Coolritiba mostrou coerência musical e estrutura impecável em sua primeira edição

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festival Coolritiba
Pedreira Paulo Leminski
Curitiba/PR
13 de maio de 2017

por Clovis Roman e Kenia Cordeiro

O Coolritiba apareceu no calendário de shows da cidade com uma proposta diferenciada. Alicerçado na questão da sustentabilidade, o evento ofereceu água gratuita ao público, além de ambientar os espaços espalhados pela Pedreira Paulo Leminski. O lugar ganhou novos ares com tanta mordomia; havia até bancos com estofado, o que foi de grande valia, afinal, para aguentar dez horas é sempre bom um cantinho para recuperar as energias.

O festival foi um sucesso, reuniu artistas grandes e pequenos, boa parte deles com discursos baseados no respeito e nas lutas contra racismo e principalmente, contra a violência contra a mulher. Ao menos três bandas fizeram discursos pungentes sobre a questão, sempre sob aprovação ruidosa da galera.

A primeira atração foi Clarice Falcão, que fez uma apresentação longa, que teve direito até a uma versão morna de “Survivor”, das moças do Destiny’s Child. A densa “Se Esse Bar Fechar”, um de seus melhores momentos como artista da música, ficou de fora. Quem a seguiu no palco principal foi a cantora Céu. Com o céu aberto e sol forte na cara, ela mostrou ser uma artista de várias facetas. Se em estúdio a coisa parece mais baseada em bases eletrônicas, ao vivo, acompanhada de uma boa banda, seu som mutante vira algo mais orgânico, com dose extra de lisergia progressiva. E dessa maneira tudo funciona muito melhor. Sua interpretação visceral em “Rapsódia Brasilis” foi o ponto alto, mas todo seu show foi bastante efetivo. O encerramento veio com “Varanda Suspensa”, debaixo de aplausos.

Segundo palco
O palco Arnica foi montado próximo da entrada, e o espaço foi bem aproveitado. Muita gente parou para ver as bandas que ali tocaram, nomes em ascensão (ou que logo terão maior visibilidade) que mostram que a boa música continua em produção em todo o país. O Naked Girls and Aeroplanes abriu os trabalhos por lá, fazendo um bom show. Depois deles, o Rock and Roll meio doom do Trem Fantasma, que mandou canções do ótimo disco Lapso. Eles foram prejudicados por problemas no som, o que baixou um pouco a empolgação tanto do palco quanto da galera.

O Francisco el hombre, com participação das curitibanas da Mulamba, fizeram um show intenso, com forte discurso feminista e presença de palco performática. O palco ficou pequeno para os grupos, que conquistaram a galera presente. Aliás, havia muita gente na frente do palco nesse momento, e muitos cantando junto. O Trombone de Frutas também teve seu público cativo e atraiu curiosos, assim como a Nômade Orquestra, cujo som é uma verdadeira viagem.

Atrações principais
No palco principal, a terceira atração foi aquela que merecia ter tocado mais a noite, com repertório um pouco maior e mais público: A Banda Mais Bonita da Cidade, cujo nome é um dos mais condizentes com a realidade. O som deles é angustiante e libertador, introvertido, minimalista e cativante. “Potinhos”, por exemplo, abriu o show de maneira apreensiva, que logo se tornou um hino a ser entoado a plenos pulmões. “Tigresa” trouxe o feminismo de volta ao foco, e foi o único momento de maior raiva sonora do repertório. Ao lado de Paulo Miklos eles cantaram três músicas de sua ex-banda, o Titãs, e ainda contaram com ele para tocar “Oração”, maior sucesso da banda mais bonita da atualidade. Como um mantra, a extensa canção de letra curtíssima foi um final apoteótico de um dos melhores shows do festival.

A curitibana Karol Conka mostrou a que veio, fazendo um show praticamente sozinha em cima do palco, sem banda, apenas com um DJ ao fundo. Ela, com sua presença descontraída e bom humor, concentrou as atenções da galera de maneira constante, e manteve em alta a qualidade das atrações do festival. A apresentação furiosa de Conka contrastou totalmente com suas antecessoras: a dupla Anavitória, que se apresentou para seus fãs, sem conseguir segurar a atenção dos ouvintes casuais. Depois veio Projota, cantor que tem estreitos laços com Curitiba, já que gravou um disco ao vivo por aqui há alguns anos. Seu som, um rap com letras amorosas, baixou um pouco a empolgação geral. E isto que ele pegou um horário que concentrava a maior quantidade de pessoas de todo o evento: quem havia chegado cedo ainda estava na Pedreira, e quem decidiu chegar mais tarde já estava por lá. Nem uma cover de Charlie Brown Jr. funcionou tão bem.

O rapper Criolo botou a casa abaixo, incendiando desde a primeira música. Discursos de ode a Bob Marley e contra o racismo e a homofobia inflaram os pulmões da galera. Mesmo tendo recém-lançado (ao menos nas plataformas digitais) seu novo disco de samba, Espiral da Desilusão, Criolo apresentou um repertório com seis músicas de Convoque seu Buda, seu último trampo apenas de inéditas (2014) e quatro de Nó na Orelha, o álbum que o fez explodir nacionalmente. Dele, por exemplo, vieram os hits “Subirusdoistiozin” e a catártica “Não Existe Amor em SP”, o momento mais sorumbático e bonito do repertório. Foram apenas 10 músicas de uma apresentação que acabou abruptamente: no meio de “Bogotá”, ele saiu do palco para não mais voltar; ele foi acompanhado por sua banda após o fim da canção e tudo estava acabado. Final inesperado do show de um artista que sempre surpreende.

A grande atração da noite foi Os Novos Baianos, grupo de suma importância na música nacional, que durante os anos 70 lançou uma sequência espetacular de álbuns. De volta com sua formação original, o conjunto apresentou um repertório que deu destaque à “Acabou Chorare”, seu disco mais aclamado: basicamente todas as músicas dele foram tocadas, como “A Menina Dança”, numa interpretação brilhante de Baby Consuelo (como uma autêntica viagem no tempo, uso aqui o nome da época da cantora Baby do Brasil). Ela também roubou a cena na frenética “Tinindo Trincando”. Moraes Moreira, um ícone da música nacional, teve seu momento ao interpretar “Acabou Chorare”, com sua letra viajada que embalou os presentes. Neste momento a chuva era intensa, mas muita gente nem ligou e ficou dançando sem medo de ser feliz ao som dos baianos. O ás da guitarra, Pepeu Gomes teve momentos de brilho em seus solos de estilo único. Paulinho Boca de Cantor concentrou as atenções ao cantar a viajada “Mistério do Planeta”. O final da apresentação – um tanto precoce – veio com “Besta é Tu”, outro sucesso do disco supracitado.

O público foi embora com a despedida dos Novos Baianos, com direito a fogos de artifício celebrando o sucesso da primeira edição do Coolritiba. Que este tenha vida longa e mantenha as características que marcaram sua primeira edição (e mantenha também os copos ecológicos – e lindos – vendidos por lá, por módicos 5 reais), como a decisão de restringir a quantidade de público para 10 mil pessoas; ficou confortável para todo mundo.

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