[Lançamento] Torture Squad volta com força total em Far Beyond Existence

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Torture Squad – Far Beyond Existence
(Secret Service Records / Assessoria Roadie Metal)

por Clovis Roman

São quase 30 anos de história. O Torture Squad surgiu no começo dos anos 90, e sempre batalhou dentro do Underground pelo seu espaço. Sua estreia discográfica aconteceu em 1998, com Shivering, e até 2010 foram outros cinco, além de EPs e até mesmo de um DVD/CD ao vivo. A saída do vocalista Vitor Rodrigues pareceu a princípio ser um duro golpe. Mas como Castor (baixista) e Amílcar Christófaro (baterista) são determinados, logo organizaram a formação e seguiram com Esquadrão de Tortura, que contava com André Evaristo nas guitarras e nós vocais, o que reduziu o grupo na época a um trio. O trabalho rendeu a ótima “Wardance”, mas não teve continuidade com a saída de Evaristo.

Novamente a procura de integrantes, a dupla Castor e Amílcar encontrou em Mayara “Undead” Puertas a voz ideal. Um guitarrista também foi contratado – Rene Simionato – fazendo a banda retornar ao seu formato mais conhecido: um quarteto. Eles estrearam juntos em estúdio com o EP Return of Evil, que tem 4 músicas e espantosos 26 minutos de duração. Mas a força dos quatro músicos ficou totalmente evidente mesmo com o primeiro full-lenght da atual formação: Far Beyond Existence mostra o Torture Squad revigorado, em um de seus melhores álbuns em anos.

O álbum abre com uma música cujo primeiro riff é exatamente aquilo que um fã do Torture Squad espera. O trampo nas seis cordas de Rene Simionato é soberbo, o que é perceptível mesmo com as guitarras estando um pouco baixas em relação ao vocal e a bateria. Esta escolha prioriza a parte percussiva e os urros potentes de Mayara “Undead” Puertas, que aqui mostra muito mais segurança que no EP Return of Evil, que marcou sua estreia em estúdio com o grupo. “Don’t Cross My Path” tem mais pro final uma parte mais cadenciada com uma batida diferenciada, que chama atenção imediatamente. Bacana.

Reformulado mas ainda mantendo suas fórmulas, o Torture Squad mostra em Far Beyond Existence um grupo maduro, que soube aprender com a penosa caminhada dentro do underground. Uma banda que caminha aos 30 anos de vida, e que completa em agora em 2018 os 20 anos de seu álbum de estreia, Shivering. Se lá eles mostravam uma urgência comum em bandas iniciantes, aqui eles entregam um álbum conciso, ainda bastante agressivo e variado dentro do seu estilo. Pois veja bem: “Steady Hands” se aproxima do Metal Tradicional, principalmente pelos riffs e “Blood Sacrifice” inova com sua abertura com vozes femininas operísticas, para logo depois se tornar um Death/Thrash de primeira.

Capa do álbum Far Beyond Existence

Mas no quesito ‘surpresa’, quem ganha é a longa instrumental “Torture in Progress”, que em quase 10 minutos mostra um lado pouco conhecido do Torture Squad. Ela começa como um improviso ao vivo de baixo e bateria, totalmente fora do padrão. Sem pressa, novos elementos vão aparecendo, e lá pelas tantas, até mesmo uma ‘tecladeira’, que remete imediatamente a nomes como Deep Purple. Outra que olha para a história do Rock é “You Must Proclaim”, cuja introdução – e um trecho no meio – é uma citação devidamente creditada do Yes. A música de referência é “Into the Lens”, obra-prima do maravilhoso álbum Drama (1980). “A introdução é um tributo a “Into the Lens”, do Yes. Somos muito fãs de Progressivo, faz parte do nosso DNA”, afirma o baixista Castor.

O Torture Squad, além de mostrar preocupação com a qualidade sonora e de composição, também se atentou ao conteúdo lírico. O pacote, em sua versão nacional, engloba dois encartes, sendo um o convencional com as letras em inglês, e outro, em formato poster, com todas as respectivas traduções ao português. Castor frisa que as letras do Torture Squad “tem muito a dizer”. A tática deixa isto evidente, já que eles mostram fazer questão de ter sua mensagem assimilada pelo maior número de fãs.

Em “You Must Proclaim”, passagens como “Cheating, lying all the time; Can’t bear you, Lord of lies” podem se relacionar os momento político vivido no Brasil (e com o atual presidente). O baixista explica que a “letra é uma forma de revolta e protesto sobre o nosso atual governo vergonhoso de ladrões, que roubam dinheiro da educação, saúde, transporte e aposentadoria do cidadão do bem! Cada vez pagamos mais impostos, pagamos caro em tudo e temos menos qualidade e menos segurança em troca”,mostrando que a indignação contra as governanças no Brasil atinge direita e esquerda.

