Angra
25 de setembro de 2026
Live Curitiba
Curitiba/PR
Por Luís Bocatios
Por mais que as mudanças de formação no Angra sejam quase tão frequentes quanto álbuns lançados, o primeiro show com um novo vocalista em uma cidade tão frequentrada pela banda não deixa de ser uma ocasião importante. O show da última sexta-feira na Live Curitiba, portanto, foi um momento histórico: pela primeira vez, a formação com Alírio Netto se apresentou para o público curitibano.
Mesmo que haja uma certa confusão no ar em relação aos planos do Angra para o futuro (disco novo com Alírio? Reunião com Edu Falaschi? Kiko Loureiro de volta? Mais um hiato?), a primeira turnê com Alírio está sendo mais uma de celebração ao passado, algo que a banda vem se especializando há mais de uma década. Neste caso, é a segunda turnê em celebração ao clássico Holy Land, que já foi homenageado em 2016, quando completou 20 anos, em uma turnê especialíssima que contou com a participação da icônica cozinha que gravou o disco: Luís Mariutti no baixo e Ricardo Confessori na bateria.
Mesmo que o magnífico álbum mereça todas as reverências possíveis, há de se questionar se uma segunda turnê comemorativa do mesmo trabalho não é um pouco redundante artisticamente, especialmente para uma banda que vem de dois trabalhos de estúdio tão inspirados quanto OMNI, de 2018, e Cycles of Pain, de 2023. Além do mais, a turnê de 20 anos ainda tinha o atrativo de Mariutti e Confessori, o que automaticamente a torna bem mais interessante.
Isto posto, uma coisa é questionar a realização de uma turnê, outra é analisar o show baseado unicamente em suas pré-concepções, sejam elas positivas ou negativas. O fato é que se torna repetitivo analisar individualmente cada show do Angra: todos já sabemos que a técnica de Marcelo Barbosa é impecável, que Felipe Andreoli é um dos baixistas mais virtuosos do mundo, que Bruno Valverde é um assombro na bateria e que Rafael Bittencourt, o gênio criativo da banda, nunca decepciona.
O grande fato novo é mesmo Alírio Netto, vocalista conhecido por sua passagem pelo Shaman e pelo Queen Extravaganza, no qual cantava o repertório eternizado na voz de Freddie Mercury. Nesse sentido, a escolha por uma turnê celebrando Holy Land acaba fazendo sentido, visto que o álbum é um dos mais difíceis de cantar na carreira do Angra e encaixa com o estilo vocal de Alírio, que consegue chegar nas notas mais agudas registradas em estúdio por André Matos.
Isso é comprovado logo de início com “Nothing to Say”, um dos grandes clássicos do Angra. Mesmo com algumas mudanças de melodia que soam um tanto estranhas a ouvidos já acostumados com a gravação de estúdio, o vocalista mostra que, se a preocupação dos fãs era com alcance vocal, ela era em vão. Em seguida, a esplêndida “Silence and Distance” foi outro momento de destaque para Alírio, que cantou e tocou no piano a emocionante introdução da música. Uma das mais desafiadoras do álbum, a canção é repleta de andamentos incomuns que criam um clima de tensão, liberado gloriosamente no refrão. A performance de Bruno Valverde, impecável, é peça chave para que todos os elementos fluam com maestria, se mantendo fiel ao arranjo criado por Ricardo Confessori.
A dobradinha que veio a seguir é quase uma covardia: a progressiva, gigantesca e monumental “Carolina IV”, uma das grandes composições da história da música brasileira, só não foi absolutamente perfeita porque o vocalista pegou uma pausa no meio da música para brincar de Freddie Mercury, fazendo com que a plateia repetisse seus cantos. A ideia em si é bastante comum em shows de rock, mas ninguém nunca viu Mercury fazendo isso na pausa de “Bohemian Rhapsody”, não é? De resto, a banda consegue executar ao vivo todas as mudanças de ritmo e de estilos musicais presentes na composição, uma das que melhor uniu o metal às brasilidades, com direito a uma brilhante citação a Eumir Deodato e ao melhor momento do percussionista convidado Guga Machado, que teve espaço para brilhar.
Talvez a obra-prima de André Matos, “Holy Land” pode ser vista como a composição que melhor encapsula o espírito da banda, unindo música brasileira e música erudita em uma embalagem de heavy metal. O arranjo de teclados, flautas e outros instrumentos é tão fundamental para o brilhantismo da canção que ela perde um pouco da força ao ser executada com esses elementos pré-gravados, motivo pelo qual a gravação do Unplugged, que a banda lançou em 2023, certamente é a melhor desde a original. Mesmo assim, a música causou enorme comoção nos fãs mais dedicados à banda, como não poderia deixar de ser.
