[Entrevista] Velhas Virgens e seu trunfo na música independente nacional

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O grupo Velhas Virgens é irreverente. O Velhas Virgens faz Rock and Roll descompromissado, e leva o lema de suas vidas a sério. Não como tantas outras bandas por aí que cantam sobre festas, brigas e cervejadas mas que só o fazem para vender discos. Goste ou não deles, é necessário reconhecer que eles são autênticos!

O Velhas Virgens se apresenta em Porto Alegre, dia 11 de Agosto, no Opinião. Enquanto o show não chega, confira uma entrevista muito bacana com o vocalista Paulão. Ele, assim como nas letras de sua banda, respondeu tudo sem meias palavras, sem censuras. O tempo é curto para se perder tempo. Esta máxima se aplica ao artista em questão:

por Clovis Roman e Arianne Cordeiro

“Eu bebo sim e tou vivendo, tem gente que não bebe e tá morrendo” – frases assim, odes a farra, festas e afins, são um retrato da vida de vocês? Ou existe um tanto de personagem nisto? Pergunto isto pois quero saber se vocês pensam em dar ao público aquilo que ele quer, ou seja, letras despojadas, desbocadas, para não se preocupar com nada, mesmo que momentaneamente.
Paulão: A gente aposta na diversão como arma para encarar a vida, sim! Esta letra que você tá citando não é nossa, é de um samba dos anos 70 gravado pela grande Elizeth Cardoso. Mas o samba também aposta neste tipo de sentimento e é nesta encruzilhada que a gente se inspira no Samba, especialmente os sons mais boêmios e bem-humorados, Noel, Adoniran, marchinhas dos anos 40. Mas se quiser um lema mais roqueiro, pense em “Diversão”, do Titãs. O meu desafio pessoal na vida é estar sempre feliz para, caso morra de repente, vá para, seja lá onde for, sorrindo. É um pouco de ‘boboalegrice’ da minha parte, mas também é uma coisa meio que “Ando devagar porque já tive pressa. E levo esse sorriso porque já chorei demais” (Renato Teixeira). Perdi meus pais quando tinha pouco mais de 20 anos. Não sei se me recuperei disso ainda. Trinta anos se passaram e a única certeza que tenho da vida é que tudo pode acabar na próxima esquina. Então, minha atitude é viver da melhor maneira possível, sorver o melhor da vida a cada segundo (que pode sempre ser o último) e procuro imprimir isso nas minhas composições.

Em tempos de opiniões políticas fortes de ambos os lados – e também do meio – como vocês se posicionam a tudo que acontece na nossa política e no momento que o Brasil vive? Vocês se declaram apolíticos ou acompanham este assunto de perto?
Paulão
: Temos, enquanto integrantes da banda, posições políticas diferentes, especialmente eu e o Cavalo. A amizade é enorme e procuramos nos respeitar até onde dá. Aí a banda fica neutra. Nenhum de nós está alheio ao que nos cerca, à corrupção, à impunidade. Temos filhos pequenos e queremos um país melhor pra todo mundo. Quem não quer? Mas a verdade é que os políticos e líderes aproveitadores e corruptos são brasileiros. Representam uma boa parcela de nós mesmos. O melhor e o pior do Brasil são as pessoas. O brasileiro pode ser solidário e gentil de uma forma incrível na mesma medida em que pode ser cínico e aproveitador. O que estou tentando dizer? Somos responsáveis diretos pelas mazelas que campeiam país afora. Mudemos nós, mudemos nosso bairro, nossa cidade, nossa atitude para que o país e as pessoas todas mudem. É preciso que pensemos no bem comum em detrimento do individual. Parece papo furado, mas é assim que tem que ser.