Participações especiais
O álbum Far Beyond Existence é marcado pelo grande leque de convidados. Há participações de diversos músicos, a maioria deles responsáveis por berros. O ex-vocalista do Benediction – que gravou o fantástico The Dreams you Dread – Dave Ingram aparece cantando ao lado de Mayara. As gravações, entretanto, foram feitas bem distantes: “Nós mandamos a gravação do instrumental com a letra e linhas vocais da “Hate” e então ele gravou e casou perfeitamente com as partes da Mayara”, explica Castor, que complementa sobre a honra de gravar junto a uma referência musical: “Somos grande fã dele, principalmente na época do Benediction , que é a banda que conheço mais. Ele passou pelo Bolt Thrower que também é uma banda que curto muito”, conta.

Uma das melhores do disco, “Cursed by Disease”, conta com Edu Lane, baterista do Nervochaos, um dos grandes nomes do underground nacional. A música em si abre com uma passagem que remete ao velho Napalm Death da segunda metade dos anos 90, cadenciado e paranoico – esta estrutura surge novamente em outras partes. Lane faz uma narração no meio da faixa, que ficou bacana. Outro nome de peso do Metal nacional que participa é Alex Camargo, do Krisiun. Em sua banda original, o cara mostra alguns dos vocais mais extremos que a música pode conceber. Aqui, cantando ZZ-Top – “Just Got Paid” – o cara mostra uma nova qualidade, indo a algo mais próximo de Lemmy com Phil Anselmo. Não é a melhor coisa do mundo mas ficou divertido e vale pelo ineditismo. Mais uma vez Castor se pronuncia: “Tivemos a honra de termos o nosso grande brother das antigas, Alex Camargo do poderoso Krisiun. Somos muito fãs [de ZZ-Top]! Nós tínhamos gravado este tributo nos ensaios na época do álbum Aequilibrium (2010)”. Na época a gravação ficou guardada, e quando resolveram utilizá-la, pensaram em Alex: “Decidimos então gravar essa versão oficialmente como bonus track no novo álbum e daí o Alex veio na nossa cabeça. Ele gravou os vocais no estúdio deles aqui em São Paulo e nos mandou. Ficamos muito contente com o resultado”.

Castor ao vivo em 2007 (foto: Clovis Roman)

A supracitada “You Must Proclaim” tem os vocais divididos com Luiz Carlos Louzada, uma instituição do Metal nacional, atual vocalista do Vulcano e que já passou (ou ainda está) por uma grande quantidade de bandas importantes como vocalista (Chemical Disaster, Hierarchical Punishment) e também baterista (Predatory, Front Attack Line). Castor conta que “O Louzada é camarada das antigas, da época do Chemical Disaster, banda que a gente dividiu o palco muitas vezes nos primórdios. Ter ele no nosso novo álbum foi uma celebração a nossa amizade, fora a honra de ter a voz poderosa dele registrada no nosso álbum. O Vulcano é o nosso patrimônio headbanger, que estão até hoje levantando a nossa bandeira mundo afora”, sentencia.

Faixas bônus
Diferentes versões do álbum foram disponibilizadas no mercado. A nacional conta como ‘canções extras’ com a cover do ZZ-Top “Just Got Paid”, a psicodélica instrumental “Torture in Progress” e “Unknown Abyss”. Esta última nem deveria contar como faixa bônus, já que aparece em todas as versões lançadas do disco.

Duas edições européias distintas atiçam os colecionadores e fãs completistas em geral. A primeira delas conta com, além da versão do ZZ-Top, “Flick of Switch” (do AC/DC) e “51 Area”. A outra vem com “Inside The Electric Circus” (do WASP), “Divine Step” (do Coroner) – esta com participação de Fernanda Lira (Nervosa) – e “Overkill” (clássico supremo do Motorhead). Sim, “Unknown abyss” está em ambas as versões.

Sempre pergunto aos entrevistados qual banda eles acham que fariam uma cover legal de alguma de suas próprias canções. Castor responde que “uma versão de “Pandemonium”, feita pelo Overkill, seria interessante”, finalizando a conversa.

Por fim, Far Beyond Existence é um trabalho sólido, competente. Deve ser ouvido diversas vezes, enquanto é feita a leitura do encarte e todos os detalhes que nele constam. Obra de suma importância no cenário Metal no Brasil.

MÚSICAS
1. Don’t Cross My Path
2. No Fate
3. Blood Sacrifice
4. Steady Hands
5. Hate
6. Hero for the Ages
7. Far Beyond Existence
8. Cursed by Desease
9. You Must Proclaim
10. Jut Got Paid
11. Torture in Progress
12. Unknow Abyss

Conheça mais sobre a banda: torturesquad.net.br

fotos promocionais: Raphael Castejon/Divulgação
foto ao vivo: Clovis Roman

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