O encontro e a relação da arte com a música pesada [parte 1]

um comentário

[PARTE 1]

A segunda parte você encontra aqui.

por Kenia Cordeiro

Tem banda que é pura obra de arte. Não só pela excelente qualidade musical, mas também por conta da capa criativa, da qualidade visual das apresentações ao vivo, incluindo todos dos detalhes do palco. Não é nada de novo sob o sol que a música e a parte visual sempre estiveram juntas. Dessa forma, diversos fotógrafos, ilustradores, designers, entre outros profissionais, têm deixado suas marcas nos trabalhos dos músicos, tentando traduzir visualmente as faixas ou o conceito do disco, ou ainda, uma imagem que a banda deseja passar para o público.

O fato é: uma imagem instigante e bem feita pode motivar pessoas que nunca ouviram determinada banda a procurar mais sobre ela, sendo guiadas pelo estilo estético, estimulando os dois sentidos, ao invés de um só. Você provavelmente já deve ter comprado algum disco só pela capa e acabou se encantando, ou ouvido falar de alguém que tenha feito isso (nossos entrevistados são a prova disso). Se a imagem for bem feita, ela poderá elevar a música a outro patamar e fazer com que mais pessoas percebam o trabalho do músico. E claro, pessoas irão salvar a arte do álbum e usar como plano de fundo do Desktop, como tela de fundo do celular, comprar camisetas com aquela determinada estampa, entre outras coisas.

Pensando nisso, resolvemos listar alguns artistas brasileiros que têm desenvolvido artes, seja para capa de discos, camisetas e até backdrops (panos de fundos que as bandas usam em shows), realizando uma parceria incrível com diversos artistas. Os artistas escolhidos abraçaram tão bem essa ideia, que a matéria acabou ficando gigante! Sendo assim, dividimos em duas partes.

MARCELO VASCO (Carlos Barbosa/RS)

Marcelo Vasco, Designer gráfico, atualmente reside em Carlos Barbosa (RS). Teve sua primeira capa de disco internacional em 2002, para a banda sueca Lord Belial, no disco “Angelgrinder”. A partir daí, assinou diversas contribuições para capas de bandas mundialmente conhecidas como Testament, Soulfly, Dimmu Borgir e Slayer (uma de suas artes mais famosas). Marcelo nos conta que começou a se interessar “por arte quase que inconscientemente, pois gostava muito de desenhar desde que eu era bem novo. Adorava os quadrinhos do Conan, do Drácula, filmes de ficção e terror, e eu era super curioso por enciclopédias de ciências, do corpo humano, história natural e coisas assim. Então eu sempre estava com um papel e um lápis na mão, desenhando monstros e esqueletos (risos)”. Mas foi com um empurrãozinho de uma certa banda que a sua vida mudaria: “um certo dia no colégio, um amigo meu, que sabia que eu adorava desenhar, me trouxe uma fita cassete de um irmão mais velho, me pedindo pra desenhar o monstro que estava na capa. Isso foi ainda nos anos 80. A fita cassete era do álbum “Killers” do Iron Maiden e o monstro era o Eddie, claro. Eu achei aquilo fantástico, fiquei hipnotizado. Eu levei a fita pra casa emprestada e resolvi ouvir, foi amor à primeira ouvida e dali em diante fui levado pro lado negro da força (risos)“.

Sendo o pai analista de sistemas, Marcelo desde cedo teve contato com tecnologia. Em meados de 90, realizou vários trabalhos para as suas próprias bandas e as de amigos. Fez a capa da banda Lord Belial e após largar Administração para cursar Design Gráfico, foi que aquilo que era um mero Hobby passou a tomar proporções maiores: “Finalmente eu estava fazendo algo que agregava conteúdo e me fazia feliz, academicamente falando. Em 2008, sentindo que eu já havia conquistado uma gama interessante de clientes, decidi largar o emprego e me dedicar exclusivamente as artes para o mercado fonográfico. Me mudei do Rio de Janeiro para a Serra Gaúcha, comecei a trabalhar para um grande selo norueguês chamado Indie Recordings, mesmo residente no Brasil. Paralelo a isso mantive meus trabalhos freelance. Acho que foi a partir desse meu desprendimento da “vida comum” que minha carreira começou de verdade, pois eu estava 100% dedicado e trabalhando diariamente com arte e música.

Suas preferências musicais são variadas, partindo de um simples princípio: “Me considero uma pessoa extremamente eclética e ouço praticamente todo tipo de música. Pra mim existe só dois tipos de música… a música boa e a música ruim. E eu prefiro escutar sempre a boa (risos). Mas obviamente tenho minhas preferências e o que mais me cativa é o Heavy Metal, sem dúvida. Minha banda preferida é o Slayer.

