[Resenha] Big Big Train – Woodcut

Big Big Train – Woodcut
(Shinigami Records)

por Clovis Roman

A banda Big Big Train tem mais de 35 anos de estrada, e eu nunca tinha ouvido falar deles. Ao terminar as repetidas audições de Woodcut  – o 16º álbum de estúdio do grupo – ficou claro que eu perdi um valioso tempo na minha vida. Mas antes tarde do que nunca. Ao pegar o CD em mãos e observar a capa, já fui posicionado no clima correto, ao imaginar algo na linha Prog rock, meio psicodélico, com toques suaves de jazz e retrogosto folk. E é exatamente isto que eles entregam, com um bom gosto raríssimo.

Combinar tantos elementos em um disco extenso – Woodcut tem mais de uma hora de duração, com um total de 16 canções – sem soar cansativo é tarefa para poucos. E o septeto consegue isto sem fazer esforço. Inclusive, ouvi-lo repetidamente é sempre um deleite, como se entrássemos em uma viagem etérea por diversas paisagens abstratas.

Botando na mesa logo de cara todas as suas cartas, “The Artist” parece um catálogo de tudo o que eles assimilaram em sua obra, em uma faixa que vai para lá e para cá, sem perder o rumo. É uma mescla de Opeth com Jethro Tull e Subterrean Masquarade (com menos jazz, todavia) muito agradável e envolvente. Com melodias vocais grandiosas e honestas, “The Lie of the Land” é quase um interlúdio que prepara o terreno para “The Sharpest Blade”, que vai fundo no folk e tempos medievais, mas que ainda tem espaço para um trecho mais pesado em seu minuto final, com um riff de guitarra grandioso.

Com o prog retomando as rédeas, nos deparamos com uma melodia meio “tema dos Flinstones” na linha de baixo e metais de “Albion Press”, que se repete ainda mais evidente nas linhas vocais no início de “Dreams in Black and White” e no piano derradeiro em “Arcadia”. Essa viagem musical às vezes esbarra na música pop, mas sempre com organicidade e probidade. Curiosidade: a Albion é um modelo de prensa tipográfica manual de ferro antiga, usada por anos para impressão de livros. 

“Cut and Run” começa mais rock and roll, com uma pegada orientada ao Deep Purple. E quando você acha que entendeu tudo, “Warp and Weft” traz camadas de vocais absurdas, no melhor estilo Yes, Uriah Heep e Bee Gees, costuradas por teclados densos e psicodélicos, como fosse uma grande jam aberta para improvisos criativos. Para desaquecer e entregar um clima suave no fim do disco, “Counting Stars” é um tema mais emotivo e tranquilo, enquanto “Last Stand” traz um pouco mais de guitarras, e se encerra com um mesmo trecho ouvido na primeira música – depois da intro -, “The Artist”, fechando o ciclo.

Sobre o conceito da obra: “Woodcut conta a história de um personagem que chamamos de O Artista, que está lutando com a sua criatividade e com a vida. Um dia, ele consegue criar uma xilogravura que considera bela e diferente. Talvez seja um sonho ou talvez seja a vida real, mas ele se vê entrando na cena da xilogravura e em um mundo alternativo”, comenta Gregory Spawton, membro original e responsável por cordas e teclas. Daí, entendemos os nomes de músicas como “The Albion Press” e “Second Press”. Por sua vez, “Hawthorn White” é também o título de um poema do inglês Charles Causley, que contrapõe uma vida material de riqueza às realidades naturais e humilhantes da natureza. A disgrafia e a história do Big Big Train é bastante rica, e merece um mergulho profundo. Comece com Woodcut e a vontade de embarcar nesse trem se tornará irresistível. 

A capa é uma xilogravura – gravura em relevo que utiliza a madeira como matriz para reproduzir imagens e textos sobre papel ou similar – feita por Robin Mackenzie. Inclusive, você pode comprar um print dessa arte diretamente no site do artista.

Compre o CD: https://www.lojashinigamirecords.com.br/p-9503767-Big-Big-Train—Woodcut

Músicas

  1. Inkwell Black
  2. The Artist
  3. The Lie of the Land
  4. The Sharpest Blade
  5. Albion Press
  6. Arcadia
  7. Second Press
  8. Warp and Weft
  9. Chimaera
  10. Dead Point
  11. Light Without Heat
  12. Dreams in Black and White
  13. Cut and Run
  14. Hawthorn White
  15. Counting Stars
  16. Last Stand

Capa: Reprodução de arte de Robin Mackenzie

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