Zeca Baleiro, o homem de um zilhão de discos

Nenhum comentário

Zeca Baleiro é um cara legal a beça. Além de ser uma simpatia, é um artista completo, cheio de projetos, ideias e trabalhos. Conversamos com ele antes de seu show no 3ºFestival BB Seguridade de Jazz e Blues em Curitiba, e o cara listou uma imensa quantidade de discos e compilações vindouras. Não dá nem pra imaginar de onde ele arranja tempo para fazer tanta coisa. Confira o papo abaixo, onde falamos, além de trabalho, sobre Heavy Metal, música infantil e muito mais.

por Clovis Roman

Você participa de muitos show gratuitos pelo Brasil e também outros com ingressos a preços mais populares, qual é a importância que você acha que este tipo de iniciativa tem sobre a cultura no país?
Acho importantíssimo. Acho que qualquer instituição tinha que ter… e mesmo o estado tinha que prover isto ao povo, porque é uma oportunidade única, tanto pro povo que assiste shows incríveis de graça, como pro artista, que chega a uma determinada fatia de público que normalmente não teria acesso a teatros, casas de shows, onde normalmente os ingressos são bem caros, hoje especialmente. Então eu acho que é um projeto que beneficia todo mundo: público e artista.

Você começou a lançar discos em 1997 e foram muitos por cerca de 10 anos… mas a partir dos dois volumes do O Coração do Homem Bomba, você deu uma desacelerada nesse ritmo… ao menos em relação aos discos de estúdio. Foi algo proposital?
Na real depois do ‘homem bomba’ eu já lancei um tanto de discos. É que talvez não tenham tido a repercussão dos discos iniciais. Ao mesmo tempo eu me envolvi com muitos outros projetos, nos bastidores, produzir discos com o selo Saravá Discos, pelo qual já produzi 21, 22 discos, em 20 anos de carreira. É mais que um por ano. Depois fiz o lançamentos de concertos, a coletânea de trilhas Música para Cinema e Dança, fiz o Chão de Giz ao Vivo [com Zé Ramalho]… Quando o artista chega a um certo momento da carreira ele deixa de ser tão interessante midiaticamente. Alguns mais, outros menos. Mas eu não parei de produzir, é uma média de pelo menos um disco a cada dois anos. Você tem que respeitar as respirações da inspiração. Às vezes você força a barra para fazer um disco a cada ano, as vezes esse hiato tem que ser maior mesmo. Tem que ir administrando, controlando uma certa ansiedade. Não vou compor cinco músicas e lançar, melhor esperar ter um conjunto maior de canções para mostrar. Agora, por exemplo, aproveitando que estou completando 20 anos exatos de carreira discográfica, para lançar primeiramente em formato digital vários álbuns. Dois de duetos com outros artistas sulamericanos, europeus, japoneses, africanos, coisas que eu fiz nesses 20 anos. E também gravações ao vivo, músicas dispersas, sobras de estúdios, músicas que foram gravar para novela e não entraram. Estou aproveitando este momento para jogar ao mundo esta produção que está arquivada. Mas ao mesmo naturalmente estou compondo coisas novas já pensando num disco de estúdio.

Este novo disco ainda não tem data planejada pra sair né?
Não, não. Antes eu quero passar esses próximos seis trabalhando nesses lançamentos, coisas que fiz para filmes, teatros, peças. Tem um projeto de um disco de releituras das minhas próprias canções, talvez até dezembro eu realize. Inéditas mesmo eu acho que vou deixar para o ano que vem. Embora no meio dessas coletâneas que eu estou falando tenha alguma coisa inédita.


