Infusion: Espetáculo chega a Curitba no SESC da Esquina; confira nosso papo com o trio Pablo Vares, Letícia Spiller e João Silveira

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O espetáculo Infusión! mostra a força da arte flamenca unindo música instrumental, canto e dança. O trabalho é composto pelo músico uruguaio Pablo Vares, a atriz e cantora carioca Letícia Spiller e o sapateador e pesquisador gaúcho João Silveira.

​O trio se inspirou na integração de culturas e de saberes como forma de poesia e de expressão. A fusão é o mote, o desafio também. Conversamos com exclusividade com os três artistas, para nos debruçar sobre a concepção, as referências e o futuro de Infusión. Abaixo, você confere o serviço da apresentação que farão em Curitiba, no SESC da Esquina.

Por Clovis Roman

Infusión une música, canto e expressões corporais pela dança. Como é unir estas diferentes manifestações artísticas em um único trabalho? Há uma programação lúcida para isto ou o a união de tudo é algo mais espontâneo?
Joao: Há um processo lúcido de organização das ideias e de tentar entender como a música instrumental do Pablo, o canto da Letícia e a minha dança poderiam se fundir. E claro que houve toda uma preparação, de mais de seis meses de pensamentos e reflexões de como estas coisas poderiam se encaixar. Mas de certa forma também isto vai se juntando naturalmente. A partir do momento que montei o roteiro e começamos a ensaiar, fomos encontrando pontos que poderiam ser desenvolvidos. Além destes elementos, a música instrumental a dança e o canto, entrou a poesia em toda a obra, o bastante da expressão. Embora seja um espetáculo que a gente não encena nenhum personagem, claro que tem muita expressão dos nossos sentimentos, daquilo que a gente quer vivenciar.

Sendo Infusión um produto artístico, que atende as demandas visuais e auditivas do público, além de causar outras sensações, certamente, vocês já chegaram a debater alguma maneira de registrar este espetáculo em algo perene, como um DVD ou algo similar?
João: O espetáculo vem sendo registrado desde o começo, por vídeos e fotos. As principais fotos são de uma artista profissional, que está nos acompanhando sempre, chamada Karina Friedrich, que traz as imagens; e um diretor de vídeo, o Giovani Canan, que fez as primeiras imagens do espetáculo, e fez um registro no Rio de Janeiro. Este é um material que já está sendo trabalhado. Mas é importante entender que: um material de vídeo – a gente nem fala em DVD – que possa a vir às plataformas digitais, temos que entender como uma outra obra. Não é aquele espetáculo que é visto em cena, mas uma adaptação daquilo pela visão de um diretor, para esta plataforma. É muito provável que isto aconteça sim, juntamente com a gravação do áudio do espetáculo. Para que a gente disponibilize não apenas nas plataformas de vídeo mas também nas plataformas de música. Isto está nos nossos planos, espero que possa acontecer em breve.

A Letícia já declarou em entrevistas que você deu o passo inicial para que vocês se juntassem a criassem o espetáculo Infusión. Seu lampejo inicial era o que Infusión se tornou hoje, ou isto cresceu desde sua concepção até agora?
João: Infusión está sempre crescendo. O espetáculo está sempre em transformação, ele é vivo, pois não temos personagens em cena. Somos nós mesmos, colocando algumas coisas daquilo que fazemos com uma certa naturalidade: eu na dança, a Letícia cantando e o Pablo tocando violão. Ele é sempre muito vivo, sempre se transformando a medida que nossas vidas vão evoluindo. A gente se desafia muito em cena, e fazemos algumas coisas que o público não espera. Alguma coisa que nós saímos de nossa zona de conforto. Um exemplo: A Letícia, em um momento, se arrisca a tocar um instrumento. Em alguns momentos nós fazemos coisas que não estavam programadas. Ou que o público não espera. A gente guarda um espaço para o improviso e o auto desafio em cena.

