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No dia 1º de julho, a editora Belas Letras lança no Brasil Sound Man: Uma vida gravando com Beatles, Rolling Stones, The Who, Led Zeppelin, The Eagles, Eric Clapton, The Faces e outras lendas da música, autobiografia de Glyn Johns — um dos nomes mais importantes e discretamente decisivos da história do rock. Engenheiro de som e produtor responsável por participar de algumas das gravações mais emblemáticas do século XX, Johns abre os bastidores de uma carreira construída dentro dos estúdios, revelando como testemunhou o desconforto no relacionamento dos Beatles nas gravações de Let it Be, as dificuldades em trabalhar com a equipe de Bob Dylan, seu papel no primeiro álbum do Led Zeppelin e situações inusitadas com Mick Jagger no estúdio.
Ao longo do livro, Johns reconstrói encontros e gravações históricas com uma combinação de precisão técnica, memória afetiva e humor britânico. Entre os episódios mais marcantes está sua experiência ao lado dos Rolling Stones durante as sessões dos anos 1960. Em uma gravação de “Let’s Spend the Night Together”, no estúdio Olympic, dois policiais interromperam inesperadamente a sessão após encontrarem a porta aberta do prédio. Enquanto Mick Jagger gravava cercado pela fumaça de seu baseado e sem perceber a presença dos agentes, o empresário Andrew Oldham reverteu a situação: pegou emprestados os cassetetes dos policiais e os colocou nas mãos de Mick para gravar uma percussão improvisada que acabou permanecendo na versão final da música.
Outro momento central do livro acontece em 1968, quando Johns recebe uma ligação que inicialmente acreditou ser uma brincadeira de Mick Jagger: era Paul McCartney convidando-o para trabalhar com os Beatles. O engenheiro relembra os primeiros encontros da banda durante as sessões que dariam origem ao turbulento período de Let It Be e descreve a dinâmica interna do grupo já em seus momentos finais. Entre as memórias mais reveladoras está a presença constante de Yoko Ono nos ensaios e o ambiente delicado e desconfortável de uma banda tentando continuar funcionando enquanto lidava com mudanças irreversíveis.
Johns também revela um lado pouco conhecido da história de Let It Be. Depois de desenvolver uma proposta de edição e mixagem para o álbum, recebeu autorização de John, Paul, George e Ringo para trabalhar sozinho nas fitas. Seu objetivo era preservar a essência da banda tocando junta. O resultado, porém, nunca chegou oficialmente ao público: posteriormente, as gravações foram entregues a Phil Spector, cuja abordagem transformou radicalmente o material. Décadas depois, essa disputa estética se tornaria um dos capítulos mais debatidos da discografia dos Beatles.
Entre os relatos está também o nascimento do Led Zeppelin. Quando Jimmy Page entrou em contato convidando Johns para gravar o álbum de estreia de uma nova banda formada com John Paul Jones, Robert Plant e John Bonham, ninguém imaginava o impacto que aquele encontro teria. O produtor descreve o processo como uma experiência quase inacreditável: em apenas nove dias registraram um disco que redefiniria os parâmetros do rock pesado. Para Johns, a sensação era menos de produzir e mais de testemunhar algo extraordinário acontecendo diante de seus olhos.
A obra também aborda a dificuldade de Johns para produzir o álbum Real, de Bob Dylan, em 1984. Glyn foi praticamente jogado fora do palco pela equipe de Dylan enquanto posicionava os microfones no show na França, sendo salvo pela intervenção de Bill Graham. A conversar com Dylan, que se mostrou simpático e disposto, conseguiu melhorar a situação e fazer seu trabalho.
O livro percorre ainda histórias com Eric Clapton, The Eagles e The Faces, além de bastidores de Who’s Next, clássico do The Who cuja capa — hoje uma das mais reconhecidas da história do rock — também ganhou forma diante dos olhos do produtor.
Mais do que um livro de memórias, Sound Man funciona como uma história paralela da música popular contada por alguém que estava dentro da sala quando tudo aconteceu. Em vez de mitificar excessos ou alimentar lendas, Glyn Johns mostra como discos históricos nasceram de decisões técnicas, encontros improváveis e momentos de pura criatividade.
O livro chega ao site da editora e aos principais parceiros, como Travessa, Livrarias Curitiba, Martins Fontes, Livraria da Vila e Amazon, a partir de 1º de julho de 2026.
Foto: Divulgação