Todos Os Dias A Cerveja Salva A Minha Vida! uma espécie de homenagem a Charlie Sheen, é o último álbum do Velhas Virgens. Mais material autoral está sendo planejado?
Paulão: Charlie Sheen é uma apologia ambulante ao politicamente incorreto, à sinceridade. Sim, ano que vem deve sair coisa nova. Tenho composto bastante e o Cavalo, idem. Creio que pode ser um trabalho meio com uma cara setentista, meio psicodélico… Pesado! Mas a gente só vai saber quando entrar no estúdio e trabalhar. Às vezes você tem algo em mente, mas a música acha outro caminho, cria vida própria. Lançar um CD com 10 ou 12 músicas parece algo meio perdido no tempo. Vamos criar uma estética sob um mote e desenvolver canções sob este ponto de vista. Duas, quatro, cinco? Soltar todas de uma vez ou aos poucos, apenas na internet? Questões a serem definidas, adequações ao momento da música e do mundo. Mas uma boa canção ainda é uma boa canção, me toca e pode mudar o mundo!

Uma banda experiente como vocês deve ter histórias bizarras para contar, você lembra de alguma em especial que possa nos contar?
Paulão
: Quem vive as coisas intensamente geralmente não lembra de detalhes. Dizem que Hendrix foi roadie de Chuck Berry, e Lemmy de Hendrix. E ninguém lembra ou revela (ou revelou) muita coisa. Me lembro de passar uns 15 anos bastante bêbado, sem lembrar de cidades, hotéis, camarins, contratantes. Lembro de ter tocado o maior terror que pude cantando na maior banda independente do Brasil. Mas memórias específicas, hum… diarreias no meio do show, terminar a apresentação sentado na privada e cantando no microfone sem fio (Santos), sexo no banheiro sem saber o nome da moça (vários lugares, várias moças). Uma moça que foi subindo com sua mão pela minha perna e grudou nas bolas do meu saco através da cueca (Sapiranga), e cantei duas músicas assim. Desmaios chapado no corredor do busão, 50 horas dentro do ônibus num fim de semana de quinta a domingo, curando ressacas e recomeçando bebedeiras, empurrar ônibus atolado no litoral de Santa Catarina. Acordar num hotel sem ter a menor ideia da cidade e de que dia era, sem saber onde ficava a porta. Um coro de mais de 30 mil pessoas me chamando de ‘maricon’ em Asunción [Paraguai]. Desmaio na piscina do hotel após umas 15 caipirinhas, perdi o show do Steppenwolf e só acordei de manhã (Brasília). Sei lá…

Vocês já tiveram problemas judiciais por causa das letras da banda?
Paulão
: Não, mas já tivemos nosso nome censurado em chamadas de rádio: show da banda das velhas piiiiii, e retirada do cartaz com nosso nome da porta da casa de show, prédio em que estávamos hospedados cercado pela polícia pois havia suspeita de menores nos quartos e desaparecimento de dois integrantes no Rio de Janeiro após um show no Circo Voador, quando o hotel ficava a dois quarteirões do local do show.

Aliás, como foi no começo, quando vocês testaram uma música chamada “Buceta” ao vivo? Como foi quando perceberam que a galera tinha curtido algo tão explícito?
Paulão
: Quando mostrei “Buceta” no ensaio Cavalo, meu parceiro desde 1986, disse: “olha, esta música não vai dar. Vamos apanhar das meninas, da polícia”. Sugeri que tentássemos e se não desse certo a gente tirava a música. A recepção no Garage Rock foi incrível, início dos anos 90, em São Paulo. O Blues esculhambado seduziu a todos e orientou o nosso caminho artístico. Uma ousadia. As pessoas admiram a coragem.

Quais são suas músicas favoritas para tocar ao vivo? Como vocês costumam organizar o repertório dos shows; quais os critérios?
Paulão
: Geralmente quem constrói o setlist sou eu, e apresento pro povo. Tem questões técnicas, tem trocas de roupa, tem a tentativa de manter o interesse das pessoas. Tem os caras que precisam mijar no meio do show. Mesmo os mais desavisados querem ouvir “Abre essas Pernas”, então tem que ter. Esta história de preferências vai variando. No momento tô curtindo muito a versão Blues que fizemos do sucesso de Benito Di Paula, “Retalhos de Cetim”. “Siririca Baby” é sempre uma delícia de cantar. Gosto muito de “Seu Buraquinho”.

