[Entrevista] Jay Vaquer Fala sobre seu novo álbum e sua carreira para o Acesso Music

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Ecos do Acaso e Casos de Caos é o oitavo álbum de inéditas de Jay Vaquer. É um trabalho denso, cujo conteúdo está ligado a um musical escrito pelo próprio artista. Tendo em vista ser este um dos ótimos lançamentos do ano da música brasileira, entramos em contato para trocarmos algumas palavras sobre o disco, assim como sua carreira. O resultado é conciso, honesto e até mesmo despojado.

por Clovis Roman

Primeiro gostaria de dar uma rápida passada pelos alicerces de sua relação com a música: O que o seu pai trouxe para você, da música americana e também do Rock brasileiro, pelo fato dele ter trabalhado com Raul?
Jay Vaquer: Se trouxe algo, foi geneticamente. Nunca houve uma relação nesse sentido.

E sua mãe, [Jane Duboc] uma cantora de alto calibre, o que ela trouxe à você para sua formação musical, que você depois viria a desenvolver?
Jay: Mostrou muita música boa desde sempre. Me colocou dentro do estúdio desde sempre. Me ensina bastante até hoje.

Aliás, você participa no último disco dela, cantando uma faixa, e além disso, há algumas composições suas lá. Quem sinalizou à quem primeiro?
Jay: Isso parte dela. Ela lançou um trabalho inteiro com músicas minhas. Aliás, um lindo trabalho.

Li que a canção “Cotidiano de um Casal Feliz” teria tido, em sua versão embrionária, cerca de 10 minutos, após uma crônica feita por ti ter sido musicalizada. Ela saiu, claro, em tamanho bem menor, e inclusive teve grande sucesso na época. Você já registrou ela naquela forma original, bastante extenso?
Jay: Nunca fiz isso. Nem sei se ainda tenho esse material guardado. Tomara. Mas era algo enorme sim. Batia “Faroeste Caboclo”. [risos]

Você esteve dentro do mainstream, com clipes na MTV e alta rotatividade em rádios. Como você se vê hoje como artista? Você acha necessária esta exposição buscando sempre alcançar o maior número de pessoas? Esta sempre foi uma preocupação sua?
Jay: O único momento foi no terceiro CD, “Você Não Me Conhece”. Havia o respaldo da EMI Music. Esse breve período comprovou na prática que sim, meu trabalho é completamente viável numa dimensão mais presente, quando há uma estrutura, investimento e tal. Antes e depois disso, sempre estive distante do mainstream. Adoraria que aquela EMI tivesse durado um pouco mais. Mais uns dois anos e eu teria uma situação mais confortável pra fazer shows pelo Brasil. Num patamar “estabelecido” tal qual um Lenine, [Paulinho] Moska. Ainda enfrento muita dificuldade para atrair o interesse de contratantes e para fazer o público crescer. Ainda não consigo estar nos principais festivais de Rock. Acho isso uma merda. Quero sim conseguir falar pra mais pessoas. Sei que o trabalho merece isso e sigo otimista. Tento participar do “Altas horas” faz 18 anos… Seguirei tentando. Enquanto houver saúde.

Ano passado saiu, apenas em formato digital, La Guapa Payola, com versões de singles de sua carreira e algumas releituras de obras de Renato Russo. Como foi a concepção desta ideia (da seleção das faixas ao formato de lançamento em si)? E você chegou a cogitar lançar isto de maneira física, mesmo que em alguma edição limitada ou formato específico, como por exemplo, só em vinil ou algo assim?
Jay: O “La Guapa” é uma compilação de faixas que não estavam registradas nos CD’s. Achei bacana oficializar esse material ao disponibilizá-lo nas plataformas digitais. André Dias sofreu pra masterizar e deixar legal, porque o que entreguei estava em MP3 [risos]. Não tinha os tracks todos guardados. Peguei de fãs. Não cogitei lançá-lo fisicamente.

Ventilou-se por aí um vindouro registro ao vivo em DVD. Existem planos concretos para isto agora com a turnê do disco Ecos do acaso e casos de caos?
Jay: Não há nada de concreto. Só há o desejo. Nem mesmo uma turnê do CD mais recente. Cada show é uma dificuldade imensa para conseguir agendar. A conta não costuma fechar ao sair do Rio de Janeiro.