Como é feita a escolha do repertório musical da apresentação?
Pablo: Foi um processo que foi acontecendo naturalmente. Como ele não estava pronto, diria que foi um processo construtivo, pois fomos construindo o espetáculo juntos. Foi um coletivo, foi junto com Letícia e João que escolhemos as músicas. Então eu diria que foi um processo natural, construtivo e coletivo. Mas é um processo que antecede a própria existência do espetáculo. Que nós escolhemos as músicas para o espetáculo, claro que aconteceu, já depois que havíamos decidido fazê-lo. Mas tem muitas músicas que vem de antes de nós três nos conhecermos. Tem músicas que compus lá no Uruguai, há uns oito anos, quando ainda morava lá e ainda nem era músico profissional. Tem músicas que compus para o espetáculo, como é o caso de “Infusión”. Tem algumas com a Letícia que ela já cantava e eu tocava, que já tínhamos juntos. E tem algumas que músicas que fizemos juntos para o espetáculo: Por exemplo, as danças que o João faz tinham que ser musicalizadas, e aí foi uma coisa que fomos fazendo juntos. Também tem algumas que inevitavelmente mudaram pelo nosso encontro. O João, além de dançar, faz a percussão. E a linguagem que ele traz, as vezes, me dá vontade de levar a música a outros caminhos, de fazer outras coisas. Em algumas músicas tivemos que fazer algumas adaptações para casarem melhor com as coreografias. Então tem de tudo. Fomos fazendo tudo juntos.

Pablo, sua relação com o Flamenco é, por razões óbvias, bastante estreita. Porém, o que mais você que adiciona ao seu estilo de tocar e consequentemente, à sua música? quais estilos musicais você pode citar como influência relevante em seu trabalho?
Pablo: Primeiramente, falando do espetáculo, tem algumas músicas brasileiras no repertório. Então, neste ponto de vista, poderia se dizer que a música brasileira está me influenciando. Mas, por outro lado, estou tocando essas músicas do meu jeito. Tem outros estilos que me influenciam. Como você disse, tenho uma relação mais estreita com o Flamenco, tenho me dedicado há 10 anos ao estudo desta música. A primeira vez que peguei um violão de nylon foi numa aula de violão flamenco, e foi para tocar flamenco. Meu vínculo até com o instrumento tem sido através deste estilo musical, realmente é profundo. O caminho da arte é infinito, mas dentro do que tenho feito, é o mais profundo. Eu não sou espanhol, não cresci em um ambiente de música flamenca. Até os 18 anos eu desconhecia sua existência. Então vim influenciado por outros estilos, de músicas que eu ouvia. Antes de tocar violão eu tocava guitarra, foi o instrumento que me acompanhou na adolescência, e eu o fazia como um hobby. Então isto também influenciou meu jeito de tocar hoje. Eu diria que o Metal e o Thrash, para ser mais específico: bandas como Metallica, Megadeth, Pantera, Children of Bodom e Death; foram bandas que me influenciaram profundamente, escutei muito. Tem outro estilo, que eu nem sei como se chama, que se toca com violão Folk, que o intérprete que mais me tocou foi o Erik Mongrain, canadense. Ele tem um estilo de tocar muito particular e muito pessoal, que também levo no coração.

Essas influências são mais sutis no meu trabalho. Somente quem conhece bem a música flamenca ou que tiverem um ouvido bem apurado vai notar estas influências em minha música. Quem não estiver muito acostumado a ouvir flamenco, me vê tocando com um instrumento clássico, ou seja, violão de nylon, e que uso técnica de flamenco e me encaixa dentro do Flamenco. Mas quem já conhece o Flamenco vai escutar e saber que tenho outras influências: “Ah, isso aí não um cigano da espanha tocando, é um outro olhar para Flamenco”. Quem escuta muito Metal de repente me escuta e reconhece algumas coisas, principalmente na escolha das melodias e nas harmonias e na forma de estruturar as músicas. Com respeito à Música Brasileira, é um trabalho de imersão tão recente que não diria ainda que me influenciou. Está sim, na vida, a nível pessoal, este mergulho neste universo musical tão incrível. Mas não para levar isto ainda para outros trabalhos e composições.

