[Cobertura] Engenheiro de som dos Beatles, Geoff Emerick, ministra palestra em Porto Alegre

um comentário

por Day Montenegro
revisão Daiane Costa

A semana fria em Porto Alegre foi intensa e repleta de emoções para os fãs de Beatles e profissionais do mercado musical. A capital que respira cultura Beatle recebe todos os anos inúmeros eventos e exposições sobre o famoso quarteto de Liverpool, sem falar que já foi palco de dois gloriosos shows de Sir Paul Mccartney (2010 e 2017) e um de Ringo Starr (2011). Desta vez, graças ao renomado Audio Porto, que abriga hub criativo e um dos maiores estúdios de gravação do país, a cidade vive novamente dias históricos e inesquecíveis para qualquer fã da banda. O célebre engenheiro de som dos Beatles, Geoff Emerick, esteve na capital para apresentar sua Master Class Premium, que aconteceu entre os dias 15 e 17 de junho, onde explicou sua dinâmica e processos de gravação dentro do estúdio, e também mostrou sua trajetória ao lado de Paul McCartney, John Lennon, George Harrison, Ringo Starr e o produtor George Martin.

Na última quinta-feira (14), o britânico de 72 anos ministrou uma palestra aberta ao público, contando detalhes de sua carreira como engenheiro de som, e como foi trabalhar nos álbuns mais revolucionários do “Fab Four”, como Revolver (1966), Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band (1967), The Beatles (1968) e Abbey Road (1969). O evento sediado no Audio Porto, contou com um pocket show de Pedro Veríssimo e Marmota Jazz, que deram início aos trabalhos da noite interpretando canções famosas dos Beatles e de outros artistas gravados por Emerick. Marcaram presença na palestra grandes nomes da música local, como também, inúmeros produtores, estudantes de áudio, compositores e fãs, que foram prestigiar e aprender um pouco mais sobre a trajetória do engenheiro, tudo com tradução simultânea do inglês para o português.

Entrevista com Geoff Emerick

Emerick, sempre muito simpático, contou em ordem cronológica partes do processo de gravação de cada álbum, explicando o lado técnico (instrumentos e aparelhos utilizados), e os desafios enfrentados pelo jovem engenheiro – que deu início em sua carreira com apenas 15 anos de idade, quando ingressou na EMI Records em Londres. Quando tinha 19 anos, o renomado produtor George Martin o convidou para ser o engenheiro de gravação dos Beatles em 1966, no exato momento em que John, Paul, George e Ringo estavam deixando o palco e iniciando um período de experimentação sonora nos estúdios da Abbey Road. Emerick conta que iria negar o pedido, mas que algo forte em sua mente o mandava aceitar. Aquele jovem engenheiro de som jamais imaginaria o quão importante aquela fase seria para a história da música mundial, e claro, para sua carreira.

Começando a palestra, Emerick contou sobre a gravação do álbum “Revolver” e seus primeiros desafios para atender às vontades e ideias malucas dos músicos, que mais do que nunca queriam mudar o tipo de som que vinham fazendo até então. Em “Tomorrow Never Knows”, relatou que John queria efeitos em seus vocais, como se ele fosse o próprio Dalai Lama pregando do alto de uma montanha. Já Ringo, queria experimentar um novo som em sua bateria, assim como Paul e George em seus instrumentos. A todo momento pedidos inusitados chegavam a Emerick, e assim ele aprendeu a se virar com o pouco material que tinha, fazendo coisas fora do comum para conseguir alcançar a satisfação dos músicos, ganhando rapidamente a confiança de todos.

Rafael Hauck (direita), proprietário do Audio Porto

Emerick em sua vontade de ir além, contou que vivia quebrando regras do próprio estúdio, sendo criticado inúmeras vezes por fazer isso. Em suas palavras, não se intimidava, e conseguia alcançar resultados absurdamente incríveis para a época, já que não haviam muitos recursos para se trabalhar. Foi dele a ideia de gravar baterias com mais de dois microfones e também a de retirar a pele frontal do bumbo da bateria para preenchê-lo com panos (hoje um padrão). Vale ressaltar aos leitores que, hoje em dia, a maioria dos plug-ins disponíveis em softwares como Pro Tools, são baseados em músicas dos Beatles.

Ele contou ainda que durante as gravações de Sgt. Pepper’s, as quais muitas vezes duravam madrugadas, os músicos também queriam inovação em sua sonoridade. Emerick comentou sobre a pressão que sofria, já que no vocabulário dos Beatles não existia a frase “não posso”. E mais uma vez – o engenheiro se viu quebrando regras, motivo este que lhe rendeu uma premiação técnica no Grammy, pelo incrível trabalho realizado. Emerick contou também que John queria uma orquestra de 90 pessoas para o álbum, mas que com o baixo orçamento que tinham, só iriam conseguir 45 pessoas. O engenheiro teve que usar de suas ideias e habilidades para duplicar o número de vozes, atendendo assim o inusitado pedido de Lennon. No final das gravações, explicou que o resultado na época foi mais do que satisfatório para eles, e ao finalizarem o álbum, sabiam que Sgt. Pepper’s era muito especial. Havia tanto esforço de diversas pessoas, que era impossível alguma outra banda chegar nesse nível de produção naquela época. Quando Emerick mostrava as músicas para as pessoas, elas não tinham ideia de como ele havia conseguido conquistar aquele tipo de som, impressionando a muitos.

Entrevista com Geoff Emerick

Dentre as diversas histórias, Emerick falou também sobre a personalidade de cada músico, e como era poder trabalhar com o grupo. Explicou o motivo de não ter continuado durante as gravações do “álbum branco”, e a razão pelo qual aceitou o convite de Paul para trabalhar posteriormente no álbum Abbey Road (o qual rendeu mais um Grammy ao engenheiro, e que é considerado por George Martin o melhor disco da carreira dos Beatles). Emerick falou também sobre os processos de gravação dentro do estúdio da Apple, e como surgiu a ideia da icônica capa do disco, que hoje é a marca registrada da banda.

Por fim, as composições de Lennon e McCartney e o brilhante toque do produtor George Martin foram elementos essenciais para o grande sucesso dos Beatles. Mas sem a coragem, a visão e a determinação de Emerick, essas gravações seriam realizações bem menores. O engenheiro não só fez parte de um movimento revolucionário na música, como também inovou as técnicas de gravação em estúdio, quebrando regras e trazendo novos conceitos à indústria musical. Ele elevou os padrões nos processos de gravação, fazendo coisas que outros profissionais da área jamais iriam tentar, se tornando então, uma lenda entre engenheiros de som.

Ao final da palestra, Emerick respondeu perguntas da plateia, e ainda participou da sessão de autógrafos de seu livro “Here, There And Everywhere – Minha Vida Gravando Os Beatles”, no qual conta detalhadamente sua carreira como engenheiro de som de uma das bandas mais aclamadas e bem-sucedidas da história da música.

1 comentário em “[Cobertura] Engenheiro de som dos Beatles, Geoff Emerick, ministra palestra em Porto Alegre”

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s