Gosotsa: Expressão artística transgressora e envolvente

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O Gosotsa é um movimento artístico de ruptura, que envolve música, vídeo, poesia, artes plásticas, literatura e performance. Li isto por aí e percebi que, apesar de não encerrar em si todo o significado desse coletivo artístico, serve como referência. Em vídeos nas redes sociais, eles usam frases como “rasgando as amarras apodrecidas da mesmice ‘rockista’ e ateando fogo no que é considerado um tabu musical”. A partir daí dá para notar com o Gosotsa é uma representação artística completa.

Mesmo que seu alicerce musical seja o Rock, está a frente de rótulos ou fórmulas. O convencional não interessa para o trio formado por Drannath (baixo e vocal), Malu Gubolin (guitarra) e Élitra (bateria). Tanto que sua trilogia O Sol tá Maior saiu não em ordem numérica – trabalho já disponível, o volume 2, é definido pelo trio como um produto que vai contra as convenções da arte musical vigente – sua função é ser um canal para expelir necessidades artísticas.

O não convencional, o arrojado, fica evidente também por agregarem artes visuais e outras expressões artísticas dentro da marca Gosotsa. É um trabalho que aguça a percepção, que perturba, que envolve ou que expele, mas sempre sendo honesto, visceral, que desestrutura o âmago.

Musicalmente o Gosotsa tem uma sonoridade não linear, algo dissonante, caótico, perturbador. é um trabalho instigante. O que vocês trazem de influências para formar essa sonoridade?
Drannath: Todo artista tem suas influências, porque todo artista, antes de mais nada, é um grande fã. É complicado de se falar, pois eu por exemplo ouço música de oito a doze horas por dia, indo do Rock mais leve ao mais pesado, e muita, mas muita música erudita, desde o período barroco até o século XX, e algumas coisas perdidas fora desses gêneros. Quando chega no final do dia: “O que você ouviu hoje?”. Ouvi tanta coisa! Na prática, o trabalho do Gosotsa é autoral, de bastante personalidade, e esta estética que a gente está construindo é uma coisa que a gente não conhece nada no mundo parecido. A gente crê que nossa arte é única e espera que ela seja uma fonte a ser bebida. Porque a nossa proposta é muito abrangente, o leque de possibilidades que ela apresenta é muito grande. Eu acho que com o passar do tempo, com as pessoas assimilando melhor nossa música, que hoje é chocante mas amanhã não vai ser, será bastante plural o que vai jorrar a partir do Gosotsa.

Malu Gubolin: É importante comentar também das diferenças das formações musicais de cada integrante. Eu tive uma formação basicamente metal, de guitarra mais pesada, solos, e também muito Jazz. Depois de um tempo, mais pra frente na minha vida de músico, comecei a escutar Jazz…

Drannath: O Élitra tem formação que passa pelo Metal, mas ele curte umas coisas mais funkeadas, mais na linha Red Hot Chili Peppers. Eu nem sei bem o que ele houve, mas é uma coisa diferente da gente. E já eu, minha escola no Rock é a do Hard Rock, Glam Rock, anos 80 e 70. Mas depois dos vinte e poucos comecei a trilhar outros caminhos artísticos, e atualmente eu tou indo mais no caminho da música erudita. Essa química misturada do Jazz da Malu com minha formação mais erudita está caminhando para uma mistura. Não é nem mistura, pois acho que pegar um estilo e outro estilo dali não é criar uma coisa nova. Eu acho que a gente está criando um novo gênero musical. Talvez dentro do Rock, mas é um novo gênero musical.

Falando em Glam, Hard Rock… você integrou o Bastardz (banda carioca de Rock “festivo”) né?
Drannath: Quando a gente fez o retorno, eu musicalmente já estava em outra, completamente. Mas eu topei por amor aos caras, amigos que eu não via há muito tempo. Foi um prazer enorme tocar com eles. era uma fase que eu era mais novo, mais molecão de tudo, então aprendi muito com eles, de como ter uma banda. Quando teve o retorno [N. do R.: que rolou rapidamente entre 2014 e meados de 2015] eu me entusiasmei muito pelo lado da amizade, só que não me entusiasmou muito, honestamente, pelo lado musical. Então a gente fez um videoclipe, chamado “Let it Go”, em 2015, e até me entusiasmei para uns shows de reunião, mas aí os caras queriam gravar um novo álbum e eu já não estava mais nessa pegada. Nem de tempo, nem de grana, nem de interesse. Então eu pulei fora e depois acabou miando. O Bastardz não tem nenhum plano atual de retorno.

