[Entrevista] Braza e o amálgama do Reggae, Rap e do legado cultural brasileiro

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por Clovis Roman

O Braza surgiu de uma dissidência amigável do ForFun, afinal seus três músicos tocavam naquela banda: Nícolas Christ (bateria), Danilo Cutrim (guitarra e voz) e Vitor Isensee (teclado e voz). O som do Braza se saiu como uma evolução daquela mistura toda do grupo anterior, e se alicerçou com o Rap e o Reggae. Conversamos com Vitor sobre o começo e o momento atual do grupo, que se apresenta sábado, dia 16, na Live Curitiba, junto a Armandinho.

Sobre o show, veja no fim da página, após a entrevista.

Quais as principais diferenças entre as músicas do Braza e do For Fun? Há mais liberdade artística agora, no sentido de não ficar preso a alguns rótulos musicais apenas?
Vitor Isensee: A grande diferença entre o Braza e o nosso projeto anterior, o ForFun, é que o Braza a gente parte de um conceito mais definido, enquanto que o For Fun tinha algo mais de espontaneidade. Nesse sentido há até uma liberdade artística maior, pois o For Fun foi muito eclético, a gente fez de tudo, desde Hardcore até música Latina, Eletrônica, Dub, Reggae, enfim. Era muito mais uma miscelânea, para a qual a gente pensava depois num conceito. Já no Braza a gente parte de um processo invertido, pois temos um conceito muito forte baseado na mistura das vertentes do Reggae, da música jamaicana, como Dub, Dance Hall, Ragga, com a questão do Rap, do ritmo e poesia, e da herança brasileira. Então temos estes três pilares como conceito do Braza, o Reggae, o Rap e a música brasileira, mesclando. Então o Braza parte de um conceito mais definido, e a gente fica experimentando e criando coisas dentro deste universo que eu citei, acho que esta é a grande diferença.

Esta mudança de ares já era sentida por vocês nos tempos de ForFun? Pois assim que a banda acabou o Braza logo apareceu.
Sem dúvidas. Este necessidade artística de seguir em frente, esta inquietude, ela é quase que necessária, inerente ao “fazer” artístico; eu pelo menos entendo assim. Então já no final do ForFun muitas das coisas apontavam para a direção que a gente tomou no Braza. Os últimos trabalhos do ForFun traziam coisas que tem semelhança com coisas que a gente fez no primeiro trabalho do Braza. De certa forma eu acho até meio natural que isto tenha acontecido. Mas claro, a gente também teve uma intenção de fazer seguido justamente porque esta efervescência ta aí, esta necessidade de seguir em frente, como você mesmo disse. Então, foi um processo bem natural e quase que instintivo neste sentido.

O nome do novo EP, Liquidificador, tem a ver com a mistura sonora de influências de vocês? afinal o Braza reúne de tudo um pouco para fazer seu som.
Totalmente, Clovis. Acho que o nome Liquidificador veio muito bem a calhar, pois a gente tem isto desde o princípio, desde o primeiro disco, desde que a gente sentou e pensou no Braza. E isto foi algo muito legal, de você sentar, repensar e partir de um conceito. A gente tinha certeza que a mistura, o amálgama, a mescla, está muito forte na gente, acho que isto, observadas as contradições necessárias, tem muito a ver com a cultura do Brasil, o lance de misturar, de congregar, o amálgama, como diz Jorge Mautner. E por isto o nome Liquidificador, ele tenta expressar uma coisa que na verdade não está só neste, mas também nos outros dois discos do Braza, algo que a gente tenta trazer no conceito do projeto.

Vocês acham que com o atual formato da música, com toda a questão da distribuição digital, acaba por diminuir o impacto do lançamento de um álbum completo? Digo isto pois grupos estão lançando EPs e singles invés de lançar um álbum completo numa só tacada. Como vocês enxergam isso e o que esperam do mercado fonográfico no futuro?
Olha, o mercado fonográfico segue em transformação, eu acho que toda aquela revolução que aconteceu na virada dos 90 pros 2000, da música digital e tudo o mais ainda está, claro, talvez de uma forma mais branda, se ajeitando ao novo formato. Mas eu acho que a questão do álbum, EP ou single é uma questão de contexto, vai muito do momento da carreira do artista, da intenção do artista, de estratégia, do que quer fazer naquele momento. O [formato] álbum não perdeu a força, o apelo, eu pelo menos com consumidor de música, tenho a ideia de álbum muito viva ainda. Um álbum é algo que você pode trabalhar mais aquilo que eu disse, de um conceito amarrado. Enquanto que em singles você não faz muito isso. Você pode até fazer num EP, mas é um espaço mais curto para trabalhar um conceito e tudo o mais. Eu acho que as pessoas vão ouvir álbuns por muito tempo. Álbuns ainda serão feitos, e vão ficar conhecidos como álbuns, você tem casos recentes na música mundial e brasileira. Vide o disco Damn, do Kendrick Lamar, que foi lançado há uns 2 anos [N. do R.: na verdade saiu em 2017] e é um álbum que marcou; o Nó na Orelha, do Criolo. Citei dois de Rap, mas há vários outros de vários estilos.
Por outro lado, dentro esta coisa da era da informação de ser tudo tão acelerado, a modernidade líquida, eu acho que o consumo de música também se transformou. As pessoas não ouvem hoje em dia um disco inteiro numa vitrola, antes era o que dava pra fazer. Depois veio o aparelho de CD com carrossel com no máximo 3 CDs e ficávamos ouvindo um shuffle daquilo. Hoje em dia você tem playlists com milhões de músicas ao alcance do dedo, no celular. Então a gente vive a era das playlists, dos singles e EPs. Mas acho que cada coisa tem seu Lugar. A gente quis lançar esse EP agora pois já tínhamos estas 5 músicas elaboradas e achamos que elas conversavam entre si, e por isto formavam uma coisa coesa. A gente inclusive chamou o Alexandre Kassin , que produziu junto com a gente o EP, e achamos oportuno lançar neste formato. É um formato interessante e que proporciona a capacidade de produzir coisas num espaço mais curto de tempo, mas não é hegemônico, é uma coisa de ocasião.

