[Entrevista] Dragonheart: quando os dragões são os reis

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Na fila de um show do Gamma Ray em Curitiba, em 1997, surgiu a ideia de formar uma banda. Um ano mais tarde, a estreia nos palcos aconteceria na abertura para o Angra, que começava na cidade a turnê do disco Fireworks. A apresentação acabou não rolando, mas a falsa largada não foi um azar, no fim das contas. Afinal a banda seguiu em frente, lançou uma demo e logo depois lançou seu debut, o até hoje aclamado Underdark. O trabalho seguiu, e 20 anos mais tarde, o Dragonheart se solidificou como alicerce do Metal em Curitiba, com respeito nacional.

O grupo é uma das atrações da 5ª edição do festival Metal Warriors, evento cujo qual estão envolvidos desde o início. Conversei rapidamente com André Mendes (na banda desde 2002) e Marco Caporasso (membro fundador), ambos guitarristas e vocalistas, sobre o festival e um pouco sobre suas duas décadas de história. O grupo atualmente também é formado por Maurício Taborda, outro membro fundador,  baixista e vocalista; e o baterista Thiago Mussi, que entrou em 2010.

por Clovis Roman

O último álbum do Dragonheart, The Battle Sanctuary, mostra uma banda que atualizou seu som sem, entretanto, deixar para trás suas diretrizes básicas. Como vocês enxergam esse trabalho em comparação aos anteriores?
André: Acredito que tenha sido nosso trabalho mais complexo, musicalmente falando. Tem os mesmos elementos de sempre, mas há passagens tecnicamente mais difíceis, convenções de bateria fora do que costumávamos fazer, arranjos de corais mais elaborados do ponto de vista harmônico. Como tínhamos bastante tempo disponível no estúdio, tentamos ousar um pouco no quesito dos arranjos, sempre buscando manter nossa identidade. Acredito que tenha sido o álbum em que mais mesclamos as diferentes vozes numa mesma música também. Tentamos um som de guitarra mais pesado, com afinação mais baixa em alguns músicas, tudo isso eram ideias que tínhamos pensado após o Vengeance in Black e felizmente tivemos condições de realizar.

Foram 10 anos entre Vengeance in Black (2005) e The Battle Sanctuary (2015). O que ocasionou esse intervalo extenso? E há planos concretos para um próximo disco de estúdio?
André: Tivemos muitos contratempos e problemas complexos para administrar em nossas vidas pessoas no intervalo de 2006 até 2013, quando retomamos ensaios para compor o álbum. Tivemos que deixar as atividades da banda um pouco de lado para cuidar destes problemas, mas nunca deixamos de conversar e planejar. Havia o entendimento por parte de todos que era preciso administrar essas situações e esperar. Um pouco disso está no álbum. Foram períodos difíceis, perdemos pessoas próximas. Em certa medida, tentamos passar um pouco disso para o álbum, que ficou mais pesado, denso e tem lá seus momentos melancólicos.

Marco: Sim, temos planos de realizar um novo álbum o mais rápido possível. Temos ideias, começamos uma pré-produção no estúdio do André, o Dragons Cave Studio. Dessa vez, sem trilogias ou um tema específico: queremos fazer uma mistura do Battle Sanctuary com o Vengeance in Black, ou seja, mostrar mais evolução com mais pegada. Não sabemos se lançaremos por um selo ou de forma independente. A prioridade agora é compor e gravar.

Os shows do Dragonheart são sempre muito empolgantes. Já pensaram em registrar algum show da banda para um disco ou DVD ao vivo? Vocês tem registros ao vivo nunca utilizados em seus arquivos?
Marco: Muito obrigado pelo elogio, Clovis. Nós temos diversos materiais gravados em shows esporádicos e de forma caseira. Somente o BMU [Brasil Metal Union] de 2005 foi gravado para um lançamento em DVD, pela Hellion Records, na época. Nunca foi lançado, infelizmente, mas me parece que entrou em catálogo pela Hellion. Muitos perguntaram mas nunca vimos o DVD físico. Quanto a registros não utilizados, não temos nada na manga, tudo que o que você pode achar no Youtube é aquilo que possuímos.

Pelo que me lembro, saíram músicas gravadas ao vivo no BMU e em um show em Curitiba na coletânea When the Dragons Are Kings: The First Ten Years, de 2008. Vocês tem esses shows completos em algum lugar?
Marco: Não, infelizmente não temos. Aquelas gravações foram feitas de forma “não autorizada pela banda”, mas acabaram ficando tão boas que resolvemos trabalhar nelas e lançá-las, mas é somente isso que possuímos. Nunca tivemos a preocupação de registrar os momentos da banda ao longo desses 21 anos, então tudo o que se acha da banda é coisa rara.

