[Entrevista] Nando Reis defende a perenidade da música em formato físico: “Um disco propõe uma experiência que demanda tempo”

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Nando Reis é um artista de boas relações. Compõe para uma quantidade exorbitante de gente, desde sempre. Tem amigos variados por aí. Tanto que em seu atual álbum, Jardim-Pomar, há mais de uma dezena de convidados. O que poderia virar bagunça no fim das contas se define com uma vasta gama colaborativa onde o resultado final é o que importa. E para Nando, imagino, a música está acima de todo o resto. Tanto que Jardim-Pomar é um de seus melhores trabalhos até agora. Nessa entrevista exclusiva, Nando Reis se aprofunda em peculiaridades do disco. E se prepare que logo vai sair um disco ao vivo dessa turnê!

Sobre o show que ele fará em Curitiba, confira todas as informações aqui.

por Clovis Roman

Jardim-Pomar ser lançado também em K7 foi uma decisão mercadológica, nostálgica, ou há alguma expressão artística em resgatar este formato?
Desde que me tornei independente e com meu selo próprio, tive que aprender e me envolver também com a parte comercial, fiz várias experiências para me entender com um mercado em permanente transformação. A maior dificuldade foi encontrar o espaço para colocar e atingir a parcela do público que ainda se interessava em adquirir o produto físico, já que a música digital vinha tornando a compra do CD uma prática obsoleta.

Nesse mesmo momento, surgiu inesperadamente a volta do interesse pelo vinil, que comprovou que essa ideia do avanço tecnológico não se dá de forma linear, que o suporte físico era fundamental para a compreensão da totalidade da criação artística contida no disco (a sequência das músicas, a relação multissensorial – auditiva, visual, tátil), para a expansão dos significados que se dá na relação do conteúdo sonoro com a arte da embalagem, que é muito mais impactante no LP. Enfim, tudo o que se perdia na música digital.

Um disco, pra mim, propõe uma experiência que demanda tempo, que se dá por absorção cumulativa, que nunca se fixa. Eu faço discos e por isso gosto agora de estar envolvido com o desafio de saber como vende-los, e ser achado por quem queira comprá-los.

“Azul de Presunto” reúne uma miríade de convidados, entre eles, Paulo, Sérgio, Branco e Arnaldo. Desde o “Tudo ao Mesmo Tempo Agora” que os cinco não gravavam juntos, já que Arnaldo saiu logo depois do Titãs. A composição dessa faixa foi fundamentada na vontade de reuni-los todos ou ela já existia quando você os convidou?
Assim que compus a música, sabia que ela deveria ser cantada por muitas vozes. Quando chegou o momento da gravação, convidei meus amigos titânicos, meus filhos e as cantoras que eu admiro (Pitty, Tulipa Ruiz e Luiza Possi), que são grandes artistas com quem nunca havia trabalhado. Gravamos em 2 dias, no primeiro juntei os Titãs com meus filhos, no segundo vieram as meninas. Foi uma farra e eu fiquei muito feliz com o resultado.

Outra música fantástica de Jardim-Pomar é “Concórdia”, que tem uma letra bastante bonita – dela, inclusive, veio o título do álbum. O tema é bastante claro, mas gostaria que você nos contasse o que lhe inspirou a escrever aquelas linhas. E o que o levou a resgatá-la, já que é uma composição oriunda dos anos 90?
Resolvi coloca-la no disco exatamente pela parte do jardim-pomar. Fazia sentido pelo nome do disco. Surpreendentemente e coincidentemente essa é uma expressão ou termo que encontrei em repetidas páginas do livro “A Idade do Serrote”, de Murilo Mendes. Não tive dúvidas e escolhei como palavra-chave para batizar o disco. Essa música é antiga, mas nunca havia sido gravada. Achei que agora era o momento por combinar com tudo que eu havia produzido para este disco.

Outro parceiro seu do passado, que ao passar dos anos volta e meia esteve contigo novamente, é Jack Endino, que neste último disco, além de produzir chegou a tocar guitarra em algumas faixas. Imagino que Jack traga mais contribuições do que apenas “ser o produtor”, certo?
Claro. Jack é um mestre em tirar som e cortar excessos. Gosto muito de trabalhar com ele, é uma relação de mútua admiração. E através dele conheci o Barret, o que foi sensacional para este disco. Apesar de terem forma distintas de trabalhar, Jack combina demais com o trabalho do Barret. O resultado ficou fantástico, muito diferente de tudo o que eu já fiz.

Jardim-Pomar conta com participações de Mike McCready (Pearl Jam/Neil Young) em “Pra Onde Foi?” e Peter Buck (R.E.M.) na Rock and Roll “Inimitável”. Seu trabalho com o Levee Walkers foi o que estreitou sua relação com eles? Aliás, nos conte sobre suas contribuições ao Levee Walkers e como surgiu o convite.
Tudo veio por intermédio do Barrett, que é amigo e parceiro de longa data dos dois, da mesma forma que nos tornamos. Conheço Barrett desde 2000, ele já gravou em vários discos meus, já veio pro Brasil tocar comigo algumas vezes, e produziu junto com Jack Endino, o Jardim-Pomar. Leeve Walkers tem esse projeto de compor e gravar com diferentes artistas, de diferentes países e línguas. Eles me convidaram, e enviaram várias músicas para que eu escolhesse duas, fizesse melodia e letra (em português) e gravasse. Foi o que fiz; deve ser lançado nesse segundo semestre, ou no ano que vem.

Você, junto a turnê do Jardim-Pomar, tem algumas datas agendadas ao lado de Gilberto Gil e Gal Costa. Como é o repertório dessas apresentações? Vocês fazem sets separados ou há uma mescla?
A ideia do Trinca de Ases foi do Gil e fizemos uma apresentação somente, em Brasília, ano passado em homenagem ao que seria o centenário de nascimento do Ulisses Guimarães. Só a oportunidade de ter sido convidado e de fazer parte desse projeto foi de fato um sonho. Agora vamos começar uma pequena turnê juntos, em algumas cidades.

O repertório tem sido montado, estamos ensaiando muito. Tem música de cada um de nós, algumas coisas inéditas foram feitas, terá um pouco de tudo. Estou feliz demais em cantar ao lado de dois artistas tão importantes para mim. Estou encantado, a minha formação, como músico e como indivíduo tem muita influência deles dois.

Qual artista ou banda você gostaria de ver gravando alguma de suas composições?
Tem muita gente boa por aí, que adoraria que gravasse minha música. Difícil escolher alguém.

foto: reprodução/facebook

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