HQ do Gosotsa

Além da música, o Gosotsa tem outros canais de expressão artística, como a pintura. Vi artes em quadros, paredes e desenhos feitos a caneta. Como isto tudo é oferecido ao público? Já houve exposições com essas obras?
Drannath: Temos intenção de fazer uma exposição com todas as obras de artes plásticas em geral. [Elas] envolvem várias técnicas, desde pintura a óleo, nanquim, que eu adoro. Nós temos um livro de poesias que complementa o álbum, chamado O Sol tá Maior I, ele é todo ilustrado, e tem toda uma linguagem mais literária, não é só a questão da letra da música escrita num livro, tem uma estrutura bem mais densa. Ele está pronto para lançamento. E também a gente tem história em quadrinhos com letra de música, que está programada para o ano que vem. Mas já tem a história em quadrinhos toda ilustrada e pronta, esta já tá impressa, pronta para o consumo do público. A questão da exposição a gente também tá batalhando para colocar na rua. Como a produção é muito grande, e acaba faltando tempo para desenrolar as coisas todas… a gente tá no foco da música nesse momento, pois estamos gravando o O Sol tá Maior III. Faz um ano que lançamos O Sol tá Maior II. E o O Sol tá Maior I já está pronto e gravado desde 2011, mas vai o último a ser lançado oficialmente. É muita coisa rolando ao mesmo tempo, e é tudo uma linguagem só, no sentido de uma complementar a outra, embora funcionem de maneira independente. Creio que só ano que vem vamos conseguir colocar essa exposição ao público.

Malu: E logo mais vamos começar um canal no Youtube. Já temos um canal com nossos vídeos e inclusive o pessoal pode encontrar músicas do O Sol tá Maior I, mas vamos usar o canal também para interagir mais com o público. A gente vai falar sobre a música, como foi composta, como tocar, vamos também discutir assuntos que nos interessam, críticas de discos e assim por diante.

Drannath: O plano de 2018 é de muita presença em várias vertentes. Você falou que é uma banda que choca, mas a gente acha que não. É só uma questão de tempo para as pessoas assimilarem nosso som. Explicando melhor o que a gente tá fazendo, creio que vá aumentar essa interatividade do público com nosso som e nossa arte em geral.

Então o próximo lançamento vai ser o O Sol tá Maior III e depois o O Sol tá Maior I vai ser o último. Esses são os próximos trabalhos musicais né?
Drannath: Estamos gravando o O Sol tá Maior III, que tem uma linguagem bastante diferente do “Sol II”, pela entrada da Malu, que não gravou o 2, quem gravou foi o Lippaus. Ele tinha uma linguagem a a Malu tem outra completamente diferente. Isto dá um sabor novo ao álbum. E também temos um próximo álbum já composto. É só uma questão de tempo pra gente poder lançar tudo. Como somos uma banda independente a gente precisa de tempo para lançar tudo.

Malu: E dinheiro né [risos]. A coisa não sai da velocidade que poderia, não acompanham nossa velocidade criativa, mas tá tudo bem também. o importante é sair, a gente não tá numa olimpíada para ver quem vai lançar primeiro.

Capa de ‘O Sol tá Maior II’

O Rock é o rótulo que mais se aproxima do som de vocês. E o meu conceito da música Rock é de um estilo que surgiu subversivo, questionador, contra as convenções da sociedade. Mas na verdade seu público é em boa parte conservador, preconceituoso e homofóbico. Como vocês enxergam essa questão toda? Vocês já sofreram preconceito por ter uma trans na formação?
Malu: Uma coisa curiosa, a respeito a primeira parte da pergunta, é que, quando eu entrei e a banda fez um lançamento do O Sol ta Maior II, foi que tínhamos muita dificuldade em tocar em bar de Rock. Tivemos dificuldade em encontrar shows para fazer.

Drannath: E ainda encontra essa dificuldade. Na verdade o roqueiro se tornou o ser mais ortodoxo, por mais paradoxal que seja. Se não tiver dentro de todas aquelas regras que ele julga ser dentro daquele rótulo, ele rejeita. Nossos melhores shows foram para públicos mais abertos, do que para o focado no Rock.

Malu: A gente tá organizando a logística, mas temos a pretensão de tocar com certa frequência na Paulista. A recepção foi muito positiva quando tocamos lá.

Drannath: Exatamente, nós fizemos um show lá e a repercussão foi excelente. Adultos, crianças, adolescentes e várias tribos e vertentes diferentes, pirando no nosso show. Enquanto o roqueiro mesmo, quando a gente toca naquelas casas de roqueiro sujo [risos], onde eu cresci e eu gosto mais, infelizmente a gente não teve uma boa recepção.

Malu: E a respeito do fato de eu ser trans e tal. Curiosamente no primeiro ensaio que fiz com a banda, o Drannath foi me levar em casa, e entramos no assunto. Eu não tinha começado a terapia hormonal, ainda tinha barba, menininho. A gente acabou entrando nesse assunto e não teve problema.

Drannath: A Malu é a melhor guitarrista que eu já toquei na vida. E a melhor que eu já vi tocando na minha frente. Tirando os guitar heroes famosos. Ela é a melhor guitarrista que eu já tive contato. Então foda-se, tanto faz se é isto ou aquilo. Pro Gosotsa não teve problema nenhum, e para o público não sentimos um pingo de diferença por ela ser trans. Na verdade o Gosotsa é uma banda tão estranha…

Malu: …que este é o menor dos problemas [risos].