Como é montar um setlist tendo tantas ótimas músicas em seu catálogo? Pensam em resgatar algumas coisas do passado, há muito não tocadas, como “Night Corsairs” ou “Underdark”? Ou quem sabe até mesmo “Spreading Fire”?
André: Clóvis, meu caro, pelo que conheço de ti, estou considerando esta pergunta como um pedido especial para o próximo Metal Warriors (risos). Estamos para introduzir músicas que não tocamos no próximo show, mas pessoalmente, quero tocar algumas do Battle Sanctuary que não foram tocadas ao vivo ainda. No último show que fizemos, abrindo para o Uli Jon Roth, introduzimos a canção “Circle of One”. Mas vamos considerar sim tocar alguma música mais antiga para o set.

André Mendes ao vivo com o Dragonheart (foto: Clovis Roman)

Nos falem sobre a importância de um festival como o Metal Warriors, que chega a sua 5ª edição promovendo a união das bandas autorais de Metal de Curitiba.
André: A ideia do Metal Warriors é realmente muito boa. Promovemos os shows, o que faz as bandas ficarem ativas, de certa forma. Tradicionalmente tínhamos Aquilla, Disharmonic Fields e Dragonheart, mas desde a quarta edição propusemos um rodízio entre estas três. Na quinta estamos de volta e as outras duas bandas voltarão no sexto evento. Desta vez poderemos compartilhar o palco com Tandra, Mythologica e Sad Theory, bandas que farão parte do cast pela primeira vez. Cada banda se envolve, ajuda e participa, ainda que a liderança da organização caiba ao Marllon Gaio, que vem fazendo um ótimo trabalho. Temos bons parceiros que ajudam desde a primeira edição, que são Zero Cinco Propaganda, Acesso Music, Dragon’s Cave Studio e o John Bull e agora o tem a entrada de outros parceiros, como a Escola de Música Beethoven-Haus, a Harpia Custom Guitar, Funds House Studio, Metal Zone e I Wanna Rock CWB. Toda essa colaboração compartilhada é boa, faz com que todos nos sintamos parte desta comunidade. Torcemos e trabalharemos para que o evento continue vivo e se expanda. Precisamos inclusive criar ações para trazer um público de jovens no evento também. Existem poucas oportunidades para bandas que tocam seu próprio material, então, é importante mantermos esse evento.

Vocês acham que faltam outras iniciativas similares? Como vocês enxergam a cena local, tanto pelas bandas quanto pelo público?
André: Estão ocorrendo alguns eventos bons. Tivemos em outubro o Metal For Children organizado pelo meu amigo Eduardo “Urso” Slammer. A organização do Blood, através do Sérgio Mazul, tem eventualmente realizado shows com bandas de material próprio em alguns domingos, e o resultado tem sido positivo. O 92 Graus e o Lado B estão com frequência apresentando bandas com som autoral. O underground continua vivo, as bandas continuam produzindo. Falta talvez organizar um grande evento, com participação de todos os produtores, num bom espaço e tentar juntar todo esse público numa única grande apresentação de bandas. O peso de um grande evento, cheio, fortalece tudo e todos. Curioso termos uma cidade repleta de bandas boas e nunca conseguimos fazer nada próximo ou parecido com um River Rock [N. do R.: festival de Santa Catarina que reúne bandas autorais e dura dias], por exemplo. As eventuais divergências que ocorrem devem e podem ser ignoradas, pois no final, estamos todos no mesmo barco. Sonho com algo assim. O público para bandas com som próprio é menor, de fato, e eis a razão pela qual é preciso atrair os mais jovens. As gerações da qual eu e você fizemos parte receberam o “bastão” de outros, e creio ser necessário deixar esse legado. Um grande evento, com certeza, poderia atrair muita gente nova e dar uma vida ainda mais pujante para o estilo em nossa cidade. Sonho que o Metal Warriors possa ser isso um dia.

Qual banda ou artista vocês acham que gravaria uma cover bacana de alguma das músicas do Dragonheart?
André: Por que não o Dalborga (risos)? Eu gosto da ideia de fazer versões, não necessariamente iguais ao original. Um amigo nosso, Peter Kelter, da banda Thunderlord, recentemente me falou que pretendiam tocar The Blacksmith em seus shows.


Abaixo, alguns cliques – a maioria inéditos – de Clovis Roman, em show do Dragonheart na 3ª edição do Metal Warriors, que rolou em 2017. A resenha desse evento você confere aqui.

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