O espetáculo tem danças e coreografias voltadas à América do Sul, o Flamenco, mesclado com a música Brasileira. Como Infusión, há espaço para outros movimentos, manifestações de outras regiões?
Letícia: O espetáculo já tem uma fusão bem ampla, só não tem músicas, por exemplo, em inglês, que é uma pegada que eu também tenho vontade, ou trazer também uma canção francesa, por que não, fazendo a mesma fusão que estamos fazendo com a música brasileira. Eu acho que tem músicas pra gente fazer este tipo de arranjo diferenciado, que o Pablo faz super bem. Mas isto é uma coisa mais pra frente, pois por enquanto a gente está focando neste espetáculo de agora, que já tem convidados. A gente abre espaço para um convidado para cada show que a gente está fazendo.

Letícia, o canto vem se tornando algo mais presente em sua vida, ou ao menos, ao público que te acompanha. Como isto cresceu em você e qual expressão esta modalidade artística lhe permite? O que o cantar lhe permite extravasar que outros modos de expressão artística não lhe permitiam, ou permitiam menos?
Letícia: O canto se tornou mais presente por que fui convidada por companhias de teatro para trabalhar o canto dentro do teatro, com musicais. Mas musicais fora do circuito comercial, não foram musicais prontos, encomendados. Muito pelo contrário, a gente fazia até uma certa crítica a este tipo de cultura. Era um espetáculo chamado Outside, que falava do artista outside, dessa arte outside, que pouca gente conhece, e que se expressa muito visceralmente. Nesta peça tinha música do David Bowie e também composições autorais, pois eram inspiradas numa sinopse que o Bowie escreveu para a virada do milênio chamada “Outside”. Ele lançou este álbum e ele se fotografou em todas as personagens. Mas nunca tinha sido montado algo no teatro ou cinema com esta sinopse. E foi uma ideia da “Aquela Companhia de Teatro”, uma companhia aqui do Rio de Janeiro, super conceituada, que me contratou para trabalhar. Depois a gente fez um outro trabalho, também musical, chamado Edypop, que lidava com o mito de Édipo com as músicas do John Lennon. A gente achava que o Lennon era o mais mítico dos ídolos Pop, o mais edipiano, no caso. E o Édipo era o mais Pop dos mitos. Isto começou a ficar cada vez mais necessário, a prática da técnica vocal para o canto. Eu tinha mais esta técnica para o teatro, para projecção vocal, o que me ajudou muito em relação ao canto, pois tem muitas coisas parecidas. Mas é diferente, o caminho da voz no canto, as técnicas, os aquecimentos são diferentes. Isto está me despertando para um outro lado, e depois que conheci o Pablo isto ficou mais forte ainda. Depois de Dorothea, que é um clássico de Nelson Rodrigues, puro teatro, a gente começou a se envolver em projetos mais musicais, como o coletivo El Camino e o Infusión.

Como está a agenda vindoura do espetáculo? Já cogitaram algo no Uruguai ou pela América do Sul ou Latina em geral?
Letícia: Sim, nós cogitamos a possibilidade de ir ao Uruguai, pois o João está fazendo um trabalho lá fora e a família do Pablo é de lá. Isto é um desejo nosso, talvez aconteça este ano ainda, vamos torcer. Estamos cogitando algumas praças que estamos contatando, como Portugal, quem sabe alguma parte da França. A gente está querendo levar ao exterior sim: Itália, Espanha, vamos ver o que vai rolar primeiro.

E como foi o retorno do público nas apresentações feitas até agora?
Letícia: Eu acho que a grande maioria do público que está nos assistindo está curtindo muito, e está nos dando um retorno super positivo.

SERVIÇO
Infusión
Data: 29 de junho de 2018 (sexta)
Local: Teatro Sesc da Esquina
Endereço: Rua Visconde do Rio Branco, 969
Horário: 20h
Classificação etária: 14 anos
Ingressos: a partir de R$ 25
Venda: SAC da unidade Sesc da Esquina
Informações: (41) 3304-2222 – (41) 3304-2282

foto: Karina Friedrich/Divulgação

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