Slayer (capa por Marcelo Vasco)

E sobre a experiência de poder trabalhar com a sua banda favorita, ele nos conta com detalhes: “Eles haviam assinado com a Nuclear Blast, e eu estou sempre fazendo trabalhos para outras bandas do selo. Então quando surgiu a hora deles irem atrás da arte de capa, entraram em contato comigo e perguntaram se eu gostaria de propor alguma ideia. E foi o que eu fiz! Pra mim aquilo era surreal, pois como eu disse, Slayer é a minha banda favorita, e a possibilidade de trabalhar pra eles era um sonho antigo. Quando isso apareceu eu agarrei com unhas e dentes e dei meu máximo. Eu precisava conseguir aquele trabalho, seria uma conquista pessoal e profissional gigantesca. Cheguei a ficar sem dormir alguns dias, de tão ansioso. Trabalhei feito louco e cheguei a ficar bem estressado, mesmo sabendo que eu estava trabalhando para a minha banda favorita. É uma sensação bem estranha. O trabalho completo durou alguns meses. Mas no final valeu a pena todo o esforço, pois eles optaram pela minha arte e eu consegui o trabalho da minha vida.

Ele define o seu estilo / técnica de trabalho como arte digital: “Eu trabalho num ambiente 100% digital, ou seja, diretamente no computador, então meu trabalho pode ser classificado como arte digital. É um mix de manipulação de imagens com desenho digital, feito a “mão”, com o mouse. Mas eu sempre procuro buscar um resultado mais orgânico, com texturas mais rústicas e pinceladas que lembram pintura a óleo sobre tela. Então acredito que muitas vezes quem olhar nem mesmo sabe distinguir num primeiro momento se é digital ou não. Esse é o ponto. Existem muitos artistas que trabalham dessa maneira hoje em dia. E mesmo os mais antigos, que ainda desenham ou pintam a mão livre, acabam precisando finalizar o trabalho em ambiente digital. É quase obrigatório, para alcançar um resultado final decente e profissional. Em relação ao estilo, eu diria que minha arte é calcada na arte surrealista, um universo que eu acho sensacional.

Marcelo realizou o sonho de trabalhar com a sua banda favorita. Mas se houver possibilidade, gostaria de trabalhar com outras bandas renomadas como Metallica, Rush, Dream Theater, Iron Maiden, King Diamond, Sepultura e Steve Vai, por exemplo. Quando perguntado sobre como ele você enxerga a importância da arte, do visual, relacionando à música, ele afirma: “Acho essencial! Quem nunca comprou um disco pela capa, atire a primeira pedra (risos). Principalmente os fãs de Heavy Metal da minha geração, que compravam os LPs e as fitas cassetes sem ter como ouvir antes, muitas vezes sem nem conhecer a banda. Na era pré-internet não era nada fácil. Se a capa era atrativa e chamava atenção de alguma maneira, o disco era comprado. Algumas vezes o tiro era certo, outras não. Mas vai ainda além desse lado comercial, pois eu acredito que a arte seja um complemento da música e vice-versa. Não é apenas algo bonito de se ver, e nem deve. A arte as vezes é feita pra ser “feia”, pra contestar, agredir, pra fazer pensar, libertar. Enfim, ela tem um papel… Expressar um sentimento, contar uma história, mesmo que essa história seja interpretada de infinitas maneiras diferentes. E acontece exatamente igual com as letras, com o que a sonoridade de uma música passa pra gente quando ouvimos, ou quando lemos um livro. Essa é a beleza da arte… É subjetiva, imaginativa e incrivelmente expansiva.

YURI SEIMA (Araucária/PR)

Além de já ter assinado trabalhos para bandas como Krisiun e Project 46, possuir seu próprio estúdio de tatuagem, o Studio Morphose, Yuri é músico e realiza trabalhos de escultura. Ele nos conta que sempre gostou de arte: “Na infância, me recordo de brincar mais com massinha de modelar e passar o dia todo desenhando do que usar brinquedos convencionais. Quando completei meus 10/11 anos, me apresentaram algumas bandas de Metal, e me apaixonei insanamente. Reprovei de ano na escola porque ficava desenhando, gravando CDs de amigos em fitas para ouvir em casa e aprendendo a tocar guitarra, ao invés de estudar. Reprovei em quase todas as matérias. Na adolescência foquei mais em música do que desenho, tive várias bandas de diferentes estilos. Voltei a dar atenção aos estudos com desenho num período em que eu comecei a trabalhar para ajudar a minha família. Nos minutos que eu tinha livre no trabalho eu desenhava. Foi quando parei para refletir sobre o que eu queria fazer da minha vida. Em 2009 eu tive a chance de abandonar tudo e começar uma vida nova, mergulhei em estudos de pintura e desenho. Comecei a tatuar, pois foi a forma que eu encontrei de trabalhar desenhando. Deu certo! Mergulhei de cabeça, e hoje em dia pago minhas contas fazendo arte.

Todos nós sabemos da importância da internet na divulgação dos mais diversos trabalhos. Para Yuri não foi diferente. Sobre o convite para trabalhar com o Krisiun e o Project 46: “consegui de forma bem simples: eles conheceram meu trabalho pela internet, fizemos os primeiros contatos já faz algum tempo, mas recentemente foi quando produzimos alguma coisa.