Sobre Curitiba: Qual a visão de vocês sobre o público da cidade? Já tocaram aqui com o Braza? Se sim, como foi?
Curitiba é uma cidade muito singular, uma cidade que tem uma questão cultural bem forte, bem viva. Eu pelo menos vejo isto, onde as pessoas, na média lêem bastante e ouvem música, tem festival de teatro. Minha impressão de Curitiba é que está muito ligada a cultura. E a gente percebe isto no público também. Com o Braza já tocamos duas vezes, esta será a terceira. A gente tocou logo com o disco de estreia, depois a gente tocou uma outra vez, se não me engano na turnê do 2º disco, e agora estamos voltando com o EP Liquidificador, para fazer este evento no sábado, em dobradinha com nosso camarada Armandinho. Curitiba tem uma memória muito viva pra gente, por esta questão do público ter um nível crítico forte, as pessoas se interessam mesmo por música. Pelo menos é o feedback que a gente recebe de uma galera que vai fundo no que está sendo feito, no lance artístico mesmo. A gente fica bem contente com isto. E tocamos muitas vezes com o ForFun; Curitiba é uma cidade com a qual a gente tem uma relação bem legal, especial, e temos muitos amigos por aí, muitos mesmo. Esta vai ser mais uma oportunidade da gente celebrar isto tudo.

Antes de acabarmos, uma curiosidade: O ForFun gravou uma música chamada Blake Metal. Qual a ideia? É uma brincadeira com estilo musical tão sisudo? Vocês tem um pé no Metal também?
Poxa legal, Clovis. Esta música é do primeiro álbum do ForFun. Isto tem pelo menos uns 15 anos. Cara, ela surgiu de uma brincadeira. Como eu falei, no ForFun a gente era muito eclético, um projeto no qual a gente não tinha muito critério, fazia o que tava afim, o que estávamos curtindo. A gente curtia muito Hardcore na época, tanto que o primeiro disco do ForFun é todo meio baseado no HC Melódico, nos desdobramentos do Pop Punk e tal. O Metal eu particularmente não ouvi tanto, ou não ouço. O Rodrigo, baixista do ForFun, gosta muito de Metal, ouve muita coisa de Metal até hoje. O Danilo e o Nicolas tiveram com certeza ao menos o básico do metal – não conheço tanto a fundo – mas Metallica, Iron Maiden, enfim, os obrigatórios digamos assim. E veio daí este lance. A gente curtia muito tocar esta música, uma instrumental. Para você ver o ecletismo do ForFun, a gente tinha um instrumental Dub e um instrumental Metal [risos]. Era realmente uma miscelânea. E a brincadeira do nome: “blake” era uma gíria que a gente usava para uma coisa muito boa: “pô, isso aí ta blake, tá bom”. Este era o lance do “Blake Metal”. Era legal tocar, a gente tocou ela muito tempo nos shows, como um interlúdio. O Metal tem muito esta onda da coisa de brincar, da virtuose e tal. Mas é isto, surgiu de uma brincadeira.

Deixem um recado para o público de Curitiba e convidem a galera pro show.
Salve pessoal ligado no Acesso Music, aqui quem fala é o Vitor, do Braza, mandando um salve pra todo Paraná, para fazer aquele convoque muito especial: Sábado agora vai rolar lá na live, Braza e Armandinho. Uma noite de celebração, de muita dança, muita tolerância, de muito amor no ar. Todos convidados! Forte abraço, Curitiba! valeu!

SERVIÇO
Braza e Armandinho na Live
Data: 16 de junho de 2018 (sábado)
Local: Live Curitiba
Endereço: Rua Itajubá, 143 – Portão
Horário: 22h (abertura da casa)
Ingressos: a partir de R$ 60
Venda: www.diskingressos.com.br/event/armandinho-2018

Evento no Facebook: www.facebook.com/events/194368437848795

foto: promocional/divulgação

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