O experiente guitarrista Rafael Moreira, que já tocou com Steven Tyler e Paul Stanley, por exemplo, além das divas Christina Aguilera e Pink, trouxe contribuições nas composições do disco?
Jay: Não. Chego no estúdio com as composições definidas e mesmo com esqueletos de arranjo, riffs. A contribuição dele está na execução maravilhosa. Nos timbres, na pegada. Maravilhoso músico e pessoa.

Na banda que gravou ainda há o também experiente Jamie Muhoberac nos teclados (que tem até Rolling Stones no currículo), Jamie Wollam na bateria (que já gravou com Michael Sweet, do Stryper, e hoje está no Tears for Fears) e o baixista de extenso currículo Sean Hurley. Como você juntou este time todo? Tudo se facilitou por eles serem músicos de estúdio? O pessoal do EastWest Studios os sugeriu ou você já queria ter, ao menos alguns deles ali, previamente?
Jay: Muhoberac já é meu terceiro trabalho com ele (participou também em “UmbigoBunker!?” e em “Canções de Exílio”). Encontrei o nome dele em fichas de trabalhos incríveis, fomos atrás (fui com Moogie) e deu tudo certo. Sean Hurley esteve também em “Canções de Exílio”, assim como o Rafa Moreira. “Umbigobunker” tem também Vinnie Colaiuta, Greg Phillinganes, Dean Parks, Tim Pierce. “Canções de Exílio” tem Aaron Sterling e Tim Pierce. Pena que pouca gente saiba dimensionar o que é isso. Esse tipo de cuidado. Mas fico feliz pela realização e especialmente com os resultados obtidos. EastWest é um puta estúdio fantástico, mas não há um departamento de direção artística lá dentro. Você precisa chegar ali já sabendo muito bem o que vai fazer, como e com quem. Isso tudo PODE garantir um lindo dourado no produto. Mas ainda assim, pode ser um fétido cocô… possivelmente dourado. [risos]

O espetáculo musical Cem Miligramas, escrito por você, teve de fato influência no conteúdo musical e lírico do novo álbum, como você mesmo afirmou que aconteceria em entrevista ano passado? E como condensar tema tão denso em um álbum apenas?
Jay: “Cem miligramas” era o nome desse projeto por um tempo. Fiz alguns tryouts na trajetória até aqui. E somente agora ele está pronto. Ainda vai acontecer e será lindo. São 40 músicas. Mais da metade consegue sobreviver quando retiro do contexto, do fio narrativo. Então peguei 10 dessa vez, e não é um top10. Fui pegando aleatoriamente no limite que estabeleci, por questões de grana e tempo. Todas com vida própria. No final do ano, começo outro com mais 10. Não estão na ordem do espetáculo.

O disco conta com sons bem Rock, como “Tona” ou “Despas de deux”, mas também abre espaço para sons mais sorumbáticos como “Cada Cadáver” e até mesmo “Fosse (O Dedo e o Gatilho)”. Mas no geral a abordagem é mais pesada mesmo – e sua performance vocal, em geral, reforça isto. Isto foi algo feito de maneira consciente, proposital? Ou quando você viu já haviam diversas canções assim?
Jay: São canções do musical. Elas contam a história. De vez em quando, flerto com a vibe dos personagens. Especialmente quando é o “Jeremias” que canta na peça. Pode ser que eu faça esse papel. Vamos ver. [risos]

“Abrigo” esconde em seu título uma letra bem ácida, direta, que me parece ser relacionada ao aborto. O trecho “quando vejo a cegueira de quem prefere não ver, só mudando o nome da doença” parece uma direta crítica ao fanatismo religioso. Este foi seu enfoque? Você admitiu que esta letra poderia ter interpretações variadas?
Jay: Dentro do musical fica mais claro. Quando retiro do contexto, sim, as interpretações podem ser variadas. E gosto muito disso. O fato é que ele fita a foto do feto [risos].

Sendo um álbum tão direto, foi intencional encerrá-lo com “Questão de Tempo”, uma bela canção de amor? Foi uma maneira de dizer algo como “apesar da vida ser tão dura de ser vivida, ainda há o amor, um bálsamo para nossas feridas”?
Jay: No musical, é uma canção de tudo que nunca foi e nem será. É uma canção dura, triste que quando retirada, vira essa coisa “Disney”. Gosto muito disso também.

Jay, esta é uma pergunta que faço a todos meus entrevistados: Qual banda ou artista você acha que poderia registrar uma cover bacana de alguma de suas músicas?
Jay: Qualquer uma que faça algo com verdade, honestidade, competência, talento, entrega, ousadia e esmero.

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