O site da banda há o “Independência ou Morte – Breve Guia para Produções Independentes”. De onde veio a ideia de fazê-lo? Foi um material que veio sendo escrito com o tempo ou foi algo que surgiu devido a alguma demanda ou necessidade?
Paulão
: Quem cuida disso é o Cavalo, que é o cara que operacionaliza toda nossa demência. Além de contar nossas memórias etílicas esculhambadas, acho que há uma intenção de repassar para os iniciantes um pouco do que a gente aprendeu ralando e quebrando a cara.

Conseguir viver de música no Brasil sempre foi algo muito complicado. Vocês notaram alguma evolução no mercado desde o início da carreira de vocês? O que precisaria melhorar no país para que bandas como o Velhas Virgens tenham mais destaque?
Paulão: O Rock está socado no underground em todo o mundo. Há momentos em que a indústria cultural acha que pode ganhar dinheiro com ele, se apossa, divulga, espreme, suga tudo e joga fora. É um ciclo. Estamos naquele momento em que ninguém dá nada pelo Rock, a não ser quem o ama independente da mídia. É um momento curioso, pois no underground é possível fazer uso da liberdade e isso é combustível para que o gênero retorne forte, renovado e com alguma originalidade. Quanto mais a sociedade e o politicamente correto censuram este caráter revolucionário, que está no DNA do Rock desde seu nascimento, mais ele se alimenta e se torna combativo. Então, quanto mais difícil, mas divertido e legal. O que precisamos no Brasil é uma situação econômica melhor para que a cultura circule mais e a preços mais acessíveis, independente do gênero. Políticas culturais de incentivo, não manipuladas pelas minorias e panelas, seriam bem-vindas. Mas se não vierem, foda-se. A nossa ralação atrás do que acredita e ama nos torna cascudos e valoriza nossa guerrilha.

O Velhas Virgens já trabalhou com artistas renomados no cenário da música brasileira, como Rita Lee e Roger. Existe alguma possibilidade de essa parceria repetir num futuro, ou ainda novas parcerias com outros artistas, até mesmo de outros estilos?
Paulão: São muitos ídolos que gravaram com a gente porque curtiram a nossa proposta. Nunca pagamos nada. Não somos parentes deles, não somos filhos de gente importante, empresários, jornalistas, formadores de opinião. Não somos da ‘tchurminha descolada’. Somos fãs. Somos nós conosco e o resto que se foda! Aí as participações especiais ficam ainda mais valiosas. Olha só quem já gravou com a gente: Adriana Lessa, Andreas Kisser, Benito di Paula, Celso Viáfora, Clemente Nascimento, Digão, Eduardo Araújo, Laert Sarrumor, Luiz Carlini, Marcelo Nova, Nasi, Nuno Mindelis, Oswaldo Vecchione, Paulo Miklos, Pepeu Gomes, Pit Passarel, Rita Lee, Roberto Frejat, Roger Rocha Moreira, Sergio Hinds e Wandi Doratiotto. Temos muitos outros ídolos com que gostaríamos de gravar. Se for possível, vamos chamar, sim.

Agora para encerrar, uma pergunta que faço a todos meus entrevistados: Qual banda ou artista você acha que faria uma cover legal de alguma das músicas do Velhas Virgens?
Paulão
: Eu teria uma síncope de fosse o AC/DC. Mas ficaria profundamente envaidecido se algum dos nossos convidados, que citei acima, tocasse um som nosso. Sonho de consumo para gravar um cover nosso? Alguém que eu gostaria que participasse de uma futura gravação nossa: Erasmo Carlos.

SERVIÇO
Velhas Virgens em Porto Alegre
Data: 11 de agosto de 2018 (sábado)
Local: Opinião
Endereço: Rua José do Patrocínio, 834
Horário: 20h
Ingressos: de R$ 34 a R$ 90
Venda: http://www.blueticket.com.br/22272/Velhas-Virgens/
Mais informações: http://abstratti.com/velhas-virgens-11-ago-2018-opiniao/

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