O encontro e a relação da arte com a música pesada [parte 2]

um comentário

[PARTE 2]

Confira a primeira parte da matéria aqui.

Dando continuidade a matéria especial “O encontro e a relação da arte com a música pesada”, a segunda e última parte retrata o trabalho de Marcus Zerma e de Gustavo Sazes, que já trabalhou com bandas como Arch Enemy, Epica, Angra e Amaranthe.

por Kenia Cordeiro

GUSTAVO SAZES

Carioca, radicado em Portugal, Gustavo Sazes é outro nome conhecidíssimo no meio musical. Já assinou diversas artes para bandas mundialmente conhecidas como Amaranthe, Epica e Angra. Ele nos conta que tudo começou quando ele precisava de material para a sua própria banda: “Comecei meio que acidentalmente quando, ainda jovem, tinha uma banda que precisava de material promocional. Desse meu projeto pessoal eu pulei para os projetos dos amigos, e mais amigos dos amigos… Eu sempre curti o visual das capas de disco, amava (e ainda amo) quadrinhos, games, RPG e todo esse imaginário de fantasia. Em 2005 eu fiz minhas primeiras artes de CD mais profissionais, e considero esse o ano em que realmente comecei firme no mercado. E já se foram 12 anos dedicados integralmente a arte, com clientes em mais de 40 países fora o Brasil.”

Single do Arch Enemy

Em relação a suas preferências musicais, afirma que a sua preferência muda constantemente: “Eu escuto de tudo um pouco: Death Metal, Hard Rock, Goth Rock ou Industrial. A minha preferência muda quase que diariamente. Estou sempre atrás de novos sons e bandas, isso é sempre inspirador”. E esse caráter volúvel se reflete em seu estilo de trabalho: “Quando comecei era puramente digital. Hoje eu misturo o digital com algo desenhado a mão, ora ainda digital, ora no papel. Varia muito de acordo com o projeto e o momento criativo.

Sobre os seus primeiros convites de trabalho, ele afirma que não existe macete para entrar na indústria: “Como em tudo na vida, é uma questão de ser a pessoa certa no momento certo. Eu apenas entrava em contato com bandas oferecendo meu trabalho, muitas vezes até de graça, e dei com a cara na porta diversas vezes. Algumas poucas portas se abriram e eu aproveitei cada oportunidade da melhor forma. Cada trampo novo abria uma porta nova e assim eu fui criando um network muito específico. Paciência e dedicação foram fatores determinantes desde o início. E ainda são até hoje.

Arte para o Epica, usada em blusas de moleton.

Sazes tem hoje um extenso currículo, com nomes consagrados internacionalmente e muitos representantes da cena independente brasileira. Tendo tantos trabalhos, para ele a escolha de seus momentos favoritos se torna uma ingrata tarefa: Sobre os favoritos, isso é muito difícil e injusto. É como escolher teu filho predileto. Alguns trabalhos estão sempre na minha mente por quaisquer motivos, talvez mais do que outros, mas isso não faz com que sejam melhores ou piores, menos ou mais amados. Gosto da minha obra como um todo, inclusive com todas as imperfeições, erros e acertos.

E sobre as bandas com as quais ele gostaria de trabalhar: “Pensando rápido: In Flames, Soilwork, At The Gates, Sigur Rós, Rammstein, Europe, Pain, Hypocrisy, Testament, Editors, Mastodon, Baroness, Royal Thunder. A lista nunca acaba!

Sobre a importância da arte, relacionando à música, ele divaga: “Penso que a arte é apenas um elo de uma longa corrente, que se estende do momento em que se compõe um tema, até o álbum estar na prateleira da loja. Esse elo, não é mais ou menos importante que os outros, e assim como qualquer em qualquer corrente, tem uma função bem especifica e extremamente importante, ainda que muitos não vejam assim. Existe, claro, uma frágil relação entre protagonistas e coadjuvantes, onde muitos compram música pela capa ou vice-versa. Mas a idade me faz pensar de uma forma mais equilibrada. Minha arte não é mais ou menos importante que a música.

