O som denso de Lenine fica ainda mais pesado ao vivo!

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Lenine
Teatro Positivo
Curitiba/PR
26 de maio de 2017

por Clovis RomanKenia Cordeiro

Lenine retornou para Curitiba com o seu aclamado show Carbono, que divulga este grande álbum lançado em 2012, e que foi, inclusive, indicado ao Grammy. Esta foi uma das últimas datas dessa turnê, e o show teve este disco quase na íntegra (houve shows onde ele tocou as 11 canções do play), como nos contou o próprio Lenine antes da apresentação: “talvez não tenha uma ou outra“. O repertório foi montado a tarde, na passagem de som.

Um ponto cativante no show de Lenine é o entrosamento quase sobrenatural com sua banda. Ele atribui isto ao tempo de trabalho de conjunto e a afinidade: “Esse núcleo familiar e sonoro que está comigo, me conhece de tal maneira, tão profundamente, que eu não tenho os arranjos fechados, eu tenho as formas. E as formas são por núcleos. A gente entende a música assim. Então eu posso fazer a introdução duas, três, quatro vezes, eu posso começar direto…“. Sendo assim, o show é aberto, e cada noite se torna única, mesmo que as músicas sejam as mesmas. As composições de Lenine, em sua maioria bem pesadas, ganharam ares densos mais ao mesmo tempo acolhedores. Até mesmo canções originalmente gravadas com arranjos mais enxutos – como “Meu Amanhã” – acabaram caindo nos braços do peso que Lenine e banda imprimiram em todo seu extenso repertório. E o curioso foi notar que duas das músicas mais fortes de Carbono: a envolvente “Grafite Diamante” e “Undo”, com seu ar grandioso na linha Led Zeppelin, ficaram de fora do setlist: teriam funcionado divinamente.

A primeira parte do show teve boa parte do disco Carbono, mas Lenine soube entremear estas canções estupendas com hits do passado. Numa tacada de mestre, ele mandou dois grandes sucessos na sequência, e a resposta não poderia ter sido melhor. “Paciência” teve como voz o público, que entoou todos os versos e refrão, num momento sublime que comprovou que o pernambucano não é entrosado apenas com seu grupo de apoio, mas também com o público, que lhe admira incondicionalmente. Sobrou ao músico cantarolar no finalzinho alguns versos de “País Tropical”, de Jorge Ben. A outra foi “Jack Soul Brasileiro”, outra com interação forte entre artista e platéia.

Mais para o fim, outras tantas canções amadas pelo grande público – que apreciou bastante, mas de maneira um tanto quanto apática – apareceram, como a insistentemente pedida “Leão do Norte”, “Se Não For Amor, Eu Cegue” e “Hoje eu Quero Sair Só”. O encerramento veio, já com a galera de pé na boca do palco, com “Castanho”, uma obra de belíssima estrutura e melodia, que veio para encerrar o ciclo do show Carbono: a música foi a primeira e também a última do repertório, que teve um total de 25 músicas.

A obra por seu criador
Lenine nos contou como rola sua afinidade com a banda que o acompanha: “A gente tá tocando há muito tempo, e eles sabem que meu espaço e meu físico são muito reveladores dos arranjos“. Essa troca de informações tácita dá dinamismo ao show e a música apresentada, que tem um ótimo caráter mutável: “Eu para fazer aquele acorde eu tenho que entortar o corpo para chegar. Não que eu procure com o corpo mostrar o acorde, não. Não foi acadêmico o processo. Eu fui descobrindo como fazer. E é cheio de cacoetes mesmo, cheio de cachorradas. Isto fica evidente na hora que você vê. Os músicos que estão comigo me sacam tanto que eles estão vendo o arranjo ser executado com o corpo ali. Se eu mudei, eles mudam junto. Isso dá um frescor no dia a dia; e uma maravilhosa sensação de não estar se repetindo, apesar de estar fazendo o mesmo show“.

Sobre as inúmeras parcerias que fez, Lenine explica as diferenças entre algumas, como por exemplo, a recente com o Capital Inicial: “Foi um convite que partiu de lá, foi o Capital Inicial que me chamou. Nos meus discos sempre têm o convite de cá, são as pessoas que eu digo ‘vem cá fazer’“. E sobre parcerias em seu próximo disco de estúdio, que já está sendo planejado, o artista foi um tanto evasivo: “Eu não posso falar, estou justamente no meio do processo de maturação de um projeto novo. E nesse projeto eu vou querer ter umas pessoas. E aí, se eu adianto para você agora? Não vai ter surpresa nenhuma, eu não vou nem querer mais fazer [risos]”. E ele encerra mostrando como trabalhar com outras pessoas é importante para seu trabalho: “Primeiro: adoro perceber que a música pode ser a arte do encontro, da troca, do coletivo. E adoro confirmar que minha música tem essa capacidade aglutinadora e de adequação“.

A fase Carbono chega ao fim com um triste sabor de despedida. Afinal, com isto sabemos que muitas dessas músicas dificilmente voltarão ao repertório de Lenine. Mas para ele, que trata as músicas como seus filhos, fica a satisfação do dever cumprido, já que suas crias evoluíram e agora vivem por conta própria. E ele conclui dando um resumo de sua obra, que navega nos mais diferentes mares: “Ela sobrevive em diversos nichos de formações diferentes, de culturas diferentes“.

REPERTÓRIO
Castanho
O impossível vem pra ficar
Na pressão
Martelo bigorna
Cupim de ferro
À meia noite dos tambores silenciosos
Meu amanhã
A causa e o pó
Quem leva a vida sou eu
Simples assim
O universo na cabeça do alfinete
Paciência
Jack Soul brasileiro
O Marco Marciano
Quede água?
Olho de Peixe
Magra
Envergo mas não quebro
Se não for amor, eu cegue
Chão
Leão do norte
Candeeiro encantado
Do It
Hoje eu quero sair só
Castanho

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