[Cobertura] “Celebrando todas as cores, respeitando todos os coros”; Criolo dá guinada musical sem perder a essência

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Criolo
Teatro Guaíra
Curitiba/PR
16 de julho de 2017

por Clovis Roman e Kenia Cordeiro

Há momentos muito ingratos na carreira de jornalista cultural. Algumas apresentações se mostram tão inefáveis que dificultam a narrativa. Criolo cantando sambas no palco do elitizado Teatro Guaíra foi um desses momentos. Como obra em si, Espiral de Ilusão (2017) é um disco que vai fundo nas diretrizes básicas do estilo, sem grandes invencionices. O diferencial é o estilo de cantar de Criolo, que não nega suas origens discográficas, jogando palavras e vociferando frases com a cadência do Rap. Antes de tudo, confira nossa entrevista com Criolo aqui.

O álbum em questão é o quarto de sua carreira (considerando os gravados em estúdio com canções inéditas), e o primeiro em que ele se aventura sem medo no terreno do Samba. Em Convoque Seu Buda (2014) e Nó na Orelha (2011), havia apenas rápidos acenos ao estilo: com “Fermento pra Massa” e “Linha de Frente”, respectivamente – ambas também foram apresentadas.

Como artista de um estilo visto de maneira preconceituosa por uma parcela substancial da sociedade, Criolo subir ao palco do Teatro Guaíra é algo importante. Em 2015, quando aconteceu pela primeira vez, houve um rebuliço sobre o fato. O repeteco, agora com um repertório especial, resultou novamente em casa lotada; dessa vez com a maciça presença de uma massa jovem e também de gente de mais idade, atraída, provavelmente, pelo Samba. Todos plenamente satisfeitos em seus anseios, já que Criolo cantou o disco na íntegra, e ainda mandou outras pérolas ainda sem registro fonográfico oficial, como “Lantejoula” e “Casa de Mãe”, além de “4 da Manhã”, esta, candidata a clássico perene.

Mesmo que estivesse ali como, primordialmente, como um intérprete de Samba, Criolo mostrou que ainda é questionador e influenciador. Em vários momentos, nos intervalos das canções, bradou frases de ordem e mandou mensagens positivas, sempre reforçando seu repúdio ao preconceito. Ele falou sobre a importância do Rap na sua vida, que o levou a tantos lugares, e ainda frisou como o apoio familiar, despido de preconceitos arraigados na sociedade, é importante: “A música é uma parada tão especial, né? E a arte: teatro, dança, fotografia; não pode ter preconceito. Você que é pai, se seu filho pedir para ser dançarino, apoie ele. Se sua filha pedir para ser jogadora de futebol, apoie ela. Porque isto faz total diferença. Criança não tem maldade. Se ela quer fazer aquilo, é porque é de coração. Os preconceitos destroem as famílias“, disse, antes da espetacular e sorumbática “Hora da Decisão”.

Após o encerramento catártico do repertório, Criolo sai do palco, mas logo retorna e, passando por cima do setlist, cantou boa parte de “Ainda há Tempo”, faixa título de seu álbum de estreia. Ele o fez acappella, ou seja, sem instrumental ao fundo. Contou mesmo foi com o acompanhamento do público, que cantou com ele os versos da canção. A ainda inédita “Lantejoula” veio a seguir no ‘bis’, antecedendo “Nas Águas”. A música que abriu o espetáculo também foi a saideira. Porém, na sua segunda execução, foi estendida quase que ad infinitum – ela durou 15 minutos, entre diálogos com o público, apresentação da banda e repetições do refrão.

A performance de Criolo no palco do Teatro Guaíra mostrou o porquê dele ser o artista mais lúcido e criativo da música brasileira atualmente. Criolo é completo: inteligente musical e liricamente, canta bem (e Espiral de Ilusão serviu para escancarar essa característica) e tem uma presença de palco estarrecedora. Desde o momento que ele entrou no palco, arrastando a perna como um preto velho, passando pelo momento que encenou o enterro de um caixão durante “Língua Felina”, até o momento em que se despediu, 100 minutos mais tarde, as atenções ficaram centradas nele. Criolo ao vivo não é apenas um show, mas uma experiência de vida.

REPERTÓRIO
Nas Águas
Lá Vem Você
Boca Fofa
Língua Felina
Dilúvio de Solidão
Menino Mimado
Calçada
Hora da Decisão
Espiral de Ilusão
Filha do Maneco
Casa de Mãe
4 da Manhã
Linha de Frente
Fermento pra Massa
Cria de Favela

Ainda há Tempo (acappella)
Lantejoula
Nas Águas (reprise)

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