MARCUS ZERMA

Músico, ilustrador e tatuador. Marcus Zerma possui um estúdio em Curitiba, e há seis anos tem tentado viver da arte que faz. A tatuagem também está inserida nesse meio musical, que acabou sendo uma consequência em sua vida. Hoje, ele tatua e ilustra no mesmo local, no Black Lodge Custom Design & Tattoo. Sobre o início de sua carreira e como começou a trabalhar com as bandas: “Eu sempre estive imerso no mundo da música. Eu já tive banda em Curitiba, e a última [Last Sigh] durou oito anos. Desde pequeno eu desenho, e nas minhas bandas eu trabalhava na parte visual delas. Houve um momento em que as pessoas perguntavam sobre nossa identidade visual, e se eu não teria interesse em fazer para essas pessoas. Eu vi que ali havia uma demanda, e foi acontecendo por causa do meio que eu estava. Não recordo o primeiro trabalho que fiz, mas foi uma estampa de camiseta. Algumas marcas de roupas foram atrás de mim. De uns seis, sete anos pra cá surgiu muita marca independente de roupas. E essas marcas tinham uma forte influência do cenário musical da região onde elas estavam, elas vestiam o público que ia aos shows. E isto fez com que eu conseguisse produzir mais. Aí fiz encarte para bandas e atingiu fora do Brasil. Consegui fazer trabalhos para bandas de fora. O desenho sempre esteve presente na minha vida.

Zerma já teve a oportunidade de trabalhar com algumas bandas, como o Amorphis, e realizar diversos outros trabalhos interessantes, muitos deles graças ao Instagram: “O Instagram é uma rede social muito forte para quem trabalha com o visual. O Tomi [Joutsen, vocalista do Amorphis] sempre estava presente no meu perfil e curtindo meus trabalhos. Numa conversa então a gente fechou um trabalho. Todas as demandas internacionais foram pelo Instagram. O último convite que tive de fora foi para compor um livro, que se chama The Devils Reign, feito por um estúdio de tatuagem. Fui chamado pelo Andy Howl. O livro foi curado pelo Peter H. Gilmore, o sumo sacerdote do Templo de Satã. Participei com alguns caras que quando comecei a desenhar eram minhas influências. O livro tem 42 ilustradores e eu sou o único brasileiro que faz parte desse livro, que tem representações do demônio, Baphomet, enfim.” [Informações sobre o livro podem ser encontradas no seguinte link: www.howlbooks.net/the-devils-reign-2]

Camiseta do Amorphis com arte de Marcus Zerma

Sua arte trata de temas densos, o que está relacionado aos estilos musicais que ele tem como preferidos: “A música está presente em todo o processo de criação. Mas eu gosto muito de Black Metal, de Stoner. Para desenhar eu gosto de Black Metal, algo mais calmo, sombrio, para entrar no clima e no tema.” E falando em estilo, sua definição é que “Ele tem muito da gravura. Sou formado em Design Gráfico e estou no último ano em Artes Visuais, e passei por todos os processos de gravura, pelo menos para conhecer. Comecei a desenvolver minha maneira de desenhar antes de aprender a técnica. Eu já gostava desse estilo clássico de tratamento de imagem. É o resgate do antigo, clássico, com uma roupagem mais moderna. Meu processo de trabalho começa no papel e termina no digital. A gravura é uma apropriação do desenho.”

E mais uma vez, nosso amigo Eddie serve de inspiração para muitos artistas: “Comecei a ouvir Iron Maiden por causa da capa do Fear of the Dark. A arte sempre teve um envolvimento com o Metal. Querendo ou não, até a questão da própria semiótica, o áudio consegue atingir mais que o visual. Quando você ouve um som, ele pode te deixar triste ou feliz, mais do que vendo uma imagem. A ligação da imagem e do seu valor estético em um produto se completa com o som. É muito legal quando você pega um álbum, folheia o encarte, lê a letra e se sente imerso naquela imagem através do som que você tá ouvindo. É que nem você olhar o primeiro álbum do Black Sabbath, ouvir a música Black Sabbath e se imaginar na chuva, olhando aquela mulher da capa. Você acaba entrando naquele ambiente. É esse tipo de relação entre uma e outra que eu acho legal. A imagem é um facilitador para que você imagine coisas.”

Ser ilustrador é ter a oportunidade de “fazer parte” de diversas bandas: “Hoje em dia para ter uma banda é bem mais difícil. Para ter uma banda com qualidade, você tem que pensar em várias coisas. Eu não tenho saudades nenhuma de tocar. Eu me sinto um ‘novo membro de uma banda’ quando eu faço um trabalho desses.

1 comentário em “O encontro e a relação da arte com a música pesada [parte 2]”

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s