[Resenha] Hugo Mariutti – This Must be Wrong

Hugo Mariutti – This Must be Wrong
(For Music Records)

Material gentilmente cedido por Hugo Mariutti

por Clovis Roman

Nos anos 1990, Hugo Mariutti despontou na cena underground em bandas como o Wardeath e o Henceforth. No começo do atual milênio, ganhou notoriedade internacional ao integrar o Shaman, com quem gravou dois discos irrepreensíveis: o aclamado Ritual (2002) e o de certa forma injustiçado – principalmente na época de seu lançamento – Reason (2005). Também integrou o Viper por anos, deixando um álbum registrado (o soberbo ao vivo To Live Again – Live in São Paulo).

Em carreira solo, o músico, cantor e compositor dá vazão a outras maneiras de se expressar artisticamente. A estreia veio com A Blank Sheet of Paper, totalmente distante da distorção e peso – sendo calcado em influências como Depeche Mode, Radiohead e até mesmo Chemical Brothers -, e foi financiado pelos fãs em uma campanha de financiamento coletivo. Os seguintes, For A Simple Rainy Day e The Last Dance, tem algo mais de Rock, porém, passeando por vertentes mais amenas do estilo, como o new wave e o britpop. Há melodias e canções que parecem ter saído da mesma época em que o The Beatles estava na ativa.

Em 2025, foi a vez da quarta empreitada solo do artista. This Must Be Wrong – um amálgama do que ele produziu até agora – traz canções um pouco mais extensas, mas ainda enxutas. Estilisticamente, os flertes com o britpop e new wave persistem. Incursões eletrônicas, como a cama sonora em ”Heaven”, elevam a composição, que é basicamente um pop rock belíssimo, com versos apaixonantes. Hugo, como sempre, cuidou de tudo no disco. Gravou os instrumentos de cordas, teclado, compôs e produziu a bolachinha, mas não deixou de contar com amigos como convidados. Entre eles, o irmão Luis Mariutti, que toca baixo em “Sometimes”; o tecladista Junior Carelli em “Smile”; além do baterista Edu Cominato (Mr Big, Jeff Scott Soto), o único outro músico que toca em todo o play.

Conhecido primordialmente como guitarrista, aqui Mariutti também se destaca cuidando das vozes. A performance vocal dele é excelente, bastante agradável e emotiva na medida. Ele pode ser mais melódico, como em “Sometimes”, mais seco, como em “The Younger Man”,e até mesmo interpretar uma canção com leve amargor melancólico, como na saideira “Dusty Frames”. Quem espera algo de mais peso, vai encontrar em “Smile”, mesmo que em calculadas doses homeopáticas. Por outro lado, “Someone Like You” abraça o folk rock, e tem momentos que remetem ao finado projeto da Pitty, o excelente Agridoce.

Sobre as referências, Mariutti comentou em entrevista ao Acesso Music ano passado – conduzida por Luís Bocatios: “Pelo meu trabalho como produtor de trilha de filme, estou sempre ouvindo muitas coisas diferentes, então com certeza essas bandas novas me influenciam. Tem muita coisa legal. Gosto muito do Fontaines D.C, Wolf Alice, e também essas mais antigas. Quando você está fazendo e quando vê o resultado pronto, não percebe. Aí alguém fala que parece com alguma coisa e você pensa: ‘é verdade’”.

E ter estas influências perceptíveis não é algo que deponha contra o artista ou a sua obra, como o mesmo comenta: “Hoje em dia é muito difícil fazer algo que não parece com nada. Acho que tudo já foi feito; se não tudo, muita coisa. Então, eu tento absorver ao máximo todas as influências que tenho. É uma coisa instintiva que em uma hora pareça uma coisa, outra hora, pareça outra”.

A capa transmite certa melancolia, mas de um jeito positivo. Hugo encontrou a imagem – de Giu Daga – pelas redes sociais, e utilizou uma moldura branca, como contraponto ao título da última música do CD. A variedade de influências dá um ar fresco ao trabalho, cuja audição é prazerosa justamente por trazer algum elemento diferenciado a cada faixa. Como um cruzamento de Echo & The Bunnymen e R.E.M. tem versos que poderiam ter sido feitos pelos maiores baluartes do rock dos anos 1980. O rock inglês permeia toda a obra, dando a base para o artista criar algo original, autêntico e agradável. Não sei o que deve estar errado, mas certamente, não é o trabalho de Hugo Mariutti.

Músicas

  1. Heaven
  2. Out of Time (You Dont Know)
  3. This Must Be Wrong
  4. Someone Like You
  5. Smile
  6. Away
  7. Wherever You Go
  8. Alone
  9. Sometimes
  10. The Younger Man
  11. Low
  12. Dusty Frames

Foto: Clovis Roman (2019)

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