[Entrevista] Angelo Arede fala sobre o excelente momento da Gangrena Gasosa

Nenhum comentário

Dois dias após o glorioso show do Gangrena Gasosa em Curitiba, cuja resenha você confere aqui, sentamos nas mesas no Hangar, numa segunda-feira tranquila, com o vocalista Angelo Arede, integrante da banda há cerca de 25 anos, para uma entrevista bem descontraída sobre a banda e seus planos.

O vocalista passou o final da semana na cidade para curtir e nessa noite, um dia antes de voltar para casa, nos recebeu com uma simpatia sem igual para tomar uma cerveja e falar sem pressão sobre o ótimo momento que vive a banda carioca.

por Clovis Roman

Impressões do show em Curitiba:
Rapaz, eu já tinha tocado aqui antes, mas esse show em particular foi uma energia muito foda. A galera ficou do começo ao fim cantando todas as músicas, agitando em todas. Foi uma troca de energia, a gente vem pra fazer nosso show profissional, mas quando tem essa energia do público a coisa fica diferente, bicho. A troca foi sensacional.

Clipe mais recente da banda, com cenas ao vivo.

Após quase 10 anos do Desagradável, é hora de um novo DVD ao vivo?
Outro ao vivo? Sempre faz parte, acho que é importante, principalmente pois na Gangrena a gente tem toda a coisa da performance ser muito forte. Tanto é que o último disco, Gente Ruim Só Manda Lembrança Pra Quem Não Presta, que lançamos em 2018, foi gravado ao vivo, para pegar essa força, essa energia. Faz toda a diferença, mesmo sendo em salas separadas, você tocar tudo ao mesmo tempo. A gente gravou num estúdio foda, tinha até câmera para ver os outros integrantes tocando em tempo real, como se fosse em um ensaio, com retorno foda e tudo funcionando. Quando tocam todos juntos é outra vibe. Essa energia do ao vivo, mesmo tendo gravado dessa forma, é sempre diferente. Sim, a gente vai gravar outro ao vivo, vamos ver. Quem sabe não é aqui em Curitiba?

Há planos para uma sequência do documentário Desagradável (2011), afinal, muita coisa já aconteceu nesses últimos 8 anos, não é?
Aconteceu, aconteceu muita coisa [risos]. A gente tem essa ideia sim, só que banda independente tem que focar. Se você tenta abraçar o mundo você não faz nada. Nosso foco para 2020 é disco novo. Eu quero fazer com que a Gangrena nunca mais passe mais de dois anos sem gravar. Era pra ser um ano, né? Mas é aquilo, a vida acontece nesse meio tempo. Mas esse ano já teremos coisa para lançar. Primeira mão, caralho! Esse ano ainda ainda vamos lançar um EP, e ano que vem tem disco novo, para inaugurar a década de 20.

O Saci, um dos destaques do último disco da Gangrena Gasosa.

A ideia então é manter a regularidade?
Mesmo sem ter a densidade de um disco, entre o Se Deus é 10 Satanás é 666 (2011) e o Gente Ruim Só Manda Lembrança Pra Quem Não Presta (2010), a gente lançou o DVD Desagradável, de forma completamente independente, em 2013. Logo depois, acho que em 2015, fizemos a trilha sonora para o Fábulas Negras, pro filme do Rodrigo Aragão, que juntou vários diretores em um longa. Um dos diretores era o Mojica, Zé do Caixão. E por uma brincadeira do destino a gente fez o curta, dentro deste longa, dirigido pelo Zé do Caixão, que é O Saci. Fizemos versões acústicas, e a versão que saiu no Fábulas Negras, é o que virou a música “O Saci”. Na verdade depois do Se Deus é 10 Satanás é 666, a gente teve esse esse tempo entre um disco e outro mas a gente nunca parou. Continuamos produzindo. Mas agora não, agora é disco toda hora [risos].

A banda parece estar no momento numa unidade bem sólida.
Está sim cara, tá sim. Todo mundo se gosta, isso que é o mais importante. Claro que a música é importante, pois o público, o fã, quer saber de música. Mas para essa música acontecer, para as coisas funcionarem bem, as pessoas tem que se gostar. Algumas vezes por sorte ou não, aconteceu de ter essa sinergia, mas que eu me lembre – e eu entrei na banda em 94 – a banda passou muitos anos com membros dentro da banda se odiando, e agora isso não acontece mais. Se tem alguma energia zoada dentro da banda, a coisa já não flui e a gente faz questão que a coisa mude. Não vou nem dizer que é por sorte, pois não é por sorte não, mas agora a gente estabeleceu critérios para as pessoas entrarem na banda, que ajudam nessa coisa. Hoje em dia a coisa funciona com uma grande diversão, e isso transparece ao público, e no disco. Quando você toca num ambiente cagado, a música pode até acontecer, mas ao vivo você não engana ninguém, sacou? Agora tá tudo certo.

Gangrena Gasosa ao vivo em Joinville/SC, 2019 (foto: Clovis Roman)

Crenças pessoais.
Minha mãe é ialorixá, de candomblé. Mas ela sempre me deixou muito livre para ver se eu queria seguir esse caminho ou não. Eu até por uma questão de proximidade e familiaridade e tal, eu cresci nesse ambiente. Mas eu, hoje em dia, tenho um grande respeito e admiração pela Umbanda, Candomblé e religiões de matrizes africanas, mas não sou praticante. Minha opinião pessoal, do que eu acho que é importante que a Gangrena faz, ainda mais nos dias de hoje, é trazer a normalidade para essa coisa das religiões de matrizes africanas. A Gangrena nunca teve essa coisa de levantar a bandeira, de ser panfletário da coisa, mas brincando, brincando, a gente fala o sério, né? No momento que a gente hoje não dá mais para dar mole, irmão. Não dá mais. A minha opinião pessoal, fora o foco da banda, é que isso é importante pra caralho sim, para trazer essa normalidade para a garotada. Hoje em dia é muito comum no Rio de Janeiro, algo impensável, os traficantes estão expulsando mães de santo nas favelas. Agora tem traficante de cristo, velho! Você vê como esses tentáculos se estenderam até isso.

Então é pra essa garotada de hoje, a piazada, como vocês falam aqui [risos] e que curte Metal, tem que tirar esse tabu. Povo de santo não é povo que faz mal pros outros, que faz macumba para prejudicar os outros não. Até tem gente que faz isso, assim como tem gente que diz que professa Jesus Cristo e deseja morte dos outros, sacou? Na minha opinião pessoal, o que o Gangrena faz hoje é importante, não só musicalmente, mas como pessoalmente, para trazer a normalidade para esse tema que é um tabu, como você falou. Quando eu era moleque, era normal dia de Cosme e Damião, a rua ficar repleta de gente. Eu sou de Irajá, subúrbio do Rio, e tudo parava, era carro distribuindo doces e a rua cheia de garotada. Hoje em dia se a criança vai pegar doce, basta ter uma tia evangélica que já não permitem que a criança vá. Fala que é coisa do Diabo. Não é não, cara! Coisa do Diabo é desejar o mal pros outros, coisa do Diabo é ser preconceituoso. E outra coisa, o Diabo é construção da igreja para você se sentir culpado, sacou? O Diabo, Satanás, é construção da igreja para você se sentir um merda. Para você ter rédea curta para fazer o que eles mandam. E pau no cu! Eu fico logo com raiva, e falo ‘mermo’ [risos].

Documentário ‘Desagradável’ na íntegra. Vale a pena.

Foto da capa: Clovis Roman

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s