clouds & Silver Linings (2009), Dream Theater (2014), Falling Into Infinity (1997), Images and Words (1993) e Systematic Chaos (2007). Do magnânimo – e possivelmente o melhor álbum da história da música, Metropolis, Pt. 2: Scenes From a Memory, foram duas: “Act I: Scene Three: I. Through My Words” e “Act I: Scene Three: II. Fatal Tragedy”, todavia, esta primeira é como fosse uma breve introdução para a subsequente. O clima tenso foi entoado em coro com emoção pelo público, que vibrou mais justamente neste segundo bloco que funcionou como um breve – mesmo que tenha durado mais de uma hora – “best of” da carreira da banda.

John Myung (foto: Clovis Roman).

As cidades visitadas pela banda em 2024 tiveram um repertório completamente diferente dessa vez, com exceção da nova “Night Terror”. Portanto, Curitiba (que os recebeu há menos de 2 anos e presenciava o grupo ao vivo pela 6ª vez) testemunhou pedradas com “A Rite of Passage” (pela primeira vez na capital paranaense desde o show de estreia deles por aqui, em 2010); “Take the Time” (também ausente por aqui há 16 anos), aqui sem a ponte com tons altíssimos da original; a pesada e intrincada “The Dark Eternal Night” e “The Enemy Inside”, única da fase Mangini, mostrando que o Dream Theater não tenta apagar seu passado após o retorno de um integrante original à formação. Ainda rolou a de certa forma inesperada “Peruvian Skies”, uma viagem progressiva que abraçou trechos de Pink Floyd e Metallica em seu decorrer.

John Petrucci (foto: Clovis Roman).

Não tinha como prestigiar todos os discos, e isto já tinha ficado claro no vídeo apresentado logo antes do início do segundo ato: eram apresentadas imagens dos álbuns da banda, e quando chegou ao frame referente a Dream Theater, de 2014, no qual está “The Enemy Inside”, o vídeo terminou para o início da canção. Já estava claro ali que The Astonishing, Distance Over Time e A View from the Top of the World não teriam espaço dessa vez. Da fase pregressa de Portnoy, o monstruoso Awake (1994) e a trinca sequencial Six Degrees of Inner Turbulence (2002), Train of Thought (2003) e Octavarium (2005) também ficaram de fora. Isto que o show durou praticamente três horas.

Após o bloco inicial, apresentando o novo trabalho na íntegra; e o segundo, com um compilado de grandes momentos da carreira, o ato final reservou a execução de apenas uma faixa: a extensa “A Change of Seasons”, raramente apresentada ao vivo em seus 23 minutos de totalidade. A obra-prima foi composta no início dos anos 1990 e saiu oficialmente apenas em 1995, em um EP homônimo. É uma espécie de hit cult, tão aguardada pelos fãs nos shows como era “Alexander the Great” com o Iron Maiden. O público cantou junto e curtiu, mas em geral ficou mais imerso na experiência, com um comportamento mais contemplativo – até porque é impossível agitar e gritar incessantemente por duas dúzias de minutos. A performance foi, obviamente, soberba tecnicamente, com a pequena impressão que foi tocada um pouco mais rápida que a original e a incursão de uma breve citação a When the Water Breaks, do Liquid Tension Experiment e A Fortune in Lies, do próprio Dream Theater. Impossível não se emocionar, sendo você um ser humano funcional.

James LaBrie (foto: Clovis Roman).

Encerro o relato com o mesmo parágrafo por mim escrito na resenha que fiz em 2024, e cujo argumento usei em tantas outras prévias resenhas de shows que fiz dessa banda nas últimas décadas: “Quem argumenta que o som da banda não efunde sentimento, nunca ouviu de maneira apropriada o trabalho do quinteto. Não tem como. Traço um paralelo com a geração TikTok, que consome conteúdos curtíssimos e sem conteúdo, pela total falta de interesse em fazer uma imersão em obras artísticas mais robustas – a pressa é inimiga da perfeição”.

Repertório
In the Arms of Morpheus
Night Terror
A Broken Man
Dead Asleep
Midnight Messiah
Are We Dreaming?
Bend the Clock
The Shadow Man Incident

The Enemy Inside
A Rite of Passage
Act I: Scene Three: I. Through My Words
Act I: Scene Three: II. Fatal Tragedy
The Dark Eternal Night
Peruvian Skies
Take the Time

A Change of Seasons: I The Crimson Sunrise
A Change of Seasons: II Innocence
A Change of Seasons: III Carpe Diem
A Change of Seasons: IV The Darkest of Winters
A Change of Seasons: V Another World
A Change of Seasons: VI The Inevitable Summer
A Change of Seasons: VII The Crimson Sunset

Deixe um comentário