[Cobertura] Roger Waters causa reações distintas no público curitibano em noite histórica

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Roger Waters
Estádio Major Antônio Couto Pereira
Curitiba/PR
27 de outubro de 2018

por Clovis Roman e Arianne Cordeiro
fotos por Pri Oliveira

A magnitude do show de Roger Waters impressiona. Visualmente, é algo raramente igualado, quiçá apenas o U2. Toda a grandiosidade do palco do músico chegou a Curitiba pela primeira vez na noite de sábado, 27 de setembro. A organização como um todo foi bastante feliz, em todos os elementos possíveis. Por ser véspera de eleição, uma parcela do público estava com os nervos à flor da pele. Casos isolados de violência foram registrados, inclusive. Nisso, o que mais chamou a atenção negativamente foram os gritos pró determinado candidato e as vaias.

As reações negativas nos shows de Waters vem acontecendo desde quando ele iniciou seus shows no Brasil, há algumas semanas. O músico é conhecido por trabalhos com críticas políticas e sociais no decorrer de toda a sua carreira, com álbuns temáticos e aprofundados liricamente. Aparentemente, no Brasil, nem todos estavam cientes disso. Na primeira data no país, ao citar o presidente eleito (na época ainda candidato) como fascista, foi confrontado com vaias e gritos de guerra, dignos de ensandecidos torcedores de futebol. No Rio de Janeiro, ao homenagear Marielle Franco, vereadora assassinada naquela cidade, o ódio se repetiu. E Curitiba, cidade bastante conservadora, com maioria (comprovada pelos números das últimas eleições) de direita, a coisa não foi diferente.

Roger Waters (foto: Pri Oliveira)

O ápice colérico veio nos primeiros 30 minutos do show, iniciado com pontualidade britânica, às 21h30. Faltando 2 minutos para 22h, o horário máximo permitido para manifestações políticas, Waters e banda interrompem abruptamente “Welcome to the Machine” (música que usa a indústria musical como cenário para crítica ao cenário social industrializado). As luzes se apagam e as mensagens no telão explicaram sobre a limitação de horário e que a lei deveria ser respeitada. A mensagem “Ele Não”, contrária ao atual presidente eleito, foi recebida com um misto de vaias e aplausos. Uma quantidade considerável do público foi embora do show nesse momento. Quem já estava ciente do conteúdo do show, do posicionamento de Waters e tudo o mais, ganhou, pois o apinhado estádio ficou com mais espaços vazios, deixando o ambiente um pouco mais confortável.

Um momento de grande desrespeito aconteceu quando um grupo de crianças subiu ao palco para realizar a parte cênica do ultramegaclássico “Another Brick in the Wall”, apresentado em suas três partes. Após finalizarem sua participação, elas, junto a Roger, agradeceram ao público, com sorrisos em seus rostos. Porém uma parcela dos presentes vaiou as crianças, junto a gritos de guerra. Waters respondeu todas as manifestações contrárias com um “Eu amo vocês. Esse show é sobre o amor”. Foi aplaudido pela outra parte da plateia.

Roger Waters (foto: Pri Oliveira)

Mesmo com o êxodo que rolou da parte injuriada pelas críticas, o local permaneceu ainda bastante cheio, e o artista seguiu com seu show, cujo script foi seguido à risca. Não teria como, nem que ele quisesse, improvisar muita coisa, afinal é tudo ensaiado e milimetricamente arquitetado. As imagens no telão, os porcos infláveis em “Dogs” / “Pigs” e uma bola metalizada inflável em “Brain Damage / Eclipse” eram elementos esperados por todos. Outro foi o prisma e as cores da capa do icônico The Dark Side of the Moon, esboçados no ar por feixes de luz, com um efeito visual marcante. A lua, quase cheia, ao fundo, foi o elemento complementar desse belo momento. O tempo, inclusive, colaborou não só com a aparição límpida do satélite, mas também com a total ausência de chuva, que está pela cidade há mais de mês. No sábado, nenhuma gota caiu do céu.

Daria para escrever horas sobre a grandiosidade do evento. Mas entre tanta coisa que rolou, é impossível não citar a fábrica, capa do disco Animals, que foi projetada no imenso (ridiculamente imenso) telão. Quando toda a construção estava na tela, por trás da mesma surgiram quatro chaminés colossais, dando um efeito visual sensacional. Essas ficaram ali até o fim do show.

Música
No que tange a parte estritamente musical, Waters mostrou um show repleto de canções do Pink Floyd, que é, indubitavelmente o que a galera mais queria ver. Algumas composições solo apareceram, como a trinca “Déjà Vu”, “The Last Refugee” e “Picture That”, que foi o momento mais morno do show, pois elas vieram após “Welcome to the Machine” e seu momento de tensão. Belas canções que passaram batidas pelo público, que basicamente só as observou.

Roger Waters (foto: Pri Oliveira)

Apesar da platéia inconstante, momentos como “Wish You Were Here”, “Money”, “Us & Them” e, claro, “Comfortably Numb” (a última) foram quase unanimidade. A dobradinha “Brain Damage” e “Eclipse”, com o prisma projetado por lasers, também foi um momento sublime, e emocionante do show. A dupla de cantoras Holly Laessig e Jessica Wolfe brilhou em seus momentos de destaque, assim como o saxofonista Ian Ritchie, que produziu Radio Kaos, trabalho solo que Waters lançou há mais de 30 anos. Outro membro da banda que chamou atenção foi o guitarrista Jonathan Wilson, que cantou partes de David Gilmour com um timbre similar, porém com identidade.

Na saideira, Roger Waters desceu do palco e cumprimentou o pessoal que estava na grade. Uma despedida singela de um dos grandes nomes do Rock mundial. Não à toa ele conseguiu reunir mais de 41 mil pessoas no Estádio Couto Pereira, um número que o coloca na lista de maiores shows já realizados na história da cidade (quiçá o maior, entre shows pagos). Só para fins de curiosidade: O repertório de Waters teve apenas seis músicas em comum com o de David Gilmour, três anos antes. Quem foi em ambos, portanto, pode conferir uma gama variada de canções do Pink Floyd e viu shows distintos porém complementares entre si.

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