[Cobertura] Barão Vermelho: o rock rolou direto na reunião com Frejat e Dé Palmeira

Barão Vermelho
29 de agosto de 2026
Igloo Super Hall
Curitiba/PR

Por Luís Bocatios

É possível afirmar que a turnê de reunião do Titãs, que aconteceu entre 2023 e 2024, foi uma das mais bem-sucedidas da história da música brasileira. Era questão de tempo até que a onda de reuniões chegasse a outras bandas do Brasil, e uma delas estava fadada a ser o Barão Vermelho.

Mesmo que a saída de Roberto Frejat, que ocorreu no início de 2017, seja relativamente recente em comparação a alguns membros dos Titãs (Arnaldo Antunes saiu em 1991 e Nando Reis em 2002), o Barão sofreu mais sem seu frontman do que os Titãs sofreram com qualquer saída.

Não que o substituto, Rodrigo Suricato, tenha feito um mau trabalho, muito pelo contrário; os shows trouxeram um resgate de músicas que haviam sido esquecidas nos últimos anos de Frejat e o único álbum de inéditas que a banda lançou com Suricato, VIVA! (2019), é o melhor do grupo desde Carne Crua (1994). 

A trajetória, aliás, foi bem mais interessante do que a empreitada solo de Frejat, que soa como uma eterna turnê de divulgação do Balada MTV do Barão Vermelho e não chega nem perto de fazer jus ao seu imenso talento como guitarrista e compositor. Em resumo, Barão sem Frejat não é a mesma coisa, e Frejat sem Barão menos ainda. A reunião ainda contou com o retorno especial do baixista Dé Palmeira, outro membro da formação original, que deixou a banda no final dos anos 1980.

Com todas as peças na posição correta, não havia nenhuma dúvida de que o show seria um sucesso absoluto não apenas de público mas também de qualidade. Com uma escolha certeira de repertório, que passeia pelo belíssimo catálogo da banda até a metade dos anos 1990, o Barão entregou duas horas da mais pura essência do rock n’ roll brasileiro.

O início foi arrebatador, com o arrasa-quarteirões “Maior Abandonado” sendo executado apenas pelos quatro membros originais e instalando um clima de festa que já deu o tom da noite. Com o resto dos músicos já no palco, a noturna e ligeiramente melancólica “Pedra, Flor e Espinho” foi uma das melhores tanto pela interpretação vocal de Frejat quanto pelo peso das guitarras, que soaram muito mais robustas do que na gravação original da música, de Supermercados da Vida (1992).

O clima de festa voltou em “Pense e Dance”, que contou com um dos maiores coros da noite. A seguir, a ótima dobradinha “Política Voz” e “Tão Longe de Tudo” representou o álbum Na Calada da Noite (1990). Os violões agressivos e os acordes abertos escolhidos por Frejat em ambas as canções talvez sejam a influência mais explícita de The Who no rock brasileiro.

“Bete Balanço”, como era de se esperar, contou com um coro ensurdecedor e uma ótima performance da banda, incluindo um inspirado solo estendido de Frejat ao final da música. Como é bom ver um dos maiores guitarristas do rock brasileiro de volta a seu habitat natural!

Falando nisso, o pesado riff inicial de “Meus Bons Amigos” levou o público à loucura, em outro dos momentos mais especiais da apresentação. O apoteótico refrão foi entoado a plenos pulmões e Fernando Magalhães, que faz parte da banda desde 1985 mas está na turnê como músico de apoio, apresentou um solo de guitarra brilhante.

A ‘stoneana’ “Ponto Fraco”, do primeiro disco, contou com o clássico anúncio de Frejat: “agora o rock vai rolar e é direto”. Não foi tão celebrada assim pela plateia, mas, para os fãs da fase inicial, certamente foi um dos melhores momentos da noite. Em contraponto, o cover de “Tente Outra Vez”, de Raul Seixas, foi bastante aclamado, mesmo que um pouco deslocado.

A volta aos primórdios continuou com “Eu Queria Ter Uma Bomba”, que foi precedida por um pequeno improviso de Frejat à lá Jimi Hendrix. A música em si é ótima e foi mais bem-recebida pelo público do que “Ponto Fraco”, mas menos do que “O Tempo Não Para”, que veio logo em seguida e teve mais um excelente solo de Frejat, mesmo que bem diferente do icônico solo da gravação original da música, do guitarrista Luciano Maurício.