Entre todos esses projetos que você falou, você fez dois lançamentos voltados ao público infantil. Como veio esta ideia? Foi proposta externa ou uma necessidade artística ou emocional sua?
Foi mais emocional, são canções que fiz pros meus filhos. Obviamente eu sei, não sou nenhum tolo, que o mercado de música infantil está em expansão – desde palavra cantadas, coisas supostamente mais inteligentes, desde os anos 90… a própria Adriana Calcanhoto fez o Partimpim [pseudônimo da cantora usado em um disco infantil]. Esse projeto é bem antigo, da época que meus filhos nasceram. Minha primeira filha nasceu em 98, o segundo filho em 2000. Desde então compus mais de 100 canções, cançonetas simples, pra criança mesmo. O que é, de certa maneira, artisticamente, uma volta às origens. Eu comecei aos 17 anos fazendo trilhas para um teatro infantil, como Flicts, do Ziraldo. Eu compunha e executava as trilhas. Nunca atuei pois sempre fui um canastrão [risos]. A infância é o único momento que você pode ser louco sem ser internado nem tomar remédio por isso. É um momento de liberdade, experimentação, imaginação; e as canções são bem isto. Lancei o primeiro volume do projeto que se chama Zoró, o Bichos Esquisitos, e tenho mais umas 30 canções com as quais quero fazer um segundo volume, sobre temas variados: comida ruim; sopa de beterraba; paciência, que a criança não sabe bem o que significa. Todas inspiradas nas relações com meus filhos. Mas fiz um pouco tardiamente, uma tem 19 e o outro tem 17 anos, tão nem aí pra música infantil. Tão ouvindo Justin Bieber [risos].

Gostaria de falar sobre duas músicas suas, bastante emblemáticas: A primeira é “Heavy Metal do Senhor”. Como veio a inspiração para compô-la e qual sua relação com este estilo musical, você costuma ouvir?
Já ouvi muito, fui um grande fã de Heavy Metal. Inclusive assisti aqui em Curitiba na Pedreira Paulo Leminski o show do Iron Maiden em 2008. Fui acompanhar meu sobrinho que era fã, e era uma grande oportunidade [de vê-los]. Você tava lá?

Eu tava lá sim!
Showzaço, foi incrível. Tive minha fase né? Tive a fase Blues, mais Rock, a fase do Rock Progressivo. Como ouvinte de música, aos 51 anos, passei por vários períodos. Na minha casa se ouvia de tudo. E aí tive aquele tipo de audição mais seleta, e na adolescência comecei a ouvir Frank Zappa, Eric Clapton, Jeff Beck, Hermeto Pascoal. E tive uma fase Heavy Metal também, influenciado pelos amigos. Foi muito bacana.

A música é uma brincadeira. Usa aquela expressão desse universo para brincar com essa inversão de valores, do que Deus e o Diabo representam, que é um mote muito comum no cordel, no repente, na cultura nordestina. Só que nesse caso a cena vai para os corredores do showbizz brasileiro: Deus é o cara do momento e o Diabo tá por fora.

Toca Raul tem um nome bastante sugestivo, nos fale sobre ela.
Essa música eu passei anos pensando: “Um dia vou fazer”. A música que eu faço não é exatamente Rock, mas ela tem pitadas de Rock também, tem um espírito de Rock, de transgressão, subversão e tal. Então sempre tem os malucos que vão, que também vão em show de samba, e gritam ‘Toca Raul’, que é um jeito de transgredir, de provocar, de dizer “toca alguma coisa aí que seja legal e divirta a gente”. Todo show tem um maluco. Aí em 2007 ou 2008 eu peguei um violão e saiu em 10 minutos, é uma música bem simples. Aliás eu podia tocar ela aqui hoje [e ele, de fato, acabou tocando]. Jazz, Blues e Rock são da mesma família. Criei um monstro, pois se antes eu ouvia antes no fim do show, agora eu ouço no início ‘toca Raul’. Virou uma metalinguagem involuntária [risos].

Em “Era Domingo” você mais uma vez teve cada faixa feita por um produtor diferente. Essa fórmula foi uma busca por novos ares, algo com intuito artístico, ou uma necessidade logística?
As duas coisas. A ideia surgiu em 2012, quando fiz O Disco do Ano. Era um momento que eu estava muito ocupado com produtor de outros projetos, fazendo trilhas e tal. Aí eu deleguei esse trabalho para 13 produtores. É engraçado pois a princípio parece que você vai trabalhar menos, mas você trabalha mais. Você vira gerente de uma produção com 13 produtores e 50 músicos. Eu gostei da experiência, o resultado foi interessante, e eu repeti a empreitada agora no Era Domingo [2016]. Mas as experiências vão se esgotando e você vai abrindo espaço para outras coisas. Agora estou com vontade de fazer um disco com um produtor, ou dois.

Qual artista ou banda você gostaria de ouvir fazendo uma versão de alguma de suas músicas?
Skank! Sou muito fã deles. Ou Luís Melodia.

fotos: Clovis Roman, exceto foto promocional.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s