Já “The Shaman” foi menos celebrada pelo público geral, mas contou com uma performance destruidora de Valverde, que bateu na bateria como se ela lhe devesse dinheiro. “Make Believe”, como sempre, emocionou e botou todo mundo pra cantar, enquanto “Z.I.T.O.”, uma das mais mitológicas da banda (no sentido literal da palavra), passou batida pela maior parte dos presentes, tendo sido cantada apenas pelos fãs mais fervorosos — os mesmos que se emocionaram com a sublime “Deep Blue”, apresentada por Alírio como uma das favoritas de André Matos. Talvez a canção mais subestimada da carreira do Angra, ela tem um andamento mais lento e uma harmonia que chega a remeter ao trabalho que André desenvolveria no também subestimado projeto Virgo. O lindíssimo solo de guitarra, bem executado por Marcelo Barbosa, é um dos pontos altos da carreira de Kiko Loureiro, com uma simplicidade que contradiz os detratores que dizem que ele é só técnica e nada de feeling.
Alírio apresenta a banda e tem seu nome gritado pelo público, que também ovaciona Rafael Bittencourt quando este canta “Lullaby for Lucifer”, a curta faixa de encerramento de Holy Land. Vale citar que o som apresentou problemas ao longo do show inteiro: em alguns momentos mal se ouviam as guitarras e, nessa música, surgiu uma microfonia que incomodou até Rafael, que perguntou se o público também estava ouvindo aquilo ou era só ele.
Finalizada a parte principal do show, Alírio diz que essa formação do Angra vai escrever muitos novos capítulos na história da banda e, logo em seguida, faz uma homenagem a Edu Falaschi dizendo “vamos voltar no tempo?”, por mais irônico que pareça. O episódio pode ser banal, mas também pode ser usado como símbolo de uma certa confusão conceitual do Angra, que não sabe se olha pra frente ou pra trás. A volta ao tempo em questão era a execução de “Stand Away”, uma das faixas de Angels Cry favoritas do público, que estava fora do repertório há mais de uma década por contar com notas agudas demais — o mesmo que aconteceu com “Wuthering Heights”, cover de Kate Bush, que veio pouco depois.
A performance de ambas foi boa, mas há de se lamentar a ausência da magnífica “Never Understand”, que também está fora dos shows há mais de 15 anos e encaixaria perfeitamente na turnê por ser a primeira faixa da banda a inserir elementos de música brasileira. A escolha exatamente das duas músicas mais agudas de Angels Cry soou mais como Alírio querendo provar que consegue chegar nas notas altas do que qualquer outro coisa.
O ponto baixo do show foi a performance do vocalista em “Tide of Changes”, uma das melhores da fase com Fábio Lione. O resto da banda apresentou uma performance impecável, mas Alírio não conseguiu dar conta de toda a potência que Lione imputou na gravação de estúdio da canção. Para alguns essa será uma boa notícia e para outros não, mas a sensação é de que qualquer música dos últimos discos se tornará uma raridade absoluta nos shows da banda com o novo vocalista.
As versões matadoras de “Waiting Silence” e “Angels and Demons”, ambas de Temple of Shadows, mostram que a grande vocação dessa formação parece mesmo ser a execução das músicas da fase Edu Falaschi, que apresentam um nível técnico extremamente desafiador. O final do show veio com os três maiores clássicos: “Carry On”, que voltou a ser tocada do início ao fim, com as notas agudas do final; “Rebirth” e “Nova Era”, que encerraram o show com a mesma familiaridade que marcou praticamente toda a apresentação.
É difícil dizer se o Angra está diferente mas continua o mesmo ou se continua o mesmo mas está diferente. De qualquer forma, ainda é cedo demais para formar uma opinião sobre essa nova fase da banda. Que venha logo um disco novo para que os fãs percam mais dois ou três anos discutindo se “o Angra não é mais o mesmo” ou se “o Angra está melhor do que nunca”.
Repertório
Nothing to Say
Silence and Distance
Carolina IV
Holy Land
The Shaman
Make Believe
Z.I.T.O.
Deep Blue
Lullaby for Lucifer
Stand Away
Tide of Changes pt. I e II
Waiting Silence
Wuthering Heights
Angels and Demons
Carry On
Rebirth
Nova Era