 O guitarrista e vocalista continuou em destaque na dobradinha a seguir, que foi anunciada por ele com “agora a gente vai tocar blues”. A primeira foi “Quem me Olha Só”, única representante de Rock n’ Geral (1987), que foi dedicada a Serginho Trombone por sua importância em incentivar a banda a utilizar instrumentos de sopro. O timbre da stratocaster de Frejat brilhou.

O blues continuou com “Down Em Mim”, primeira música que o Barão Vermelho tocou como banda — e talvez a melhor de todas. A clássica introdução de teclado, tocada brilhantemente por Maurício Barros, só não supera em emoção o antológico solo de guitarra, que Frejat executou com um feeling absurdo. 

Em seguida, a emoção foi geral com Cazuza aparecendo no telão para fazer um dueto com Frejat em “Todo Amor Que Houver Nessa Vida”, nos mesmos moldes do show de Paul McCartney, quando John Lennon aparece cantando “I’ve Got a Feeling”. A homenagem a Cazuza continuou na linda “Codinome Beija-Flor”, novamente com destaque para Maurício Barros, que brilha no teclado.

A sequência veio com a balada “Por Você”, um dos maiores sucessos, que foi cantada em coro pela plateia. Após isso, Guto Goffi apresentou a banda, agradeceu aos presentes e relembrou figuras pouco reconhecidas mas importantíssimas na história do Barão, citando o nome de roadies e técnicos de som. Ele emendou em um solo de bateria dispensável.

A única parte questionável do repertório veio logo em seguida, com os covers “Amor, Meu Grande Amor”, de Angela Ro Ro; “Vem Quente Que Eu Estou Fervendo”, de Erasmo Carlos, e “Malandragem Dá um Tempo”, de Bezerra da Silva, cantada por Maurício Barros, que apresentou a banda de apoio após o final da música. Os covers foram divertidos o suficiente para evitar reclamações, mas, em uma turnê tão especial, seria muito mais interessante trazer alguns lados B dos primeiros discos da banda, como a divertidíssima “Billy Negão” ou a excelente “Certo Dia na Cidade”.

Em compensação, a dobradinha a seguir, do álbum Declare Guerra (1986), foi sensacional, mesmo que o público não parecesse tão familiarizado com as canções. “Torre de Babel” talvez tenha sido a música que mais cresceu em relação à gravação original, com guitarras pesadíssimas que a transformam em um hard rock. Já a faixa-título do álbum de 1986 é bem menos pesada mas igualmente brilhante, especialmente em seu glorioso refrão, um dos melhores do rock brasileiro.

Talvez o último hit da banda, “Cuidado”, é um rock simples e não tão inspirado, mas foi bem aceito e formou uma boa dupla com a divertida “Não Me Acabo”, segunda e última representante de Carnaval (1988) no repertório. As últimas músicas antes do bis foram “Quando o Sol Bater na Janela do Teu Quarto”, da Legião Urbana, também cantada em coro pela plateia, e “Puro Êxtase”, que botou todo mundo pra dançar.

O retorno para o bis foi especialíssimo, com apenas um violão e a voz dos quatro membros originais cantando “Bilhetinho Azul”, canção tão singela quanto eficiente. Com o restante da banda de volta, a emotiva e belíssima “O Poeta Está Vivo” foi outra que emocionou muito a plateia, especialmente quando a foto de Cazuza aparece no telão. O fantástico solo de Fernando Magalhães foi executado com brilhantismo e estendido por alguns compassos, com um timbre impecável saindo de sua Les Paul.

As duas últimas músicas foram a festa geral: “Por Que a Gente É Assim?”, também muito mais pesada do que a gravação original, levou o público à loucura e “Pro Dia Nascer Feliz”, talvez o grande hino da banda, foi a catarse completa e mandou os presentes pra casa com o desejo de que esse encontro volte a acontecer com frequência. O Barão merece, Frejat merece, Dé Palmeira merece e os fãs merecem.

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