Agora pensando como fãs de música, apenas. Qual banda ou artista vocês acham que faria uma versão bacana de alguma das músicas do GosotsA???
Ambos: Que pergunta difícil!

Drannath: Eu acho que, se estivesse vivo, o David Bowie, depois que ele lançou o último álbum dele, Blackstar, que achei maravilhoso. O único show que eu me entusiasmaria de verdade para ver atualmente é o dessa turnê, e ela infelizmente não aconteceu, ele morreu dias após o lançamento. Outro artista que talvez fizesse, nacional, é o Kiko Dinucci. Eu ouvi o disco Cortes Curtos, lançado recentemente, achei muito interessante mesmo. Nem chega a ser muito grandioso melodicamente ou harmonicamente falando, mas achei um disco bem honesto. Ele tem umas firulas musicais muito interessantes. Acho que ele poderia fazer uma versão interessante do Gosotsa.

Malu: Não consigo pensar um uma pessoa. Não por mal. A gente utiliza o intervalo de quarta aumentada. Tem gente que sai chorando, pois o pessoal está tão acostumado com coisas consonantes né?

Drannath: O Slayer usa bastante a quarta aumentada, o trítono, mas na verdade eles usaram de uma forma e a gente de outra. E vamos além do trítono, na questão da dissonância. A gente tem a consciência e absoluto do que estamos fazendo musicalmente. Para um ouvido acostumado a ouvir a música popular tonal… quando chega o Gosotsa, acaba chocando. A questão não é só a tonalidade, a estrutura da nossa música vai muito além. Até temos músicas tonais… mas tem toda uma estética, um estilo que conduz a gente a ser o que a gente é. No final a cena tá tão deprimente, que eu não me animo pra ver show nenhum. Por exemplo, Rock in Rio, vai ter a velharada tocando as mesmas músicas.

Malu: É o que eu digo, o Rock in Rio é um excelente show para você assistir sentado no seu sofá tomando um chá, em casa.

Drannath: É tudo obsoleto demais, o mundo tá parado no tempo, onde tá todo mundo desesperado por chamar atenção, por likes, visualizações. Tá todo mundo fazendo o que as pessoas esperam ouvir. Isto é deprimente. É maçante o que está acontecendo na música.

O interessante no Gosotsa foi que, ao ouvir algumas vezes o EP O Sol tá Maior II, aquilo grudou na cabeça. Mas não no sentido de “lembrar de partes específicas”. O processo de assimilação foi diferente, houve uma conexão.
Malu: O que falta um pouco para essas bandas maiores, modernas, com Arctic Monkeys, eu vejo que eles tem um pouco de desdém com o estudo musical. Você não consegue se tornar uma artista e uma pessoa mais completa se você não se esforça.

Drannath: Não tem problema nenhum em fazer músicas simples. Tem muitas músicas com dois ou três acordes que são geniais. O problema é que passou, essa simplicidade tem um limite no sentido de esgotamento. Tudo precisa ter uma evolução. Se você assistir qualquer filme, comparando com outros dos anos 60, 70, são muito mais complexos. As séries são mais complexas, os desenhos animados. Por que a música não pode acompanhar isto? Nós temos a música “Mas”, ela tem só três acordes. A questão não é encher de acordes e fazer coisas mirabolantes. A questão é você se aprofundar nas coisas, nas possibilidades que o tudo pode te oferecer. Esse desdém que a Malu falou é geral. É bonito pro roqueiro falar que “Ah! Nunca estudei”. Eu mesmo fui muito assim. Eu comecei a estudar mesmo após os 25 anos, hoje tenho 33. Passei muito tempo com este pensamento, e chegou uma hora que eu parei, fiquei estagnado. Antes do Gosotsa ser Gosotsa, ao sair do Bastardz eu fiquei três anos sem conseguir fazer nada. Esse esforço para quebrar esse limite a gente não vê por aí. As pessoas só querem se dar bem com a banda, ganhar dinheiro, ficarem famosas. Mas propor coisas novas, que venham do coração, a gente não vê. É só “Ouve aí e me ame”, sabe? É deprimente.

Uma mensagem final para nossos leitores.
Drannath: Queremos parabenizar o Acesso Music pelo trabalho lindo que faz. Matérias muito bem feitas, eu vi a matéria do Marilyn Manson, e já vinha acompanhando o trabalho do Acesso Music. A gente agradece muito, pois é um trabalho muito importante, muito bonito e necessário. Tanto para os artistas quanto para o público. Agradecemos ao espaço cedido. E a gente tem a agradecer ao público do Gosotsa e que vai vir a conhecer o Gosotsa pelo Acesso Music.

Malu: É para o público ficar de olho, que a gente vai começar a fazer os vídeos no Youtube. E também que em breve vamos lançar o O Sol tá Maior III.

Drannath: Não estamos fazendo shows para se concentrar na gravação, mas em breve vamos voltar a fazer shows. Fiquem lançados que vai rolar o lançamento do nosso site. Aguardem!

Conheça o trabalho do Gosotsa

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