Arte de Yuri Seima para camiseta da banda Krisiun

Referente as suas preferências musicais: “Eu oscilo entre os extremos. Ouço bastante Metal, Rock e Grunge, e curto tanto bandas antigas como bandas modernas. Para mim, o Black Metal é bem especial, mas não acaba sendo o gênero que eu mais ouço. Mas para compor é sim é o número 1 da lista.

Seguindo esta linha de raciocínio, perguntamos com quais artistas gostaria de trabalhar: “Levando em consideração o estilo que eu faço, mais estilo das capas das bandas e bandas que eu gosto, seriam: Devildriver, Behemoth, Watain, Slayer, Rob Zombie, Ghost, Iron Maiden, Kreator e Hate”.

Quando questionado a definir sua técnica de trabalho, Yuri declara que: “Costumam chamar de surrealismo Dark / Darkart… eu acho esse título meio limitado e clichê, mas isso aponta mais ou menos pra direção do que eu faço.

Para ele, o visual e a música se completam: “Acredito que como objetivo, uma coisa tem que refletir a outra. Em momentos em que a música não se encontra, quem se comunica é a logotipo, arte da capa, camisetas, cartazes. Vi um vídeo em que o Kerry King conversa com o King Diamond e comenta “eu cheguei a comprar um disco da sua banda sem ouvir uma nota sequer. Mercyful Fate e King Diamond são influencias do Kerry King, então vejo nisso um exemplo no qual a arte da capa teve sucesso em representar a música.

GUSTAVO FELIPE S. RIBEIRO (Curitiba/PR)

Gustavo (ou Preto, como é conhecido em Curitiba), já fez diversos trabalhos para bandas de todo o Brasil confeccionando backdrops (panos de fundo, colocados no palco), e também internacionais, fazendo a iluminação de palco em shows, o que de certa forma, ajuda a impactar no visual da banda. Seu foco é na reprodução de imagens, tanto que, atualmente, além de trabalhar com aerografia, ele também é tatuador, sendo seu estilo predominante o realismo. Ele nos conta como foi o início da sua carreira: “Comecei a pintar panos em 2004, depois que vi meu primeiro show de Metal: Children Of Bodom. Fiquei impressionado com toda aquela estrutura, as luzes, o som e principalmente o tamanho do backdrop. Naquela época não era comum impressões em tecido, por isso deduzi que era pintado à mão. Uns amigos meus tinham uma banda chamada Lesbian Toys e eu tinha uma cortina velha aqui em casa que minha mãe me deu para eu fazer meu primeiro pano. Fiquei sem desenhar por anos, trabalhando em empresas / lojas que não tinham nada a ver com arte”.

Pintura/Reprodução na parede do Hangar Bar (por Gustavo)

Ele pode ter parado por um tempo, mas logo voltou a pintar novamente: “Em 2008 fiz uma bandeira do Eddie do The Trooper para levar no show aqui de Curitiba. Foi um trabalho bem “sem noção”, nunca havia estudado arte formalmente antes, porém chamou atenção dos fãs na fila, muita gente pediu pra tirar foto e me aconselharam a estudar arte e levar a sério, porque eu levava jeito pra coisa. Nesse mesmo ano fiz um curso de desenho pela Fundação Cultural de Curitiba. O professor me mostrou algumas revistas e livros de alguns artistas que trabalham com a técnica da aerografia (arte feita com pistola de tinta). Um desses livros era do Hans Rudolf Giger, o criador do Alien, e me interessei na hora! Um tempo depois, adquiri meu primeiro equipamento pra aerografia e nunca mais parei.

Gustavo, que tem um gosto musical amplo dentro da música pesada, tem um foco bem específico no trabalho que desenvolve: “Atualmente trabalho com aerografia e tatuagem, em ambas técnicas estudo realismo, que é a reprodução de fotos”. E quando precisa dizer para qual banda gostaria de trabalhar um dia, Gustavo não se enrola: “Gostaria de trabalhar com o Iron Maiden. Não custa sonhar alto, né? (risos)”.

Quando perguntado sobre como ele enxerga a importância da arte no meio musical, é sucinto: “Depois da própria música, a arte – seja no CD, em camisetas ou no cenário – é a parte mais importante. É o que vai trazer uma identificação pra banda.

Entre seus trabalhos favoritos, ele destacava os backdrops que realizou para as bandas Semblant, Motorocker e Division Hell, todas de Curitiba. E o mural no Hangar Bar, que foi um importante bar na cena underground da capital paranaense, pintando o rosto de 47 rockstars em uma das paredes internas do finado recinto.

Abaixo, imagens de alguns trabalhos dos artistas entrevistados nesta matéria.

1 comentário em “O encontro e a relação da arte com a música pesada [parte 1]”

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s